A inauguração do novo campus da Assembleia de Deus Fonte de Vida, em Vitória, chamou a atenção do Espírito Santo e do Brasil. São quase 30 mil metros quadrados, três templos, capacidade para receber até 12 mil pessoas simultaneamente, restaurante, cafeteria, livraria, lago artificial para batismos e equipamentos usados em grandes espetáculos.
O templo principal possui nove câmeras, incluindo uma Spidercam, conhecida pelas imagens aéreas em estádios de futebol. Há megatelão, iluminação de espetáculo, sistema de som L-Acoustics e mesa DiGiCo, utilizada no Rock in Rio. A igreja também desenvolveu um café e uma fragrância próprios. O visitante recebe vale-cappuccino e aromatizador de carro com o mesmo cheiro presente no templo.
Segundo o pastor Delano Santos, presidente da Fonte de Vida, tudo foi pensado para proporcionar uma experiência de excelência e levar as pessoas a conhecer Jesus. A igreja afirma que a tecnologia não ocupa o centro do culto. Seria apenas uma ferramenta para oferecer o melhor a Deus e aos fiéis.
A situação, porém, nos obriga a fazer algumas perguntas à luz do Evangelho puro e simples de Cristo: a excelência estrutural serve à adoração a Jesus Cristo ou transforma a adoração (que deve ser em espírito e em verdade) em espetáculo? Os recursos servem ao próximo ou à grandeza institucional? A estrutura conduz a atenção a Cristo ou à própria organização? Toda a excelência estrutural envolvida serve à proclamação do Evangelho ou compete com a simplicidade do mesmo e a centralidade da cruz de Cristo? Existe responsabilidade cristã no uso dos recursos?
É importante destacar que essa reflexão não diz respeito somente à Assembleia de Deus Fonte de Vida, mas a todas as igrejas cristãs que têm investido pesado em estrutura física e marketing para atrair os fiéis a uma experiência exclusiva, própria de grandes marcas.

Um Messias que não atraía pela aparência
Ao anunciar a chegada do Messias, Isaías não descreveu uma figura revestida de esplendor.
“Ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada havia em sua aparência para que o desejássemos” (Isaías 53:2, NVI).
Jesus veio de Nazaré, uma cidade desprezada. Foi conhecido como carpinteiro e filho de carpinteiro. Era pobre. Não nasceu num palácio, não reuniu seus discípulos num edifício monumental e não utilizou os símbolos de poder de seu tempo para conquistar seguidores.
Isso não significa que beleza, arte, organização ou tecnologia sejam pecaminosas. O tabernáculo e o templo do Antigo Testamento possuíam materiais preciosos e trabalhos artísticos. Também é legítimo que um espaço destinado a milhares de pessoas tenha boa acústica, segurança, acessibilidade e condições adequadas de acolhimento.
A pergunta, portanto, não é se uma igreja pode possuir um prédio grande ou um bom sistema de som. A pergunta é quando a estrutura deixa de servir à proclamação do Evangelho e começa a competir com ela.

A experiência pode substituir Cristo?
A Fonte de Vida afirma possuir uma “Gestão de Experiência”. Luzes, telões, imagens aéreas, fragrância, café e presentes são organizados para marcar sensorialmente quem chega. A pessoa entra, sente o aroma, participa do culto e leva o mesmo cheiro para o carro.
Mas uma experiência produzida por recursos técnicos pode ser apresentada como experiência com Jesus? Até que ponto o acolhimento permanece cuidado pastoral e quando passa a empregar as estratégias usadas por grandes marcas para fidelizar consumidores?
Jesus ensinou que os verdadeiros adoradores adorariam o Pai “em espírito e em verdade” (João 4:23). Paulo também afirmou que sua pregação não se apoiava em ostentação de linguagem ou sabedoria, para que a fé dos ouvintes não repousasse na capacidade humana, mas no poder de Deus (1 Coríntios 2:1-5).
O Evangelho não precisa ser embrulhado como produto. A fé não nasce de uma atmosfera cuidadosamente planejada. Ela vem pela pregação da Palavra de Cristo. Nenhuma luz, câmera, fragrância ou qualidade sonora pode produzir aquilo que somente o Espírito Santo realiza no coração.

Onde está o verdadeiro templo?
No Novo Testamento, o templo deixa de ocupar o centro da presença de Deus. “O Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas”, declarou Estêvão (Atos 7:48). A Igreja é formada por pessoas redimidas, apresentadas por Pedro como “pedras vivas” de uma casa espiritual.
Por isso, o tamanho de uma igreja não pode ser medido em metros quadrados, número de cadeiras ou capacidade tecnológica. Sua grandeza aparece na fidelidade à Palavra, na administração dos sacramentos, na oração, no cuidado com os necessitados, na comunhão e no envio de missionários.
A Fonte de Vida informa que sustenta 40 missionários em vários países. Esse trabalho precisa ser reconhecido. Mas a magnitude do novo campus também torna legítimas outras perguntas: quanto custou a obra? Como os recursos foram obtidos? Quanto foi investido na tecnologia? Quem aprovou o investimento e quais mecanismos de prestação de contas existem? Qual parcela do orçamento é destinada à assistência aos necessitados, às missões e ao cuidado das pessoas?
À luz das Escrituras, precisamos questionar quais prioridades orientam uma igreja quando ela decide possuir equipamentos apresentados como os melhores do mundo.

A excelência da cruz
A excelência cristã não deve ser confundida com grandiosidade. Na cruz, Deus revelou sua glória por meio daquilo que o mundo enxergava como fraqueza, vergonha e fracasso. Cristo não atraiu pecadores oferecendo uma experiência de luxo. Ele os chamou ao arrependimento, à fé e à renúncia de si mesmos.
Uma igreja pode ter milhares de lugares e permanecer fiel. Também pode reunir-se numa garagem, com 35 cadeiras de plástico, e ser uma verdadeira manifestação do corpo de Cristo. O edifício não comprova a bênção de Deus, assim como a simplicidade material, sozinha, não comprova fidelidade.
A questão decisiva é outra: quando as pessoas saem dali, ficam impressionadas com Jesus Cristo e sua cruz ou com a grandeza da instituição?
A Igreja não foi chamada para oferecer a melhor experiência religiosa da cidade. Foi chamada para pregar fielmente o Evangelho. Sua beleza não está nos telões, no perfume ou na arquitetura. Está no Cristo crucificado e ressurreto, que não tinha aparência que nos agradasse, mas levou sobre si as nossas dores e morreu pelos nossos pecados.
Fonte do Conteudo: Gustavo Gouvêa – eshoje.com.br