A disputa presidencial de 2026 ganhou um contorno cada vez mais definido quando o recorte religioso é colocado sob a lupa: Flávio Bolsonaro (PL) abriu 25 pontos de vantagem sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre os eleitores evangélicos, segundo a pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (14). O senador aparece com 52% das intenções de voto no primeiro turno, contra 27% do presidente. O resultado contrasta com o cenário nacional, no qual Lula lidera por 42% a 37%.
O dado chama atenção também porque não representa uma vantagem isolada de uma única pesquisa. O eleitorado evangélico vem se consolidando como o principal reduto de Flávio na corrida presidencial. Na rodada anterior do BTG/Nexus, divulgada em 8 de setembro, o senador tinha 45%, contra 27% de Lula. Em outras palavras, Flávio avançou sete pontos entre os evangélicos em poucos dias, enquanto o petista permaneceu no mesmo patamar.
O movimento, porém, precisa ser observado com cautela. Antes do atual levantamento, o Datafolha realizado entre 8 e 10 de setembro encontrou 50% para Flávio e 22% para Lula entre evangélicos. Na pesquisa anterior do próprio Datafolha, divulgada no início do mês, o placar era de 45% a 24%. Já a Quaest também vinha registrando vantagem de Flávio nesse segmento. Portanto, embora os percentuais variem de instituto para instituto, a direção é consistente: Lula não conseguiu, até aqui, inverter sua desvantagem entre os evangélicos.
O histórico recente ajuda a dimensionar o tamanho da mudança. No BTG/Nexus de 8 de setembro, Flávio tinha 45% entre evangélicos contra 27% de Lula. No segundo turno, a distância era ainda maior: 58% para Flávio contra 31% para Lula. Agora, no novo levantamento, o senador chega a 52% no primeiro turno e 62% no segundo, contra 31% do presidente. O que aparece, portanto, não é apenas uma liderança circunstancial, mas uma vantagem persistente e expressiva dentro de um dos segmentos eleitorais mais relevantes da disputa.
O contraste com católicos e sem religião
A fotografia muda completamente quando a religião é alterada. Entre os católicos, Lula lidera o primeiro turno por 48% a 33% contra Flávio no BTG/Nexus. No Datafolha, a diferença também é favorável ao presidente: 46% a 29%. Entre os eleitores sem religião, a distância é ainda maior: Lula aparece com 56%, contra 22% de Flávio no levantamento do BTG/Nexus.
A divisão se torna ainda mais clara no segundo turno. No BTG/Nexus, Flávio chega a 62% entre evangélicos, enquanto Lula fica em 31%. Entre católicos, porém, Lula alcança 52%, contra 41% de Flávio. No grupo sem religião, o presidente chega a 66%, contra 29% do senador. É como se a eleição apresentasse, no recorte religioso, dois mapas políticos bastante diferentes convivendo dentro do mesmo país.
Esse contraste ajuda a explicar por que a eleição permanece tão equilibrada no conjunto da população. Apesar da vantagem expressiva de Flávio entre evangélicos, Lula consegue compensar parte dessa desvantagem em outros segmentos. No BTG/Nexus, o presidente tem 42% contra 37% de Flávio no primeiro turno. No segundo, a disputa chega a 47% a 46%, dentro da margem de erro. Na Quaest, divulgada também nesta segunda-feira, Flávio aparece numericamente à frente no segundo turno, com 42% contra 40%, mas igualmente em empate técnico.
O fator Supremo entrou no ambiente eleitoral
É nesse ponto que a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal passa a merecer atenção. A escalada do conflito em torno do caso Banco Master, das mensagens envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro e da disputa institucional entre Moraes e André Mendonça criou uma nova frente de mobilização para a direita justamente em um momento decisivo da campanha. A crise chegou a ser incorporada à estratégia política de Flávio, que passou a explorar a defesa de Mendonça e as críticas a Moraes em atos e nas redes sociais.
Para o eleitor evangélico, o episódio pode ter uma dimensão adicional. Mendonça é identificado publicamente com o meio evangélico e é ligado à Igreja Presbiteriana, enquanto Moraes se tornou, há anos, um dos principais símbolos de resistência do bolsonarismo ao STF. A crise, assim, permite que a campanha de Flávio combine pautas institucionais, antipetismo, crítica ao Supremo e uma narrativa de defesa de um ministro visto por parte dos evangélicos como alguém próximo de sua tradição religiosa.
