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Do cartão do Bolsa Família ao diploma: Jaqueline que enfrentou a violência doméstica se forma em Serviço Social | Jornal Espírito Santo Notícias

Mulher negra, mãe solo e vítima de violência, Jaqueline Esteves transformou as dificuldades da própria vida em inspiração para ajudar outras pessoas a conhecerem e acessarem seus direitos

“Eu descobri o Serviço Social quando eu mesma precisei dele.”

A frase de Jaqueline Esteves resume uma trajetória marcada por dificuldades, recomeços, resistência e transformação. Na noite desta quarta-feira (2), no Sesc, em Guarapari, ela viveu um dos momentos mais importantes de sua vida: a formatura em Serviço Social pela Faculdade Pitágoras / Anhanguera.

Jaqueline decidiu que não entraria na cerimônia apenas com o tradicional diploma nas mãos. Ela levou consigo também o cartão do Bolsa Família, símbolo de uma fase difícil da sua vida e, ao mesmo tempo, de uma política pública que, segundo ela, foi fundamental para que pudesse recomeçar.

Natural de Campos dos Goytacazes (RJ), Jaqueline mudou-se com a família para Piúma, no Espírito Santo, em 2021. Sua história de trabalho começou ainda na infância. Aos cinco anos, já ajudava a mãe na venda de mariolas às margens da BR. Mais tarde, já no Espírito Santo, também trabalhou no Morena Drinks, uma barraca de drinkes em festa e no verão, na orla da praia.

A vida adulta, porém, reservou desafios ainda maiores.

Jaqueline viveu um casamento marcado pela violência doméstica e pelo alcoolismo do companheiro, no interior de Domingos Martins. O que imaginava que seria uma relação na qual teria um parceiro para cuidar dela acabou se transformando em um período de dor e sofrimento.

Após a separação, retornou a Piúma.

Foi justamente durante um dos momentos mais frágeis de sua vida que Jaqueline conheceu o trabalho de uma assistente social.

“Foi nesse momento de fragilidade que fui acolhida por uma assistente social. Ela me orientou sobre os meus direitos e requereu para mim o Bolsa Família. Até então, eu não tinha dimensão de como o Serviço Social poderia transformar a vida de uma pessoa”, conta.

A experiência despertou nela o interesse pela profissão.

Anos depois, o Serviço Social cruzaria novamente o seu caminho. Quando um tio foi preso, a família precisou entrar no sistema prisional para visitá-lo. Mais uma vez, foi uma assistente social quem orientou os familiares sobre seus direitos e ajudou a compreender aquele universo até então desconhecido.

Foi quando Jaqueline compreendeu definitivamente a importância da profissão.

“Percebi que o assistente social pode ser uma ponte entre as pessoas e seus direitos. Pode acolher uma família em um momento de dor, orientar, abrir caminhos e ajudar pessoas que muitas vezes sequer sabem que possuem direitos.”

Da necessidade à transformação

Foi com essa motivação que Jaqueline iniciou a graduação em Serviço Social na Faculdade Pitágoras, em Guarapari.

Durante os anos de formação, as experiências pessoais continuaram sendo parte importante de seu aprendizado. As dificuldades que enfrentou passaram a ser também uma lente para compreender outras histórias de vulnerabilidade, violência e falta de acesso a direitos.

E então chegou o dia da formatura.

Jaqueline escolheu entrar na cerimônia segurando o cartão do Bolsa Família.

Para ela, o cartão representa muito mais do que um benefício.

“Políticas públicas salvam vidas. Eu saí do Bolsa Família e transformei minha realidade através da educação. É sobre resistência!”

A escolha carrega uma mensagem que ela considera importante: uma pessoa não deve ser definida pela necessidade que um dia teve de receber um benefício social.

O acesso a uma política pública, segundo Jaqueline, pode ser o primeiro passo para uma transformação.

“É preciso buscar forças, oportunidades, conhecimento e novos caminhos. O momento de dor não precisa definir quem você será. Eu sou prova disso.”

Ela enfrentou a violência, recomeçou, buscou ajuda, conheceu seus direitos, entrou na universidade, enfrentou dificuldades, chorou e chegou a pensar em desistir. Mas continuou.

Agora, pode escrever uma nova linha da própria história:

Assistente Social.

Um diploma que carrega uma história

Jaqueline dedica a formação à família e, principalmente, às mulheres que enfrentam situações semelhantes às que ela viveu.

A mensagem que deixa é de coragem e esperança:

“Tenham força. Tenham coragem. Busquem ajuda. Conheçam seus direitos. Não permitam que o momento de dor determine o futuro de vocês.”

Para ela, é possível recomeçar. É possível deixar para trás a violência, superar a escassez e construir novos caminhos.

“É possível transformar a própria história. A educação transformou a minha vida, e eu acredito que ela também pode transformar a vida de muitas outras mulheres.”

A conquista da graduação já ganhou um novo capítulo profissional. Jaqueline atua atualmente como assistente social no Pronto-Socorro de Guarapari.

Mas o sonho vai além.

Moradora de Piúma, cidade onde construiu parte importante de sua trajetória e aprendeu a amar, ela deseja um dia atuar profissionalmente no município que escolheu para viver.

Do cartão do Bolsa Família ao diploma, Jaqueline não apagou o passado. Pelo contrário: levou sua história consigo para transformar dor em propósito.

E, agora, pretende usar o conhecimento adquirido para ser, para outras pessoas, a mesma ponte que um dia encontrou quando mais precisava.

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Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br

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