Há algo de mágico acontecendo aos fins de semana na região da Praça XV. E talvez nenhum outro lugar do Rio consiga hoje reunir, ao mesmo tempo, missa solene, coral e orquestra, botequim lotado, galerias de arte fervilhando, samba na rua e sinos do século XVIII duelando sobre a multidão.
Foi exatamente essa cena improvável — e profundamente carioca — que se desenhou neste sábado na Rua do Ouvidor, bem na hora do almoço.
Tudo começou dentro da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. A Santa Missa, celebrada com coral completo e orquestra, encheu novamente a pequena igreja colonial de música sacra, incenso e aquela atmosfera que faz parecer, por alguns instantes, que o Centro do Rio voltou a ser o coração espiritual da cidade. O som de Handel, Bach e Mozart ecoava sob os altares dourados enquanto o movimento crescia do lado de fora.
Quando a celebração terminou, a rua já fervilhava.
As mesinhas dos bares e botequins ocupavam como sempre as ruas – deixando lotadas as calçadas, os centros culturais estavam cheios, galerias de arte recebiam visitantes, grupos se espalhavam pelas esquinas com copos na mão e, ao fundo, começava aquele samba alegre e espontâneo que tomou conta da Praça XV nos últimos anos. Os guias de turismo acompanhavam multidões de brasileiros e estrangeiros para lá e para cá. Era uma tarde luminosa de outono carioca: sol forte, mas sem calor excessivo, com o Centro tomado por uma multidão visivelmente feliz por estar ali.
Foi então que um grupo de amigos atravessou poucos metros até o pitoresco Toca do Baiacu, hoje um dos símbolos dessa nova/velha boemia da Rua do Ouvidor. O pedido veio inevitável: a já famosa rabada fumegante da casa, que chega à mesa envolta num perfume quase irresistível, acompanhada de um molho à campanha tão colorido quanto saboroso — preparado com não um, nem dois, mas três tipos de pimentão, além da cebola roxa que lhe dá aquele aspecto vibrante e quase carnavalesco.
Enquanto o samba crescia rua afora, enquanto garçons se espremiam entre as mesas e artistas circulavam entre os equipamentos culturais da região, aconteceu algo que parecia saído de outra época.
Pontualmente, a cada completar de horas redondas da tarde, os sinos começavam a duelar. Os gigantes de bronze, silenciados em tantas partes da cidade, ali, voltam a ser protagonistas a cada hora.
Primeiro a Lapa dos Mercadores.
E logo em seguida, quase como uma resposta, os sinos da Igreja da Irmandade da Santa Cruz dos Militares, exatamente do outro lado da Rua do Ouvidor.
Então instalou-se uma espécie de guerra sonora sobre o Centro Histórico. A Lapa repicava. A Santa Cruz respondia.
Os bronzes antigos pareciam conversar sobre as cabeças da multidão, atravessando o samba, o tilintar dos copos, o riso das mesas, o batuque do pagode e o movimento incessante da rua. Por alguns minutos, de hora em hora, em meio ao saudável bate papo de amigos, a região inteira transformava-se numa experiência sensorial absolutamente única: música sacra e samba, barroco e botequim, igreja e boemia, tudo coexistindo numa harmonia improvável que talvez só o Rio de Janeiro seja capaz de produzir.
E talvez seja justamente isso que esteja devolvendo alma à região da Praça XV.
Porque o velho Centro nunca foi um lugar silencioso ou cenográfico. Durante séculos, ele foi organizado pelos sons: os sinos marcavam as horas, chamavam para as missas, anunciavam procissões, avisavam incêndios, mortes e festas. Ao mesmo tempo, as ruas fervilhavam de comércio, cafés, tavernas, música, encontros e confusão.
O que acontece hoje aos sábados na Rua do Ouvidor, é, em menor escala, nos outros dias, parece, de certa forma, uma retomada dessa tradição perdida.
Não como reconstituição artificial para turista ver, mas como cidade viva de verdade.
Uma cidade onde ainda é possível sair de uma missa com coral e orquestra numa igreja setecentista, sentar-se num botequim simples diante de uma rabada fumegante, ouvir samba ao ar livre, visitar galerias de arte lotadas e, de repente, ser surpreendido por uma batalha de sinos históricos ecoando entre sobrados coloniais.
Poucos lugares do Rio conseguem hoje condensar tanta história, tanta beleza e tanta vida em apenas algumas quadras.

Fonte do Conteudo: Bruna Castro – diariodorio.com
