Gentrificação afetiva: quando o progresso expulsa

Há uma contradição cruel no desenvolvimento das nossas cidades: aqueles que dedicaram suas vidas a construir um bairro, investindo nele não apenas recursos financeiros mas também afetos e memórias, muitas vezes se veem incapazes de permanecer nele quando o local finalmente prospera. Esse fenômeno, que podemos chamar de gentrificação afetiva, vai além da mera especulação imobiliária – ele revela uma profunda injustiça no modo como as cidades valorizam (ou desvalorizam) seus próprios construtores.

A gentrificação tradicional é um processo socioespacial marcado pela chegada de grupos com maior poder aquisitivo a áreas antes mais acessíveis, elevando os custos de vida e forçando a saída dos moradores antigos. Mas a gentrificação afetiva vai além dessa transformação econômica, examinando como essas mudanças impactam profundamente as emoções, os sentimentos e os laços construídos ao longo de anos ou mesmo gerações. Enquanto a gentrificação convencional fala em números e métricas de valorização, a gentrificação afetiva questiona: o que acontece com as pessoas quando o lugar que elas chamam de lar deixa de lhes pertencer?

Em bairros que já foram periféricos e hoje são valorizados – como Jardim Camburi em Vitória e Vila Madalena em São Paulo – histórias semelhantes se repetem: moradores antigos, que viram ruas de terra se transformarem em polos culturais, agora enfrentam aluguéis exorbitantes e um custo de vida que suas aposentadorias não acompanham. Pequenos comerciantes que mantiveram seus negócios por décadas são pressionados a fechar as portas diante do aumento dos aluguéis e da concorrência com grandes redes. Artistas que deram vida cultural ao bairro são empurrados para áreas mais afastadas, seguindo assim como um fenômeno coletivo.

Zygmunt Bauman, em sua teoria da modernidade líquida, já alertava que nosso tempo privilegia o transitório em detrimento do permanente. Nas cidades, isso se traduz na cruel lógica de que quem constrói um lugar raramente é quem usufrui de seu sucesso. Byung-Chul Han complementa essa visão ao mostrar como o neoliberalismo transforma cidadãos em consumidores descartáveis – aqueles que não conseguem acompanhar o ritmo do mercado são tratados como obstáculos ao progresso.

O drama é ainda mais intenso para os idosos de baixa renda. Muitos compraram imóveis quando o bairro era considerado “fora do eixo” e hoje, com aposentadorias defasadas, não conseguem arcar com IPTUs altos ou custos elevados. Padarias de bairro, lojas de ferragens, botecos históricos – esses estabelecimentos não são apenas negócios, mas pontos de convívio e memória. Quando fecham, o que se perde não é apenas um comércio, mas um pedaço da história do lugar e da vida dos indivíduos que ali estiveram.

Milton Santos já dizia que “a cidade é a maior expressão da desigualdade”. Se antes esses pequenos negócios sustentavam a economia local de forma orgânica, hoje são substituídos por multinacionais padronizadas que atendem a um público de maior renda, mas sem a mesma conexão afetiva com o território. Hannah Arendt nos lembra que a cidade não é feita apenas de concreto e asfalto, mas de narrativas e afetos. Ou seja, quando expulsamos os moradores antigos, não estamos apenas realocando pessoas – estamos apagando histórias.

Assim, algumas cidades tentam mitigar esse problema com IPTU progressivo, programas de moradia acessível ou incentivos fiscais para comércios tradicionais. Mas no Brasil, essas políticas ainda são incipientes. Enquanto isso, bairros inteiros perdem sua essência, tornando-se caricaturas de si mesmos – bonitos na fotografia, mas vazios de significado.

Ora, se o progresso urbano só beneficia os que chegam depois, e não os que o construíram, então ele não é progresso, mas expropriação. Dessa forma, a gentrificação afetiva nos obriga a repensar: o que vale mais – o valor do metro quadrado ou o valor das histórias que um lugar carrega? Como podemos desenvolver cidades sem sacrificar quem as tornou vivas? Se queremos cidades verdadeiramente humanas, precisamos garantir que o desenvolvimento não seja sinônimo de exclusão. Afinal, um bairro não é feito apenas de prédios e lojas, mas de pessoas – e essas pessoas têm o direito de permanecer no lugar que ajudaram a criar. Caso contrário, estaremos construindo cidades ricas em infraestrutura, mas pobres em alma.

Visivelmente, a globalização e a liquidez do mundo moderno trazem consigo a volátil mudança da arquitetura urbana. Apesar de seus benefícios econômicos por um lado, pelo outro, apagam a significação cultural e temporal atrelada ao espaço e, consequentemente, impondo aos grupos sociais afetados que abram mão tanto da construção material quanto afetiva que perpetraram por anos, se não, décadas.

Como nos lembra o filósofo Walter Benjamin em suas reflexões sobre as cidades, “a verdadeira memória de um lugar não está em suas pedras, mas nas histórias que elas abrigam”. A gentrificação afetiva nos confronta com um dilema essencial do nosso tempo: como conciliar desenvolvimento urbano com preservação da memória coletiva? Se permitirmos que o valor econômico sobreponha completamente ao valor afetivo, estaremos não apenas apagando histórias pessoais, mas empobrecendo o próprio sentido de comunidade que dá vida às cidades. O verdadeiro progresso urbano deveria ser aquele que inclui tanto os novos moradores quanto aqueles que, com seu trabalho e dedicação ao longo dos anos, transformaram simples espaços geográficos em lugares cheios de significado e identidade. Afinal, uma cidade que esquece seus construtores é como uma árvore que nega suas próprias raízes – pode até crescer, mas jamais florescerá plenamente.

*Artigo escrito conjuntamente com a acadêmica de Direito da FDV Sara Sampaio

Fonte do Conteudo: João Batista Dallapiccola Sampaio – eshoje.com.br

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