Um novo estudo feito com camundongos sugere que o cérebro pode não nascer como uma “tábula rasa”, esperando que as memórias sejam escritas nele. Em vez disso, a pesquisa indica que uma região importante para a memória começa a vida com uma rede de conexões densa e aparentemente desorganizada, que vai sendo refinada ao longo do desenvolvimento.
O estudo, publicado em abril na revista Nature, foi conduzido por neurocientistas do Instituto de Ciência e Tecnologia da Áustria (ISTA). A equipe analisou o circuito CA3 do hipocampo, região do cérebro envolvida na memória espacial e na transformação de lembranças de curto prazo em memórias de longo prazo.
Ao estudar cérebros de camundongos desde os primeiros dias de vida até a fase adulta, os pesquisadores observaram que os neurônios piramidais CA3 começavam formando uma rede local, densa e aleatória. Com o passar do tempo, porém, essa rede se tornava mais esparsa, distribuída e estruturada.
A descoberta chama a atenção porque contraria a ideia intuitiva de que o cérebro partiria de poucas conexões e ficaria mais complexo à medida que aprende. Segundo Peter Jonas, um dos autores do estudo, o que ocorre parece ser o oposto: a rede começa “cheia” e depois passa por um processo de poda, tornando-se mais enxuta e eficiente.
Resultados
Para chegar aos resultados, os cientistas mediram a atividade elétrica e mapearam conexões entre neurônios em três fases do desenvolvimento dos camundongos: por volta de sete a oito dias de vida, entre 18 e 25 dias e, depois, entre 45 e 50 dias. A análise mostrou uma transformação progressiva do circuito de memória do hipocampo.
A hipótese dos pesquisadores é que esse “excesso” inicial de conexões pode ajudar o cérebro em desenvolvimento a aprender mais rápido. Em uma comparação simples, seria como nascer com uma rede ampla de estradas já disponível e, ao longo do tempo, manter apenas os caminhos mais úteis.
Se o cérebro começasse realmente do zero, os neurônios precisariam primeiro “encontrar” uns aos outros antes de estabelecer comunicação eficiente. Isso poderia tornar o aprendizado mais lento em uma fase em que o organismo precisa integrar rapidamente informações vindas dos olhos, ouvidos e nariz.
Os autores destacam que o hipocampo tem justamente a função de conectar diferentes tipos de informação. Por isso, uma conectividade inicial mais exuberante, seguida por uma poda seletiva, pode ser uma estratégia do cérebro para organizar melhor a formação e a recuperação de memórias.
Ainda não se sabe se o mesmo mecanismo ocorre da mesma forma no cérebro humano. Como o estudo foi feito em camundongos, os resultados ajudam a entender processos básicos do desenvolvimento cerebral, mas não permitem concluir diretamente que bebês humanos nasçam com esse mesmo padrão de conexões.
O desenvolvimento do cérebro não depende apenas de criar novas conexões, mas também de eliminar, reorganizar e fortalecer circuitos.
Fonte do Conteudo: Metrópoles – www.metropoles.com