
No sábado, 13 de setembro de 2025, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) abre suas portas para uma mostra imperdível: “Carmen Portinho: modernidade em construção”. A curadoria é assinada por Aline Siqueira, Pablo Lafuente e Raquel Barreto, com a colaboração de José dos Guimarães e um comitê consultivo formado por Marcela Abla, Silvia Steinberg e Carlos Fernando Andrade.
Endereço:
Av. Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo – Rio de Janeiro
Este não é apenas um evento cultural: é uma oportunidade única de conhecer, revisitar e se emocionar com a trajetória de uma das mulheres mais notáveis da história brasileira.
Engenheira, urbanista, feminista, diretora de museu, educadora e militante incansável, Carmen Velasco Portinho deixou marcas profundas na arquitetura, na política urbana, na luta pelos direitos das mulheres e na construção de uma cidade mais humana.
Convido cada leitora e cada leitor a visitar a exposição e se permitir caminhar pelo legado de uma vida inteira dedicada à ousadia, à justiça e ao futuro.
A Exposição “Carmen Portinho: modernidade em construção”
Mais do que uma mostra de documentos, a exposição é um mergulho na vida de Carmen.
Três núcleos principais
- Moradia e habitação social – evidenciando seu pioneirismo ao introduzir no Brasil o conceito de habitação popular.
- Feminismo – sua militância ao lado de Bertha Lutz e tantas outras na conquista do voto feminino e da emancipação econômica das mulheres.
- Arte e educação – destacando sua atuação no MAM e na Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI).
Destaques da mostra
- Filme de Milena Manfredini e instalação de Rommulo Vieira Conceição revisitanto o Conjunto Habitacional Pedregulho.
- Instalação de Ana Linnemann, refletindo modos de viver e trabalhar inspirados nas concepções de Carmen.
- Entrevista inédita conduzida por Ana Maria Magalhães, com a própria Portinho, trazendo sua voz e reflexões.
Relevância histórica
Carmen foi fundamental na gestão do MAM nos anos 1950, quando o museu funcionava provisoriamente no Palácio Capanema. Esta nova exposição resgata justamente essa conexão profunda entre sua vida e o museu que ajudou a erguer e consolidar.
Realização: Sistema Brasileiro de Museus, Instituto Brasileiro de Museus, Ministério da Cultura e Governo Federal.
Infância e Juventude: Uma Mulher à Frente de Seu Tempo
Carmen Velasco Portinho nasceu em 26 de janeiro de 1903, em Corumbá (MS), filha de pai gaúcho e mãe boliviana. Aos oito anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal.
Desde cedo, destacou-se pela ousadia. Estudou no Colégio Sacré Coeur de Jesus e, ainda adolescente, interessou-se pelas ciências exatas – um campo praticamente inacessível às mulheres da época.
Em 1925, formou-se em Engenharia Civil na Escola Politécnica da Universidade do Brasil (hoje UFRJ), tornando-se a terceira mulher engenheira do país.
“Acho que nasci feminista. Por isso não me lembro quando nem por que – estava na Escola Politécnica, isso eu sei – resolvi assumir esse meu lado contestatório e reivindicatório.”
Além de engenheira, foi militante feminista. Ao lado de Bertha Lutz, lutou pelo direito ao voto e participou da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, sendo vice-presidente.
Um episódio simbólico marcou os anos 1920: Carmen participou da ousada ação sufragista que lançou panfletos em defesa do voto feminino de pequenos aviões sobrevoando o Rio. Uma “chuva” de folhetos caiu sobre a cidade, unindo modernidade e militância num gesto impactante.
Primeiros Passos na Carreira: Desafiando o Machismo
Em 1926, recém-formada, foi nomeada engenheira-auxiliar da Diretoria de Obras da Prefeitura do Distrito Federal.
Ali, enfrentou resistência: muitos duvidavam de sua capacidade apenas por ser mulher. Seu primeiro desafio foi vistoriar o para-raios da antiga Prefeitura, no topo do edifício. Esperavam que desistisse, mas Carmen, alpinista amadora, subiu e cumpriu a tarefa com êxito.
Promoções eram raras para mulheres. Em ato de coragem, Carmen foi pessoalmente apresentar suas credenciais ao presidente Washington Luís — e conseguiu sua ascensão.
Em 1939, tornou-se a primeira mulher urbanista do Brasil, com a tese Anteprojeto para a Futura Capital do Brasil no Planalto Central — um estudo precursor de Brasília.
O Legado da Habitação Popular
O Conjunto do Pedregulho
Em 1947, dirigindo o recém-criado Departamento de Habitação Popular da Prefeitura, Carmen liderou a construção do Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes (Pedregulho), em São Cristóvão, em parceria com Affonso Eduardo Reidy.
Símbolo internacional do modernismo, o Pedregulho oferecia escola, posto de saúde, comércio, lavanderias coletivas e integração com a topografia. Era mais que arquitetura: era projeto social.
Lúcio Costa resumiu: Carmen estava ali para “ensinar a morar”.
O “Minhocão da Gávea”
Poucos anos depois, liderou o Conjunto Habitacional Marquês de São Vicente, na Gávea. O projeto reafirmava sua visão: moradia digna, integrada a equipamentos coletivos, em áreas nobres da cidade — desafiando a segregação urbana.
Cultura e Educação: O MAM e a ESDI
O MAM
Na década de 1950, Carmen comandou a construção do MAM, acompanhando obras lado a lado com mais de 450 operários. Depois, integrou a direção do museu, ajudando a consolidar sua vocação vanguardista.
A ESDI e a UERJ
Em 1967, assumiu a direção da ESDI, onde permaneceu até 1988. Mesmo sob a ditadura, defendeu a autonomia acadêmica, a inovação e a liberdade de criação.
Resistiu a pressões para extinguir ou transferir a escola, garantiu sua oficialização em 1970 e sua incorporação à UERJ em 1975, preservando sua identidade.
Nos anos 1980, foi homenageada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e participou da entrega da Carta das Mulheres aos Constituintes em 1987.
Últimos Anos e Reconhecimento
Nos anos 1990, Carmen ainda atuou como consultora e coordenadora na UERJ. Recebeu prêmios da crítica de arte e participou da Bienal de São Paulo.
Faleceu em 25 de julho de 2001, aos 98 anos. Em 2019, foi homenageada pela UERJ como Ano Institucional Carmen Portinho.
Em 2022, foi oficialmente reconhecida pela Lei nº 14.477 como Patrona do Urbanismo no Brasil.
A Mulher que Construiu o Futuro
Carmen Portinho não foi apenas engenheira, urbanista ou feminista. Foi uma força da natureza.
Desafiou preconceitos, inovou em projetos, defendeu a cultura, educou gerações e abriu caminhos onde parecia impossível.
Seu legado está no Pedregulho, no MAM, na ESDI — mas, sobretudo, na crença de que a arquitetura e o urbanismo não servem apenas para erguer prédios, mas para erguer pessoas.
Ao visitar a exposição “Carmen Portinho: modernidade em construção”, cada visitante terá a chance de se encontrar com uma mulher que não apenas viveu a modernidade, mas a construiu com as próprias mãos — e com o coração cheio de Brasil.
Mais do que uma homenagem, este é um convite: aprendamos com Carmen a coragem de transformar o mundo em que vivemos.
Fonte do Conteudo: Antônio Sá – diariodorio.com