Mas seria precipitado afirmar que o escândalo do Supremo é responsável pelo salto de Flávio entre os evangélicos. As pesquisas não permitem estabelecer essa relação causal. Um dado do Datafolha é especialmente importante nesse sentido: realizado justamente durante a escalada da crise, o levantamento apontou que 85% dos entrevistados disseram não ter mudado sua preferência após as denúncias envolvendo Moraes, enquanto 86% afirmaram o mesmo em relação às suspeitas envolvendo Mendonça. No conjunto da população, Lula passou de 38% para 39% e Flávio, de 33% para 35%.
Há, portanto, uma diferença entre influenciar o ambiente político e mudar efetivamente o voto. A crise do Supremo claramente entrou na guerra de narrativas da eleição. Dados de monitoramento de redes mostram que Moraes passou a concentrar enorme volume de menções negativas, enquanto grupos ligados ao bolsonarismo associaram o episódio a Lula e defenderam Mendonça. Mas os levantamentos eleitorais disponíveis não demonstram, até agora, uma virada especificamente provocada pelo caso.
Um eleitorado que continua decisivo
Outro aspecto relevante é que a vantagem de Flávio entre evangélicos não significa que o segmento esteja votando de forma unânime. No BTG/Nexus, além dos 52% de Flávio e 27% de Lula, Augusto Cury aparece com 5%, Ronaldo Caiado com 4% e Renan Santos com 2%. Existe, portanto, uma parcela expressiva do eleitorado evangélico que ainda está fora da disputa principal.
Isso ganha importância porque o voto evangélico representa um dos maiores segmentos religiosos do país e vem sendo disputado diretamente pelas campanhas. O próprio movimento do PT em direção a esse público mostra que Lula reconhece a dificuldade. A campanha chegou a avaliar um evento específico para evangélicos, sinal de que a recuperação desse eleitorado continua sendo uma questão estratégica para o petismo.
A fotografia atual, portanto, não permite dizer que “os evangélicos decidiram a eleição”. Ainda há semanas de campanha, candidatos competitivos fora da polarização e espaço para alterações no cenário. Mas os números permitem uma conclusão mais objetiva: o eleitor evangélico permanece hoje como o principal território de vantagem de Flávio Bolsonaro e uma das maiores dificuldades eleitorais de Lula.
E há uma segunda conclusão que merece atenção: a crise do Supremo pode reforçar essa divisão, especialmente porque oferece à direita uma agenda capaz de conversar simultaneamente com o eleitor conservador, com o antipetismo e com setores evangélicos sensibilizados pela figura de André Mendonça. Até agora, porém, os dados disponíveis sugerem mais uma intensificação da disputa narrativa do que uma prova de que o escândalo tenha provocado a movimentação eleitoral. O próximo conjunto de pesquisas será fundamental para saber se o caso ficará restrito à guerra política ou se conseguirá atravessar a última barreira: mudar o voto de quem já havia escolhido seu candidato.
O voto por religião nas pesquisas
BTG/Nexus, 14 de setembro:
- Entre evangélicos, Flávio tem 52% e Lula 27% no primeiro turno.
- Entre católicos, Lula tem 48% e Flávio 33%.
- Entre eleitores sem religião, Lula marca 56% e Flávio 22%.
- No segundo turno, Flávio chega a 62% entre evangélicos, contra 31% de Lula.
- Entre católicos, Lula tem 52% contra 41%.
- Entre os sem religião, Lula registra 66% contra 29%.
Datafolha, 8 a 10 de setembro:
- Entre evangélicos, Flávio aparece com 50%, contra 22% de Lula.
- Entre católicos, Lula lidera por 46% a 29%.
BTG/Nexus, 4 a 7 de setembro:
- Entre evangélicos, Flávio tinha 45%, contra 27% de Lula.
- No segundo turno, o placar era 58% a 31% para Flávio.
- Entre católicos, Lula vencia por 43% a 34%.
- Entre os sem religião, por 47% a 21%.
Datafolha, início de setembro:
- Flávio tinha 45% entre evangélicos, contra 24% de Lula;
- Entre católicos, Lula aparecia com 44%, contra 29% de Flávio.
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Fonte do Conteudo: Cristiano Stefenoni – esbrasil.com.br