
O terreno onde funcionou a antiga Maternidade Pro-Matre, localizado na Avenida Venezuela, esquina com a Rua Barão de Tefé, na região central do Rio de Janeiro, foi invadido na manhã deste domingo (7), por volta das 9h. O espaço pertence à construtora Cury, que o adquiriu em leilão da União e, segundo registros, está em processo de doação para a Prefeitura do Rio, mantendo o planejamento de uso da área para fins públicos.
A invasão ocorreu após a chegada do deputado estadual Josemar Pinheiro (PSOL), de São Gonçalo, que esteve no local acompanhado de advogados e de ônibus com dezenas de ocupantes. O movimento é promovido pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol), através de um braço chamado Movimento de Luta dos Bairros, Vilas e Favelas (MLB).
O deputado do PSOL, Tarcísio Motta, publicou um vídeo em suas redes sociais nesta manhã, mostrando que está no local. Ele negou que o movimento seja organizado diretamente pelo partido, mas declarou apoio às famílias que ocupam o espaço.
A área invadida faz parte do terreno destinado à construção do Centro Cultural Rio África, projeto com apoio do BNDES voltado a tratar da história da diáspora africana no Brasil. O espaço fica em frente ao Sítio Histórico do Cais do Valongo, patrimônio mundial da UNESCO.
O caso chegou ao conhecimento do prefeito Eduardo Paes, que se manifestou nas redes sociais criticando a invasão e a postura do partido. “O que mais me impressiona é que essa gente chegou ao poder e faz parte da base do governo federal. O governo federal é o maior latifundiário urbano na cidade do Rio de Janeiro e poderia facilmente destinar boa parte de suas áreas para habitação popular no centro do Rio. Mas preferem sempre ocupar e esculhambar com a cidade, ao invés de usar os instrumentos que dispõe para de fato promover habitação popular. É um jogo permanente de hipocrisia e desordem. Aqui não passarão”, afirmou.
Segundo o prefeito, o governador Cláudio Castro já foi informado sobre a situação. A ordem é para que a Guarda Municipal e a Polícia Militar, com apoio da Tropa de Choque, que estão no local, realizem a desocupação imediata do terreno.
O DIÁRIO DO RIO também procurou o Gestor Executivo Local (GEL) da região central, José Anastácio Jales, e o subprefeito do Centro, Alberto Szafran, mas ainda não obteve resposta.
Histórico do terreno e planos da Cury
A construtora Cury adquiriu os terrenos da antiga Maternidade Pro-Matre, no Centro do Rio, em um leilão da União realizado em 2022, por mais de R$ 6 milhões. Localizado em uma área estratégica, no coração do Porto Maravilha, o complexo tem alto potencial construtivo e representa uma oportunidade importante para novos empreendimentos na região.
O conjunto é formado por três terrenos, que estavam abandonados há mais de 13 anos e acumulavam inúmeras dívidas antes da compra. Os dois maiores, que compunham a antiga unidade hospitalar, foram transferidos para a empresa CCISA144, pertencente à Cury — uma das maiores construtoras do país, com projetos de sucesso na revitalização da zona portuária.
Com aproximadamente 3.300 m² de área total e 6.083 m² de área construída, o imóvel fica próximo à Praça Mauá e não possui relevância histórica ou tombamento, o que permite sua demolição sem restrições legais. A expectativa, desde 2022, era que o espaço recebesse condomínios de luxo, com padrão superior ao que a construtora costuma desenvolver em áreas mais afastadas do Porto.
No entanto,
Nos últimos anos, a Cury tem investido fortemente na região central. Entre seus principais projetos está o Pateo Nazareth, considerado um dos maiores empreendimentos residenciais do Porto Maravilha e que marca o terceiro grande investimento da empresa na área, reforçando sua estratégia de transformar a zona portuária em um polo imobiliário de alto padrão.
Invasões no Centro do Rio
Esse tipo de invasão não é raro na região central da cidade. Segundo levantamento divulgado em 2024 pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur/UFRJ), em parceria com o Observatório das Metrópoles e a Central de Movimentos Populares, existem 69 imóveis ocupados no Centro da cidade.
Desses, 50 imóveis (72,5%) são privados e 19 (27,5%) são públicos. A maioria — 34 imóveis — é formada por prédios verticalizados. Também há registros de ocupações em antigos casarões (18), conjuntos de casas (11), terrenos vazios (5) e instalações fabris ou galpões (1). Os números podem ter aumentado desde então, já que a situação na região evolui rapidamente.
Em outubro de 2023, a Prefeitura do Rio anunciou medidas contra os proprietários de cerca de 160 imóveis abandonados no Centro, após uma série de invasões. Desde então, alguns processos foram iniciados, mas os resultados ainda não são visíveis.
A maioria desses espaços são ocupados por grupos organizados, que atuam de forma sistemática. O DIÁRIO DO RIO já relatou diversos casos em que sobrados e prédios inteiros foram transformados em comércios clandestinos, acelerando a deterioração de imóveis — muitos deles tombados ou de valor histórico.
Em 2023, o jornal também destacou a Ocupação Gilberto Domingos, no prédio do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), abandonado há 30 anos na Rua Riachuelo, nº 48, na Lapa. Organizada pelo Movimento Unido dos Camelôs (MUCA), a ocupação chegou a abrigar 20 grupos de trabalhadores informais em busca do direito à moradia. O edifício, de 10 andares, já havia sido invadido em outras ocasiões entre o fim dos anos 1990 e meados dos anos 2010. Na última, 60 grupos foram retirados após processo de reintegração de posse.
Outro exemplo recente é o prédio de oito andares localizado no número 53 da Avenida Venezuela, na zona portuária do Rio. Conhecida como Ocupação Zumbi dos Palmares, a construção chegou a abrigar mais de 100 pessoas. Visivelmente deteriorado, o imóvel segue pichado e sem janelas.
A invasão foi iniciada em 2005 por um coletivo de moradores. Uma desocupação forçada ocorreu em 2011, mas o edifício voltou a ser invadido nos anos seguintes. A atual ocupação começou pouco antes da pandemia de covid-19. Segundo a Justiça, o imóvel está interditado pela Defesa Civil Municipal por risco estrutural. A Prefeitura apoiou a retirada com caminhões de mudança, transporte de pertences e até cadastro de animais de estimação das famílias.
História do Pró-Matre
Fundada em 1919, a Pro-Matre começou como uma associação beneficente voltada para o atendimento de vítimas da gripe espanhola. A maternidade foi idealizada pelo médico Fernando Magalhães, com o apoio de mulheres da elite carioca, lideradas por Stella de Carvalho Guerra Duval.
Nos anos 2000, a instituição chegou a atender mil gestantes por dia, realizando cerca de 300 partos mensais, o que representava 10% dos nascimentos da capital fluminense. No hospital nasceram muitos brasileiros ilustres, entre eles o “Príncipe da Sociologia” brasileira e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
A maternidade enfrentou diversos problemas envolvendo funcionários e ex-funcionários e acabou sendo fechada em 2009, após decisão do Conselho Regional de Medicina do Rio, que alegou ser impossível manter o funcionamento devido a problemas financeiros e estruturais.
*Matéria em atualização.
Fonte do Conteudo: Gabriella Lourenço – diariodorio.com