
O Rio se prepara para uma das maiores transformações urbanas e culturais dos últimos anos. O projeto Praça Onze Maravilha, inspirado na revitalização da Zona Portuária, promete reconfigurar a área do Sambódromo, derrubar o viaduto 31 de Março, abrir novas vias, construir moradias e, sobretudo, erguer a Biblioteca dos Saberes, um equipamento cultural de 40 mil m² que nasce como símbolo da relação histórica entre Brasil e África.
Projetada pelo arquiteto burquinês Diébédo Francis Kéré, vencedor do Prêmio Pritzker, a biblioteca ocupará o antigo espaço do Terreirão do Samba, ao lado do monumento a Zumbi dos Palmares, integrando-se diretamente à Pequena África. O prédio terá pilotis, cobogós, jardins suspensos e uma torre circular aberta à luz natural. Lá dentro, teatros, anfiteatro, cozinhas comunitárias, áreas expositivas, salas de estudo e acervos dedicados à memória, ao patrimônio e às expressões populares.
Para Pedro do Livro, fundador da Casa Amarela e presidente da Imprensa do Rio, a construção carrega uma decisão política e simbólica importante. “Quando o prefeito escolhe o Francis Kéré, primeiro africano a receber a maior honraria da arquitetura mundial, estamos num movimento de contar o encontro entre Brasil e África não só com livros, mas com cada espaço da biblioteca”, afirma.
“A Praça XI é o coração do jeito de ser carioca, a capital da Pequena África de Heitor dos Prazeres. É uma biblioteca para contar toda essa história, com atitudes e projetos que engajam crianças e adultos por um futuro baseado na nossa herança.”
Biblioteca dos Saberes: Um espaço de cidadania, formação e novas possibilidades
Pedro reforça que a Biblioteca dos Saberes não será apenas um prédio bonito. Ele vê nela a chance de ampliar horizontes, especialmente para jovens e moradores do entorno. “Você que mora no São Carlos já pensou em ser violinista, produtor cultural, bibliotecário? Só de pisar numa biblioteca, uma vida pode se transformar”, diz. “Se o espaço oferece comida, cursos profissionais, atividade física e formação em música, história e cultura, temos o pacote completo para fazer brilhar o talento das crianças e dos adolescentes.”

A proposta da biblioteca é funcionar como um centro vivo, renovado e acessível, com clubes de leitura, oficinas, projetos contínuos e diálogo constante com as famílias do território. Para Pedro, esse é o ponto que define se o equipamento se torna um marco ou apenas uma construção. “Uma biblioteca só é viva quando tem circulação real de pessoas. Sem isso, vira prédio. Com isso, vira porta de entrada para políticas públicas do Rio.”
O desafio das telas e o ganho da convivência
Pedro também aponta o que vê como principal desafio: competir com o celular. “Uma criança só passa seis horas na frente de uma tela se não tem um espaço perto para brincar. Sem isso, ela vira adulta antes da hora”, diz. Na visão dele, a Biblioteca dos Saberes pode inverter esse cenário.
“O maior ganho vai ser oferecer um lugar para a criança brincar, o adolescente passar a tarde e pegar um livro que muda sua forma de ler o mundo. Ou para o avô aprender a tocar cavaco, como sempre sonhou.”
Ele acredita que o carioca vai se apropriar rapidamente do espaço. “Cada cantinho está sendo planejado para lembrar que o Rio só é a capital mundial do livro porque nossos saberes vieram de casas como a de tia Ciata, na Praça XI.”
Um legado da Capital Mundial do Livro
A prefeitura aposta que a Biblioteca dos Saberes será o maior legado do programa Rio Capital Mundial do Livro, conectando bibliotecas públicas, comunitárias e iniciativas de mediação cultural. Ao se integrar ao circuito da Pequena África, o equipamento promete reforçar a memória da região, ao mesmo tempo em que projeta novos futuros.
O Praça Onze Maravilha inaugura uma fase em que urbanismo, cultura e ancestralidade caminham juntos. E, se depender da visão de quem está na linha de frente, o Rio ganha mais que um novo prédio: ganha um espaço de encontro, formação e pertencimento.
Fonte do Conteudo: Alvaro Tallarico – diariodorio.com
