Índice de corrupção aponta deterioração em democracias; Brasil repete pior colocação

O Índice de Percepção da Corrupção (IPC) de 2025, divulgado nesta terça-feira, 10, pela Transparência Internacional, revela um cenário de deterioração institucional que vai além de regimes autoritários e atinge em cheio democracias historicamente associadas à “boa governança”. Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Suécia registraram baixa nas pontuações, em um movimento que a entidade classifica como sintomático de um desgaste mais amplo no Ocidente.

O levantamento avaliou 182 países e territórios. Apenas 31 melhoraram suas notas em relação ao ano anterior, enquanto 50 registraram números piores. Na escala que vai de 0 a 100 — em que pontuações mais baixas indicam maior percepção de corrupção — o quadro geral é de estagnação ou retrocesso, com redução no número de países considerados de alto padrão de integridade.

Os Estados Unidos alcançaram sua pior marca desde o início da série histórica, com 64 pontos, caindo para a 29ª posição no ranking. Segundo a Transparência Internacional, o resultado reflete um ambiente político marcado pela politização das instituições, ataques recorrentes a jornalistas e organizações da sociedade civil e decisões que fragilizam a independência do Judiciário. Segundo o relatório, parte desses retrocessos se intensificou no início do segundo mandato de Donald Trump.

Esse desgaste institucional, no entanto, não é pontual. A entidade aponta um processo acumulado ao longo dos últimos anos, com controvérsias envolvendo a Suprema Corte e o uso de cargos públicos para retaliar adversários, silenciar vozes independentes e relativizar normas anticorrupção. Tais práticas, afirma o relatório, “normalizam conflitos de interesse e enviam um sinal perigoso de tolerância à corrupção”.

O Reino Unido também segue a mesma trajetória. Desde 2015, o país perde posições no ranking e, em 2025, caiu para o 20º lugar, com 70 pontos. A Transparência Internacional atribui o recuo a sucessivos escândalos ligados ao financiamento político, ao lobby pouco transparente e à nomeação de aliados e grandes doadores para cargos estratégicos.

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O relatório alerta que o país pode permanecer “atolado em escândalos”, diante de novas revelações envolvendo figuras centrais da política britânica e o financista Jeffrey Epstein, além de doações milionárias que garantiram acesso privilegiado de financiadores ao governo.

Outras democracias ocidentais também escorregaram no ranking ao longo da última década. A Nova Zelândia caiu nove pontos e aparece agora com 81; a Suécia perdeu oito, chegando a 80; e o Canadá recuou sete pontos, para 75. A Alemanha teve uma queda mais moderada, de quatro pontos, para 77, embora tenha registrado leve recuperação em relação ao ano anterior.

A França perdeu quatro pontos na última década e chegou a 66, em um contexto de redução da repressão à corrupção e aumento dos riscos de conluio entre agentes públicos e interesses privados. O relatório, no entanto, destacou como sinal positivo a condenação do ex-presidente Nicolas Sarkozy pelo recebimento de recursos ilícitos — inclusive do regime do ex-ditador líbio Muammar Kadafi — usados em sua campanha presidencial.

Nesse cenário, o Brasil permaneceu estagnado e repetiu sua pior colocação histórica: 107º lugar, com 35 pontos, bem abaixo da média global, de 42. A Transparência Internacional aponta fragilidade institucional persistente e falta de avanços estruturais no combate à corrupção, apesar de iniciativas pontuais para conter ataques à democracia. A variação de apenas um ponto em relação a 2024 é considerada estatisticamente irrelevante.

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No topo do ranking, a Dinamarca manteve a liderança pelo oitavo ano consecutivo, com 89 pontos, seguida por Finlândia, Singapura, Nova Zelândia, Noruega, Suécia e Suíça. Ainda assim, o relatório chama atenção para a redução no número de países com pontuação acima de 80, parâmetro associado a altos padrões de integridade pública.

Na outra extremidade da tabela, o Sudão do Sul aparece na última colocação, empatado com a Somália, atrás ainda de países como Venezuela, Iêmen e Líbia. Segundo o relatório, nesses casos marcados por regimes autoritários, a corrupção é sistêmica e se manifesta em praticamente todos os níveis.

Apesar do cenário predominantemente negativo, o relatório identifica avanços pontuais. A Ucrânia foi elogiada pela consolidação de sua estrutura anticorrupção mesmo em meio à guerra contra a Rússia. Embora escândalos recentes indiquem que o problema persiste, sobretudo no setor de defesa, o fato de os casos virem a público e resultarem em processos judiciais é visto como sinal de funcionamento institucional.

Também registraram melhora países que saíram da parte inferior para o centro do ranking, como Albânia, Angola, Costa do Marfim, Laos, Senegal, Ucrânia e Uzbequistão, além de ganhos consistentes em nações já bem avaliadas, entre elas Estônia, Coreia do Sul, Butão e Seychelles.

Fonte do Conteudo: Júlia Sofia – veja.abril.com.br

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