Crônica: Vida de repórter | Jornal Espírito Santo Notícias

Incompetente.
Mentirosa.
Burra.
Covarde.
Esquerdista.
Comunista.
Puxa-saco do prefeito.

As palavras chegam como pedras atiradas por mãos invisíveis. Às vezes vêm em público, outras vezes em silêncio de mensagens privadas. No começo, doíam como facadas; hoje, doem como pequenos cortes que insistem em se repetir, quase banais.

Descobri que a fúria aumenta sempre que ouso escrever sobre o intocável — aquele sujeito que alguns insistem em chamar de mito. Também cresce quando alguém é preso e a foto estampada lembra aos familiares que o crime não é apenas rumor, mas registro. Então, esquecem o delito e condenam a repórter.

E quando exponho políticos oportunistas — esses que distribuem migalhas como se fossem banquetes, que se pintam de bons moços depois de baterem em mulheres, que confundem fé com palanque — o castigo vem em enxurrada de ofensas, como se o erro fosse meu por ter apontado o espelho.

A vida de repórter, sei bem, não tem nada do glamour que tantos imaginam. Não é maquiagem, não é o microfone reluzente, nem o sorriso ensaiado na tela. É atravessar madrugadas frias em delegacias, é ouvir gritos de mães em portas de hospitais, é anotar a frieza dos números enquanto o coração se despedaça.

É, sobretudo, aprender a caminhar sobre o fio estreito entre a verdade e a incompreensão. Porque cada notícia tem muitas vozes, muitas versões, muitos silêncios.

Já fui ameaçada, já recebi processos, já me vi apontada como criminosa por ter escrito o que estava em um boletim de ocorrência. Já escutei o som áspero do ódio bater à porta da minha casa. Mas continuo. Continuo porque sei que há sempre alguém que precisa ser ouvido, e que o jornal existe também para acolher a versão que não foi dita.

Por isso, se escrevo “estaria” e não “estava”, é porque não sei com certeza. O verbo no futuro do pretérito carrega exatamente isso: a dúvida honesta, a impossibilidade de afirmar sem provas. Não é erro, não é invenção. É respeito.

Eu não busco fama, nem curtidas, nem títulos de grandeza. O que busco é dar nome às coisas, é tentar registrar o que acontece sem apagar o humano que há em cada história.

Se, um dia, você se tornar notícia e sentir que não foi compreendido, conte sua versão. A notícia não é pedra; é rio. Sempre se refaz, sempre encontra novos caminhos.

E se, ainda assim, preferir me xingar, pode. Deixo que suas palavras sigam o vento. Eu sigo adiante, cuidando da minha própria serenidade. Porque, no fim, minha saúde mental vale mais do que o desequilíbrio alheio — e é ela que me permite permanecer de pé diante de tanto barulho.

Foto: Divulgação/ Internet

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Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br

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