A fronteira entre a arte e a loucura, o delírio e a criação, o isolamento e a liberdade, é o ponto de partida do livro “O Segredo do Labirinto”, de autoria do artista e pesquisador Orlando da Rosa Faria. A obra, que reflete sobre a trajetória e o legado de Arthur Bispo do Rosário, será lançada em evento aberto ao público nesta sexta-feira (17), às 19h, na sede do Instituto Marlin Azul, em Vitória.
Com 104 páginas, o livro é editado pela Appris e traz apresentação do professor Waldir Barreto (Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e prefácio da poeta, filósofa e psicanalista Viviane Mosé. O texto retoma e amplia o conteúdo da dissertação de mestrado que o autor defendeu em 1996, na PUC-Rio, tornando-se uma das primeiras análises acadêmicas no Brasil sobre o universo criativo de Bispo do Rosário.
Loucura e existência
Arthur Bispo do Rosário (1909/1911–1989) foi um homem negro, pobre e esquizofrênico que transformou o confinamento em potência criativa. Ex-marinheiro e pugilista, natural de Japaratuba (SE), foi internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, após afirmar ter presenciado uma aparição de Cristo em seu quintal.
Enclausurado por meio século, Bispo ressignificou o sofrimento e a exclusão através da arte, criando assemblagens e bordados com objetos descartados — utensílios, uniformes, papéis, roupas e sucatas — convertidos em símbolos de uma cosmogonia particular.
“A obra de Bispo nasce em reação à ameaça desintegradora da loucura e ao caráter asfixiante da instituição manicomial. Criar era uma forma de administrar o caos e dar sentido à própria vida”, escreve Orlando Faria.
“Seu trabalho assume-se como um instrumento de ressurreição entre os destroços da loucura.”

O reconhecimento veio tardiamente: a partir da exposição “Margem da Vida” (1982, MAM-Rio), sua produção passou a circular por museus brasileiros e, em 1995, representou o Brasil na Bienal de Veneza, tornando-se um ícone da arte contemporânea e da resistência humana.
Em “O Segredo do Labirinto”, Orlando da Rosa Faria investiga o universo simbólico e formal da obra de Bispo, fugindo de leituras que a reduzem a um mero produto da loucura ou da terapia ocupacional. Para o autor, o trabalho do artista sergipano é, antes de tudo, um ato de reconstrução do eu, uma epopeia estética que transforma o manicômio em ateliê e a clausura em criação.
“Bispo canalizou, de forma intuitiva e genial, inquietações próprias da arte contemporânea”, observa Faria. “Mesmo sem contato com escolas ou movimentos artísticos, construiu uma poética singular a partir do refugo da instituição, do silêncio e da fé.” A publicação reafirma a pertinência de revisitar o pensamento crítico e poético sobre Bispo do Rosário, cuja obra continua a inspirar debates sobre arte, alteridade, espiritualidade, saúde mental e memória.
Sobre o autor
Orlando da Rosa Faria — também conhecido como Lando — é artista plástico, professor e pesquisador. Vive entre Brasil e Portugal e foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) por 25 anos. Mestre em História Social da Cultura pela PUC-Rio e doutor pela Universidade de Lisboa, Faria desenvolve uma obra diversificada, que transita entre pintura, vídeo, fotografia, instalação e escultura. Desde os anos 1980, já realizou exposições em cidades como Vitória, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Santiago, Berkeley, Cardiff, Berlim, Paris, Florença, Lodz, Cuenca e Lisboa.
Fonte do Conteudo: Redação Multimídia ESHOJE – eshoje.com.br

Sobre o autor