O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) solicitou que os policiais militares Gustavo Artur Vieira de Jesus, Vilmar Amaral da Silva Júnior e Yuri Basílio Cardoso sejam julgados no Tribunal do Júri por atirarem e matarem um passageiro que estava em uma BMW que furou uma blitz, em outubro de 2023.
Segundo o requerimento do MPDFT, há “prova da materialidade e indícios suficientes” para que o caso seja analisado pelo Tribunal do Júri — responsável por julgar crimes dolosos contra a vida.
“Nesse cenário, o cerne da questão gira em torno de analisar a presença do dolo na conduta dos réus e eventual incidência de alguma excludente de ilicitude em face das alegações dos denunciados ao longo da instrução” diz parte do documento do Ministério.
O protocolo, agora, exige que o juiz tenha um prazo de 10 dias para analisar o requerimento e verificar se existem elementos mínimos que justifiquem submeter o caso ao julgamento pelo júri popular, conforme explicou Marcus Gusmão, advogado especialista em direito penal.
Segundo Gusmão, o juiz vai analisar ainda se a ação dos policiais pode ser entendida como legítima defesa ou estrito cumprimento do dever legal. Caso esse seja o entendimento, o juiz pode decidir por absolver os réus ou, caso reste dúvidas, submeter ao júri popular.
“O juiz pode tomar diferentes decisões: pronunciar os acusados e encaminhar o caso ao júri, impronunciar por falta de provas suficientes, absolvê-los sumariamente ou ainda desclassificar o crime, caso entenda que não se trata de um crime doloso contra a vida. Em síntese, nessa fase, o Judiciário atua como um filtro, verificando se há base mínima para que a sociedade, por meio do Tribunal do Júri, faça o julgamento definitivo do caso”, detalhou o especialista.
Relembre o caso
Na noite de 23 de outubro de 2023, a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) realizava uma blitz na Estrada Parque Abastecimento e Armazenagem (EPAA), DF 010. O motorista, Raimundo Cleófas Alves Aristides Júnior, que dirigia uma BMW, foi parado e solicitado de que abrisse os vidros e descesse do veículo.
Raimundo não obedeceu às ordens do militares e avançou com o carro contra Yuri Basílio Cardoso, atingindo o joelho do policial. Os PMs, então, passaram a atirar contra o veículo e, segundo o documento do MP, o disparo efetuado por Gustavo Artur Vieira de Jesus foi o que causou a morte do passageiro do veículo, Islan da Cruz Nogueira, aos 24 anos (foto em destaque).
Segundo o MPDFT, o disparo efetuado por Gustavo ocorreu depois que o motorista já havia ultrapassado a barreira de contenção da blitz, o que afasta a possibilidade de que teria sido para impedir que o Raimundo furasse a contenção.
“Nesse cenário, é correto afirmar que Gustavo efetuou o disparo fatal quando o veículo já havia ultrapassado a posição do réu, que estava na segunda barreira policial, o que, por si só afasta a plausabilidade de qualquer alegação de que o tiro foi destinado a tão somente impedir o avanço do automóvel, reforçando, por conseguinte, a presença do dolo na conduta do réu”.
Em relação aos disparos realizados pelos outros réus envolvidos no processo, o entendimento do Ministério é de que houve dolo na ação de ambos, uma vez que também aconteceram depois que o carro já tinha ultrapassado o bloqueio e que a direção do tiro poderia ter atingido o passageiro.
Outros policiais que também atiraram não foram citados no processo já que miraram nas rodas e partes mecânicas do carro. O MP cita que a ação dos outros militares demostra que os réus tinham uma outra “alternativa”, mesmo que essa não tenha respaldo legal.
“Registre-se aqui que tal ‘alternativa’ não constituiu procedimento respaldado sequer pela legislação em vigor, que expressamente impede o disparo de arma de fogo contra veículos que se evadem das chamadas ‘blitz’ de trânsito, e é aqui mencionada apenas para individualizar as condutas de todos os policiais que efetuaram disparos”.
Isso foi um dos fatores que fez o Ministério Público considerar que os policiais agiram de forma dolosa — ou seja, assumiram o risco de matar.

Islan foi socorrido, mas já chegou ao hospital sem vida
Arquivo Pessoal

Jovem era passageiro do BMW que furou blitz da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF)
Arquivo Pessoal

Islan foi morto com um tiro na cabeça disparado por policial militar
Arquivo pessoal

Islan tinha 24 anos
Arquivo Pessoal
Fonte do Conteudo: Metrópoles – www.metropoles.com