Dani Monteiro: Abolição para quem?

Todo ano, no dia 13 de maio, o sentimento que me toma enquanto mulher preta é de uma claríssima escolha política. Afinal, podemos seguir repetindo a falsa narrativa de uma abolição da escravatura benevolente ou encarar a verdade histórica de que a liberdade formal não significou justiça para o povo negro. Caros leitores, como mulher favelada, filha de uma história de resistência e parlamentar eleita pelo meu comprometimento fiel com os direitos humanos, me recuso a celebrar uma abolição que abandonou milhões de pessoas à própria sorte, sem terra, sem reparação e sem dignidade. O fim legal da escravidão não significou o fim do racismo, mas me parece ter significado sua reorganização.

Passados 138 anos, os números mostram que a herança escravocrata segue ditando a vida no Brasil. Na educação, a exclusão permanece: a maioria dos jovens que não concluiu o ensino médio é preta ou parda. Quando falamos de ensino superior, negros ainda acessam menos da metade das oportunidades destinadas aos brancos. Imagina sem as cotas? Pois é. No mercado de trabalho, a desigualdade se repete em salários mais baixos, maior informalidade e na precarização crescente que hoje chamamos de modernização, mas que muitas vezes se parece com a velha exploração de sempre.

Isso quando estamos vivos. A falsa abolição também se revela no genocídio cotidiano da população negra. Um jovem negro segue sendo assassinado neste país em intervalos que chocam, enquanto mulheres negras seguem sendo as maiores vítimas da violência de gênero. Não são meros números, não estamos falando apenas de estatísticas. Estamos falando, sim, de vidas interrompidas por um projeto histórico que nunca rompeu completamente com a terrível lógica colonial.

Combater o racismo é, necessariamente e fundamentalmente, defender direitos humanos. São atos indivisíveis.

Falando em calendário, só posso escolher voltar uns meses para celebrar outro caminho: o da consciência negra. Um novembro de luta é um compromisso permanente com memória, verdade e transformação. Consciência negra é reconhecer que não há democracia real sem enfrentamento ao racismo estrutural. É reafirmar que reparação não é privilégio, nem favor. Reparação é justiça histórica.

Políticas de ação afirmativa e cotas raciais não são concessões, são o mínimo que o Estado deve à população negra depois de séculos de exploração e abandono.

E assim vamos garantindo direitos, abrindo caminhos, redistribuindo poder e corrigindo os apagamentos que nos atravessam há tanto tempo. Nossa resistência é arma para também recontar nossa própria história.

Foi esse compromisso que nos moveu na luta pelo reconhecimento dos 11 Heróis e Heroínas da Floresta da Tijuca, pessoas negras escravizadas que replantaram mais de 100 mil árvores e ajudaram a garantir a água e a vida na cidade do Rio de Janeiro, mas que foram silenciadas pela história oficial. Com muito orgulho, sou a autora da lei que transforma essas pessoas, antes desconhecidas, em nomes alçados aos seus reais patamares de heróis do estado do Rio.

Memória também é política pública e, quando resgatamos esses nomes, devolvemos humanidade a quem foi reduzido à condição de ferramenta braçal, e reafirmamos nossa crença na cultura como motor de transformação.

Neste 13 de maio, não há o que comemorar: nós vamos continuar a denunciar, reparar e transformar. Nossa luta continua porque a liberdade verdadeira ainda é um trabalho coletivo em construção. E, como vocês já sabem, a luta também se faz nas ruas e nos territórios da memória. Então, convido vocês para se juntar a mim nos dias 23 e 30 de maio, quando iremos promover atividades em homenagem aos 11 Heróis e Heroínas da Floresta, tanto na Floresta da Tijuca quanto junto ao coletivo Faz na Praça, na Saens Peña, na Tijuca, Zona Norte do Rio. A programação completa vai sair nas minhas redes sociais e será muito emocionante, com muita cultura e educação nas ruas e nas florestas. Te vejo lá?

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Fonte do Conteudo: Dani Monteiro – diariodorio.com

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