Lixo, luxo e morte | Jornal Espírito Santo Notícias

Existem vidas no meio do lixo.
Existem mãos que, todos os dias, cavam entre restos o que ainda pode virar pão. Famílias inteiras vivem desse movimento constante, árduo, malcheiroso.
Entre sacos rasgados e montanhas de sobras, há dignidade ferida, há luta, há fome. E há urubus, os do céu e os da terra. Sobrevoam, pousam, disputam espaço com os homens.

Ali, onde o luxo da cidade despeja seu descarte, o que sobra vira sustento. O que sobra vira sobrevivência.
E, às vezes, o que sobra vira sangue.

No meio do lixo, acontece de tudo: divisão, disputa, ameaça. A tragédia anunciada paira no ar como o mau cheiro, ninguém aguenta, mas todos se acostumam.
Não precisava disso.
Não havia razão para que uma pistola estivesse escondida entre papéis sujos, nem que um revólver se deitasse silencioso atrás da moita. Mas estava. E parece que todos sabiam que, um dia, ela falaria.

Naquela quinta-feira de junho, a arma falou. Um tiro só. Pou!!!
Entre a axila e o pulmão, talvez o coração, o laudo vai dizer.
Mas antes disso, o que se viu foi o desespero.
Um catador ousou apontar uma pistola, achando que o medo bastaria.
Mas o outro era mais rápido, mais frio, mais decidido.
Saiu, buscou a própria arma, voltou, mirou, atirou.
E o lixão silenciou.

Testemunhas não faltaram. O horror foi coletivo.
Família, amigos, inimigos, todos viram.
Entre o zumbido das moscas, os gritos abafados e o bater de asas dos abutres, o sangue se misturou ao chorume.

Não bastasse o cenário miserável, o frio da manhã, a dura lida sem proteção, sem direito, sem nome, ainda coube àquela comunidade carregar o peso da morte.
Tentaram salvar o catador. Não deu tempo.
Morreu a caminho do hospital, levando com ele a dura rotina de quem, por ironia do destino, vivia do que os outros jogavam fora.

Na estradinha de chão batido, ficaram apenas um par de chinelos.
Não se sabe se eram da vítima, perdida entre a dor e a pressa da morte, ou do autor do crime, que correu sem olhar para trás.
Mas ficaram ali, como memória e metáfora: restos de passos que não voltarão.

 

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Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br

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