Viver nas ruas é enfrentar, diariamente, a fome, o frio, a insegurança e o preconceito. Para milhares de pessoas, a calçada vira cama, o sol escaldante substitui o teto e a esperança se mistura à luta pela sobrevivência. Essa população, tantas vezes invisível, carrega histórias de perda, exclusão e resistência — mas raramente é ouvida.
É nesse universo de dor e descaso que se encontra o designer industrial Augusto Espíndola, de 41 anos. Desde outubro do ano passado, ele deixou para trás sua rotina e começou a viver nas ruas de grandes cidades brasileiras. O objetivo: entender, na pele, o que significa depender das políticas públicas e registrar, pelas redes sociais, os limites e avanços do atendimento oferecido às pessoas em situação de rua.
No Espírito Santo, sua passagem por Vitória e Vila Velha expôs contrastes importantes: de um lado, a negativa de acesso aos serviços na Capital; de outro, uma rede de apoio mais estruturada, porém limitada pela capacidade de atendimento.
Na Capital, o primeiro contato foi de frustração. Segundo o ele, o Centro Pop, principal equipamento público voltado à população em situação de rua, negou atendimento. “Eles não me deixaram usar os serviços, e foi a única coisa que eu realmente precisava. Acabei ficando só no abrigo de imigrantes e passei apenas quatro horas em Vitória”, relatou.
Para Augusto, a cidade que deveria liderar políticas de inclusão na Região Metropolitana não assume esse papel. “O que estou vendo é que Serra e Vila Velha estão tomando frente em movimentos que deveriam partir de Vitória. Do jeito que está hoje, não dá para dizer que a Capital cumpre sua função”, criticou.
Elogios
Já em Vila Velha, do outro lado da baía, o cenário foi diferente. O Centro Pop do município, segundo Augusto, possui uma das melhores estruturas que conheceu até agora. “É o banheiro mais inteiro e mais bonito que eu vi. Tem várias duchas, água quente, tudo reformado. O almoço também é de bom porte, e isso faz diferença, porque quem está na rua quase nunca consegue se alimentar direito”, destacou.
No entanto, apesar do avanço, a capacidade é um problema. O local atende até 80 pessoas por dia, número insuficiente diante da demanda crescente. “Vila Velha precisava expandir. Mas também sei que o espaço físico e o número de funcionários não permitem ampliar. É uma limitação, não uma falta de vontade”, avaliou.
Ainda assim, o que mais chamou atenção de Augusto foi a atuação das assistentes sociais. “Foi o primeiro lugar em que eu vi profissionais correndo atrás de emprego para quem está ali, mesmo sem estar em abrigo. Isso é raro e extremamente positivo”, afirmou.
Experiência pessoal vira projeto digital
Mais do que sobreviver à realidade das ruas, Augusto decidiu registrar e compartilhar sua rotina. Criou no Instagram o projeto “Nas calçadas do Brasil”, onde publica vídeos curtos que revelam o cotidiano de quem depende de serviços públicos voltados à população em situação de rua.
Nessas postagens, ele denuncia falhas no atendimento, reconhece avanços e expõe marcas de uma vida marginalizada.
Da estabilidade ao desamparo
Autônomo por quase dez anos, Augusto chegou a conquistar estabilidade financeira. Mas sua vida desmoronou após o fim de um relacionamento e a falência do emprego, o que o levou à depressão.
“Eu fui quebrando financeiramente, emocionalmente, até chegar ao ponto de precisar desses serviços. Aí percebi que a realidade era completamente diferente do que eu imaginava”, relatou.
Humanizar a visão sobre a população de rua
O objetivo do projeto é claro: mudar a forma como a sociedade enxerga a vida nas ruas. “O que eu mais quero que as pessoas entendam é que sair da rua não é complicado. Só que essas pessoas precisam de ajuda — não para tirá-las imediatamente, mas para reconstruir o emocional e conseguir se recolocar na sociedade”, afirmou Augusto.
Em seus vídeos, ele mostra que antes de qualquer política de recolhimento, a prioridade é a sobrevivência diária: comida, banho, saúde básica e dignidade.
Enquanto aguarda maior atenção do poder público, Augusto segue dando visibilidade à realidade que enfrenta. “Às vezes eu acho que até quem nunca conviveu com pessoas em situação de rua começa a prestar atenção depois de assistir aos meus vídeos. Se eu conseguir mudar a visão das pessoas, já vou ter feito diferença. O poder público vem depois”, disse.
Preconceito e abandono social
Para ele, além das falhas na rede de atendimento, o que mais fere é o olhar da sociedade. “Essas pessoas já estão num ponto em que tudo falhou. Então, quando o atendimento também falha, não é surpresa. Elas não esperam mais nada”, desabafou.
O designer também critica o preconceito enfrentado diariamente:
“A sociedade ainda vê a população de rua como parte do crime. Isso não é verdade. A maioria está ali tentando sobreviver”, completou.
O que dizem as prefeituras?
A Secretaria de Assistência Social de Vitória (Semas) informou que a cidade conta com 215 vagas de acolhimento, sete serviços de abrigamento e dois Centros Pop, que funcionam diariamente das 7h às 17h. Entre os atendimentos estão:
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kit de higiene,
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alimentação,
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lavanderia,
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atividades educativas e esportivas,
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escolarização e planos individualizados elaborados por equipe multidisciplinar.
Questionada sobre os critérios de entrada nos abrigos e a forma como são divulgados, a pasta não respondeu.
Já a Secretaria de Assistência Social de Vila Velha declarou que possui 71 leitos em abrigos institucionais e um Centro Pop com capacidade para 80 atendimentos diários. Atualmente, não há previsão de ampliação.
O município disse ainda que oferece atendimentos psicossociais, encaminhamentos para políticas setoriais e acompanhamento da Vigilância Sanitária. Denúncias podem ser feitas pela Ouvidoria Municipal, no telefone 162.
Fonte do Conteudo: Giulia Reis – eshoje.com.br
O que dizem as prefeituras?