Ela nasceu em 19 de agosto de 1930. Dona Orly de Oliveira Nunes partiu em silêncio, no quarto da casa da filha, enquanto descansava e dormia, nesta sexta-feira, dia 21.
Dois dias antes, havia celebrado, com alegria, seus 96 anos. Cantou parabéns, recebeu abraços, ouviu desejos de muitos anos de vida. Ninguém imaginava que aquela festa seria sua despedida tão próxima.
Filha de Eliseu Xavier Nunes e Umbelina de Oliveira Nunes, Orly carregava no sangue um pedaço importante da história de Piúma. Seu pai não apenas empresta o nome ao plenário da Câmara Municipal. Deixou suas digitais na cidade, como quem escreve a própria história sem saber que um dia ela seria contada.
Eliseu foi coletor, profissão de grande importância em outros tempos, quando a cobrança de impostos era feita de porta em porta, presencialmente. Visitava casas, comércios e propriedades, arrecadava e registrava pagamentos. Em janeiro de 1964, chegou a ser nomeado para assumir o cargo de interventor na administração da cidade recém-emancipada. Não chegou a tomar posse, em razão da idade avançada.
Mas a história de Orly não se resume ao sobrenome.
Ela também foi uma mulher que, em seu tempo, precisou fazer escolhas que talvez hoje pareçam difíceis de compreender.
Apaixonou-se por um homem livre, artista circense, apaixonado pela arte e pelo mundo. Com ele teve dois filhos: Umbelina e Gilson.
Um dia, o artista lhe fez uma escolha: acompanhá-lo para onde o circo fosse ou permanecer em Piúma, junto dos filhos e da família.
E Orly escolheu ficar.
Talvez tenha escolhido a segurança dos filhos. Talvez tenha ouvido a voz da mãe, que não queria ficar longe da neta que carregava o seu próprio nome. Talvez tenha escolhido simplesmente aquilo que seu coração de mãe entendia ser o certo.
E o circo seguiu estrada.
Ele partiu pelo mundo. Anos depois, quando a menina já estava crescida, voltou a procurar Orly. Queria o divórcio para se casar novamente. Já havia construído outra família, outros filhos, outra história.
Orly assinou.
E seguiu.
Nunca mais namorou.
Criou seus dois filhos com honestidade, dignidade e trabalho. Morou com a irmã até sua morte, no Centro de Piúma. Viveu uma vida inteira sem precisar de grandes discursos para deixar sua marca.
Sua casa foi também a cidade.
Entre enciclopédias Barsa, livros, prateleiras, pesquisas e estudantes, dedicou boa parte da vida à Biblioteca Pública de Piúma. Foi uma das primeiras servidoras públicas do município e ali permaneceu até sua aposentadoria, por volta dos anos 1990.
Orly ajudou a guardar aquilo que o tempo insiste em apagar: os livros, as histórias, as palavras e a memória de um povo.
E talvez seja justamente por isso que sua própria história mereça ser preservada.
Ela era irmã de Dulce de Oliveira Nunes, que registrou Piúma à mão, escrevendo capítulos da história da cidade que posteriormente foram publicados sob a organização dos escritores Cristiano Bodart, Cassiane da C. R. Marchiori e Alexandro Ferreira de Souza.
Nos escritos de Dulce, a Piúma de outros tempos aparece viva. A política, a cultura, a natureza, as pessoas, os pequenos detalhes. Tudo observado por quem amava profundamente sua terra natal.
Orly também era irmã de Arnoldo Xavier Nunes, tabelião e um dos primeiros vereadores de Piúma, integrante da primeira legislatura da Câmara Municipal, entre 1967 e 1971. Uma família que ajudou a escrever páginas importantes da Cidade das Conchas.
Genes, Ely, Adalcy, Edgard, Moacyr e tantos outros nomes completam essa árvore familiar que se espalhou pelas ruas e pela memória de Piúma.
As marcas dos Nunes estão muito além das paredes do plenário que leva o nome de Eliseu Xavier Nunes ou da avenida onde está a Escola Professora Filomena Quitiba.
Estão nas histórias.
Nas lembranças.
Nos documentos.
Nas fotografias.
Nos livros.
E nas pessoas.
Como tão bem escreveu o escritor piumense Nelson Serafim, em Piúma, cada rua guarda uma história e cada praça carrega uma memória.
E foi justamente na praça em frente à Caixa Econômica Federal, onde hoje outra paisagem se apresenta, que um dia viveu a família de Eliseu e dona Umbelina. Ali, entre os caminhos de uma Piúma que já não existe da mesma maneira, uma família cresceu e deixou suas marcas.
Nesta sexta-feira, dona Orly voltou para casa.
Foi velada na Igreja Maranata, no Centro, lugar que frequentou durante grande parte da vida. Depois, seguiu para o Cemitério do Centro, onde repousa o jazigo da família piumense.
Talvez a morte seja mesmo uma espécie de silêncio.
Mas há pessoas que, mesmo depois de partir, continuam falando.
Falam pelas ruas que percorreram.
Pelos filhos que criaram.
Pelos livros que ajudaram a guardar.
Pelas histórias que deixaram.
Pela memória de uma cidade inteira.
Dona Orly partiu aos 96 anos, mas não parte sua história.
Ela fica em Piúma.
Fica na memória daqueles que a conheceram.
Fica na história de uma família que ajudou a construir a Cidade das Conchas.
E fica, agora, também nestas palavras.
Descanse em paz, dona Orly.
O Jornal Espírito Santo Notícias se orgulha de registrar um pequeno pedaço de sua linda trajetória e estende seu abraço aos familiares e amigos, desejando conforto neste momento de despedida.
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Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br