A guardiã silenciosa do Centro: tesouros do Bonsucesso e a fé que sobrevive ao esquecimento

No coração do Centro do Rio de Janeiro, onde o ruído do trânsito se mistura ao silêncio das fachadas coloniais, ergue-se uma das joias mais antigas do nosso patrimônio cultural. Situada nas adjacências da Ladeira da Misericórdia — um dos raros vestígios da mutilação do Morro do Castelo, berço da cidade —, a Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso sobrevive como guardiã de um espólio precioso, lembrando-nos, por justiça poética, do perigo que é mirar o progresso apartado da memória. O templo, reaberto à visitação de segunda a sexta-feira, das 9h às 15h, com missas às segundas (12h, das almas), quartas e quintas-feiras (9h), não é apenas um espaço de fé — é um elo entre o que fomos e o que insistimos em ser. Sua reabertura, noticiada pelo Diário do Rio em dezembro de 2024, integrou o ciclo de revitalização da Santa Casa da Misericórdia, instituição guardiã dessa herança espiritual e artística.

Foto aérea – tirada por drone – da histórica igreja da irmandade da Santa Casa / Foto: Rafael Azevedo

A recente criação do guia turístico de igrejas, fruto da parceria entre o SESC e a Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores — também divulgada pelo Diário do Rio recentemente — reforça esse movimento de redescoberta. Mais do que divulgar itinerários de fé e simbolismo, o projeto propõe um reencontro com a cidade: um olhar renovado sobre seus templos, irmandades e devoções que, há séculos, compõem o mapa afetivo e espiritual do Rio. É um gesto de resistência contra o esquecimento, que devolve vida ao que restava submerso em silêncio.

A Igreja do Bonsucesso, fundada no século XVII e remodelada no XVIII, guarda em sua fachada o brasão da Misericórdia e um opulento campanário acima do frontão. Mas é o interior que conserva o maior tesouro: três retábulos (altares) e um conjunto de imagens e pinturastrazidas do antigo Colégio Real dos Jesuítas, demolido no início do século XX. Essas obras, datadas entre o final do século XVI e o início do XVII, pertencem ao primeiro ciclo artístico europeu em solo brasileiro — o maneirismo luso-brasileiro —, ainda marcado por ecos do gótico tardio e pela austeridade da fé missionária.

Histórico altar maneirista da Igreja dos Jesuítas domMorro do Castelo. Uma vez demolida, três de seus altares e mais o púlpito foram transferidos para a capela da Irmandade da Misericórdia / Foto: Rafael Azevedo

Trata-se, portanto, de um patrimônio de fronteira: entre o sagrado e o histórico, entre o culto e a memória. Cada visita, cada celebração, cada olhar lançado sobre as colunas e os retábulos dessa igreja é um gesto de continuidade. A Bonsucesso não guarda apenas os testemunhos materiais mais antigos do Centro do Rio; é um relicário de sobrevivências que desafiam teimosamente o esquecimento. A permanência aberta ao público e sua inclusão no futuro guia de igrejas reforçam que a cidade pode se reconciliar quando revisita seus templos, quando compreende que o passado — longe de ser um fardo, ou, pior ainda, reduzido a atos de violência — é o chão firme onde o presente ancora o passo. A Igreja, silenciosa e vigilante, segue lembrando que a fé, como o patrimônio, só permanece viva quando é partilhada.

O Centro Histórico do Rio, emoldurado pelo Pãp de Açúcar, acima, e pelo complexo da Irmandade da Misericórdia, abaixo, que inclui a Igrrja do Bonsucesso – Foto: Rafael Azevedo
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Fonte do Conteudo: Rafael Azevedo – diariodorio.com

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