Quaresma 2025: apelo ao retorno das boas amizades

Com o fim do carnaval, começa a Quaresma. Nesta Quarta-Feira de Cinzas (5) os católicos, por tradição ou crença, participam da celebração das cinzas. Em todas as paróquias do mundo será repetido aos fiéis “convertei-vos e crede no evangelho”.

Para os cristãos católicos a Quarta-feira de Cinzas marca a abertura da Quaresma e o lançamento oficial da 60ª edição da Campanha da Fraternidade. Neste ano, o tema escolhido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é “Fraternidade e Amizade Social” e o lema “Vós sois todos irmãos e irmãs”.

O tempo da quaresma se inicia com uma prática herdada de tradições religiosas antigas e que a Igreja primitiva assimilou rapidamente que é a imposição das cinzas na cabeça das pessoas, como explica Edebrande Cavalieri, cientista da religião.

“Esse tempo de preparação ficou conhecido como quaresma, do latim “quadragésima”. Novamente um número simbólico da tradição judaica, quarenta. Temos os fatos – quarenta anos do povo judeu no deserto depois da saída do Egito da escravidão do faraó se preparando para a entrada na terra prometida; e os quarenta dias de Jesus no deserto onde de acordo com as escrituras, ele foi tentado, antes de iniciar a vida pública. Assim, a quaresma com 40 dias expressa um tempo de preparação, de penitência, de jejum, de oração”, disse o especialista.

As cinzas expressam simbolicamente esse momento e trazem como fundamentação bíblica “Tu és pó e em pós hás de retornar” conforme nos diz o Livro do Gêneses 3, 19. “Na antiguidade, não apenas essa prática representava penitência e conversão, mas também o vestir-se com sacos e postando-se na porta de entrada das Igrejas. A penitência era pública”, afirmou.

Páscoa

A Páscoa é o domingo da ressurreição, quando após ser crucificado, morto e sepultado, Jesus Cristo ressurge, vencendo a morte. “Ela exige um tempo de preparação com cinco semanas culminando no domingo da Ressurreição ou da Páscoa, ou seja, quarenta dias”, destacou.

Considerando que a definição dessa festa está baseada no calendário lunar e ainda considerando o influência judaica que definia a Páscoa (saída do Egito e passagem no Mar Vermelho) que estabelecia a primeira lua cheia após o equinócio da primavera, (no hemisfério sul é equinócio de outono).

“A Igreja assume o calendário lunar para definição da Páscoa cristã que deve ocorrer na primeira lua cheia após o equinócio da primavera (norte do Equador), Assim a páscoa varia entre os dias 22 de março a 25 de abril. O sentido da lua cheia também é significativo. Plenitude de luz, luminosidade, beleza, resplendor. A Páscoa cristã é essa plenitude de luz, de luminosidade. A noite escura perde seu lugar no mundo cristão diante da ressurreição de Jesus”, afirmou.

Calendário litúrgico

O calendário litúrgico ou religioso do cristianismo está baseado no mundo judaico, com a criação do mundo em seis dias e o sétimo servindo para descanso que é o sábado. Contudo, a encarnação do Verbo promove uma grande alteração nesse calendário contado em sete dias, tendo o sábado como ponto máximo.

A fé cristã passa a considerar o domingo que era o primeiro dia da semana do calendário judaico como o ponto mais elevado, pois é o mistério central da fé: a Ressurreição de Jesus. Assim, o calendário cristão toma o nascimento de Jesus que é o Natal e a Ressurreição como os momentos litúrgicos mais importantes.

Foi o Concílio Ecumênico realizado em Nicéia em 325 que fixou essas datas, especialmente o tempo da quaresma. Portanto, a Igreja desde a antiguidade traz essas marcas espirituais. “A partir dessas duas grandes festas, o resto do calendário vai se organizando introduzindo festas cristãs, e abandonando as festas judaicas definitivamente. Os primeiros cristãos não deixaram de imediato de serem judeus. Eles frequentavam o templo e respeitavam as festas judaicas. Contudo, aos poucos os novos cristãos vão se afastando da cultura judaica na questão religiosa”, destacou Cavalieri.

A questão do calendário é mais complexa, pois envolve várias influências de diversas culturas. No mundo judeu, adotava-se o calendário lunar. É esse calendário que serve para definir a data da Páscoa que é central na vida cristã. Por isso, temos datas móveis.

“O calendário solar foi criado na cultura egípcia, com 365 dias, e foi aceito no mundo ocidental cristão, tendo o monge Dionísio no século VI estabelecido o ano 1 como o primeiro ano do nascimento de Jesus Cristo. Esse calendário somente foi oficializado em 1.582 pelo Papa Gregório XIII. Nesse momento, toda a liturgia cristã estava estabelecida conforme o calendário judaico (lunar). E a partir da Páscoa se estabelecem as demais festas religiosas da Igreja. Por isso, o carnaval e a semana santa ocorrem em datas diferentes a cada ano. O ciclo lunar difere do ciclo solar. Essa mescla entre calendário solar e calendário lunar gera essas diferenças em muitas datas do calendário civil que temos”, disse.

Se formos buscar suas origens mais antigas, também os calendários estão organizados a partir de uma perspectiva religiosa. O Sol nas culturas antigas era considerado um deus e o sentido do oriente, onde o sol nascia, era altamente positivo. “O ocidente onde o sol se põe é negativo. Daí a grande peregrinação da humanidade na direção do nascer do sol, do sol nascente. A história parece ter início com essa dinâmica solar. A lua também era considerada deusa… E isso gerou também um calendário”, destacou. Enfim, os primeiros homens possuíam uma relação muito mais profunda com o universo, com os astros, que nós da era tecnológica.

Cinzas e natureza

Com as constantes queimadas causadas por questões naturais como as áreas de turfa que todos os anos queimam debaixo da terra, as queimadas causadas de forma criminosa, danificando a “casa comum”, tem de alguma forma, confundido as cinzas desse momento religioso, com as cinzas fruto de ações humanas. “As cinzas das queimadas não representam penitência, mas pecado grave contra a criação de Deus. Os incêndios que ocorrem hoje estão secularizando o sentido das cinzas como símbolo de penitência”, destacou.

Fonte do Conteudo: Andressa Mota – eshoje.com.br

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