Era noite. A hora exata, ninguém sabe — talvez a madrugada já sussurrasse seu silêncio sobre a Rua Bom Pastor. Ironia das ironias: foi ali, nesse endereço de nome sagrado, que Nath tombou e se tornou número, estatística, mais um corpo a engrossar a contagem das vidas trans interrompidas antes dos 35 anos, a fria média que se repete no Brasil como sentença.
Tinha 28 anos e o brilho de quem sonhava em abrir o próprio salão de beleza. Deixou sua cidade natal, a capital da Jussara, e partiu para Cariacica em busca de horizontes, de aceitação, de um lugar onde pudesse existir inteira.
Nath era uma mulher linda, dona de um sorriso que abria caminhos e de talentos que encantavam. Amava cozinhar, e, entre panelas, aromas e temperos, ela se encontrava. Quando cozinhava, o mundo parecia caber na ponta da colher, e os sabores, quem sabe, lhe davam uma trégua do preconceito.
Entretanto, foi no salão de beleza que Nath se tornava pura arte: mãos habilidosas que transformavam fios em autoestima, rostos em flores, olhares em brilho. Fazia sobrancelhas, maquiava, colocava mega hair, moldava beleza e espalhava cor. Criava vídeos, sorria para a câmera e deixava o seu traço no mundo.
Tinha fé. E tinha sonhos.
Até que a violência, essa velha inimiga das diferenças — lhe tirou o direito de continuar sonhando.
Foram tiros na cabeça, na Rua Bom Pastor, em Campina Grande. Um destino cruel, quase irônico, numa rua de nome tão sagrado. A PM recolheu estojos de calibre 9 mm. Nenhum documento. Nenhum nome. Apenas silêncio.
Mais uma mulher trans assassinada.
Mais uma página manchada de sangue em jornais que já se habituaram a noticiar a morte antes da vida.
A mãe de Nath sabia. Desde cedo. Porque toda mãe sabe.
Reconhece o filho pelo riso, pelo gesto, pela delicadeza de quem é, mesmo quando o mundo tenta negar.
E essa mãe, agora, carrega um vazio que palavra nenhuma preenche.
Nath vivia em situação de rua. Lutava contra a dependência química e também lutava para viver — e talvez, no meio de ilusões e fugas, tenha acreditado em uma felicidade clandestina.
Só não teve o abraço da sociedade — essa mesma que se diz justa, contudo, não perde nunca a oportunidade de atirar pedras com a pontaria do desprezo.
Há quem ria da dor de uma mãe que acaba de sepultar sua menina.
Há quem ache que certas vidas valem menos.
vVale lembrar que a vida é uma roda gigante — ora estamos no alto, ora somos arremessados ao chão. E ninguém, absolutamente ninguém, vive em redoma.
A Polícia Civil informou que as investigações estão a cargo da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Cariacica. O sigilo é mantido, e a população pode ajudar pelo Disque-Denúncia 181.
Mas quantas denúncias já se perderam no vento? Quantos corpos de pessoas trans esperam por justiça que nunca vem?
Cabe à imprensa não apenas noticiar, mas indignar-se. Porque quando a sociedade silencia, o crime se repete. E para muitos, a morte de uma pessoa em situação de rua é só “menos um problema”.
Eu já cobri tantos casos assim que perdi a conta; não perdi o espanto. Nem a dor.
Que Deus acolha Nath.
Que conforte a mãe.
E que, se houver uma próxima vida, ela possa renascer em um mundo menos cruel, onde amar e ser quem se é não custe o preço da própria existência.
Porque toda vida importa —
E Nath não era apenas “mais uma trans na rua”.
Era uma mulher, imagem e semelhança de Deus, que só queria viver em paz. 🌹
Compartilhe nas redes sociais
Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br