
Pouca gente sabe, mas a Rua do Ouvidor já abrigou uma joalheria digna de reis — literalmente. No início do século XX, a famosa e antológica casa inglesa Mappin & Webb, joalheira oficial da família real britânica, manteve uma filial bem no coração do Rio de Janeiro, então capital da República, reconhecendo na Ouvidor uma vitrine internacional de luxo. Ela tinha marcas internacionais de alto nível, confeitarias chiques e um movimento real de compradores de bens de primeira linha.
Hoje, enquanto o Centro vive um processo de recuperação urbana e cultural, lembrar dessa história ajuda a entender o tamanho do prestígio que a rua já teve — e o potencial que ela ainda guarda.
Quem é a Mappin & Webb
Fundada em 1775, em Sheffield, a Mappin & Webb nasceu como oficina de prataria e se transformou numa das joalherias mais tradicionais do Reino Unido. Com o tempo, passou a produzir talheres, candelabros, objetos de prata, peças de joalheria e, mais tarde, relógios de luxo.
A casa conquistou clientes reais: desde o século XIX, detém Royal Warrants (os famosos selos de fornecedor oficial) de monarcas britânicos e chegou a fornecer joias para rainhas europeias e figuras da alta sociedade internacional.
Em outras palavras: não era qualquer loja. Ter o nome Mappin & Webb numa fachada significava associar-se ao padrão de luxo que adornava palácios em Londres, Paris ou São Petersburgo.
A aventura brasileira começa pela Rua do Ouvidor
No início dos anos 1910, os irmãos Walter e Hebert Mappin decidiram apostar no Brasil, então um mercado em expansão e com elite consumidora ávida por novidades europeias. Fontes sobre a história do antigo magazine paulistano Mappin lembram que, em 1912, eles trouxeram ao país a empresa de pratarias Mappin & Webb, abrindo primeiro uma filial – exclusivamente de joalheria e prataria – na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, para depois inaugurarem o ponto de São Paulo.
Essa operação de prataria e joias precedeu e inspirou a criação da Mappin Stores, a famosa loja de departamentos paulista inaugurada em 1913, que inicialmente dividia espaço com a Mappin & Webb em São Paulo.
Ou seja: antes de se tornar sinônimo de magazine em São Paulo, o sobrenome Mappin já brilhava nas vitrines do Centro do Rio.
Endereço de rei: Rua do Ouvidor, 100
Registros de época ajudam a localizar essa presença inglesa no mapa carioca. Uma publicação do Instituto Rio Antigo menciona a Mappin & Webb instalada na Rua do Ouvidor, nº 100, destacando a loja em fotografias históricas.
Anúncios de jornal preservados na Biblioteca Nacional também mostram a marca anunciando-se como “Mappin Webb, Rua do Ouvidor, 100” em meados da década de 1930, o que indica que a joalheria permaneceu por muitas décadas no endereço onde hoje está a Livraria Leitura.
Há ainda referência a Mappin & Webb Brazil Limited ligada a documentos que citam imóveis na Rua do Ouvidor, reforçando o vínculo empresarial com o logradouro.
Não estão detalhados, nas fontes disponíveis, todos os produtos vendidos especificamente no Rio. Mas, seguindo a linha de atuação internacional da marca, é razoável afirmar que a casa oferecia prataria fina, talheres, objetos de luxo e joias, em sintonia com o que vendia em Londres e outras capitais.
A Rua do Ouvidor, palco da elegância carioca
Escolher a Rua do Ouvidor não foi acaso. Desde o século XIX, cronistas como Luiz Edmundo descrevem a via como o lugar que melhor traduzia a alma do Rio de Janeiro: ponto de encontro da sociedade, avenida das fofocas políticas, das modas, das novidades, das livrarias e confeitarias elegantes.
Um texto clássico lembra que a rua era considerada “a mais passeada e concorrida” da cidade — um endereço onde se ia tanto para comprar quanto para ver e ser visto.
Instalar uma joalheria de padrão internacional ali, portanto, fazia todo sentido: era o centro do centro do Rio, ponto obrigatório de quem pertencia (ou aspirava pertencer) à elite urbana.
O brilho que ainda ecoa
A presença da Mappin & Webb na Ouvidor somava-se a outras casas sofisticadas que atuavam na região, como joalherias, relojoarias e confeitarias. Um artigo recente do próprio Diário do Rio sobre a joalheria Gondolo lembra que, no auge, a Ouvidor era endereço da “mais chique, refinada e importante joalheria do Brasil”, numa época em que até a famosa Mappin & Webb tinha filial na cidade, no coração da rua do Ouvidor.
É um retrato de um Rio cosmopolita, onde as vitrines conversavam de igual para igual com Paris ou Londres, e a Rua do Ouvidor funcionava como termômetro do que havia de mais moderno em consumo e estilo de vida.
Do passado de luxo ao futuro possível
O tempo passou, o comércio mudou de eixo, e o Centro viveu décadas de esvaziamento. Mas o cenário começa a se inverter. Programas como o Reviver Centro e o Reviver Centro Patrimônio Pró-APAC, da Prefeitura, buscam reocupar o miolo histórico da cidade com moradia, cultura e novos negócios, oferecendo incentivos fiscais e apoio a obras de retrofit em prédios antigos.
Na própria Rua do Ouvidor, iniciativas recentes mostram que a rua volta a ganhar cor: um casarão na esquina com a Travessa dos Mercadores está sendo restaurado para abrigar o Museu do Café – com apoio da ABIC, em projeto já noticiado pela imprensa. Novos espaços culturais, como a Casa Proeza, instalada em sobrado histórico na mesma rua, surgem com apoio do programa Reviver Cultural, voltado a ocupar imóveis vazios com atividades artísticas.
A combinação de restauro de fachadas, chegada de moradores, bares, ateliês e centros culturais devolve lentamente à Ouvidor o papel que sempre foi seu: o de rua viva, falante, cheia de novidades.
E se o luxo voltasse à Ouvidor?
Não há, até agora, qualquer anúncio de retorno da Mappin & Webb ao Brasil — hoje a marca concentra suas lojas no Reino Unido e atua como joalheria e revendedora de relógios de luxo como Rolex, Patek Philippe e outros.
Mas o simples fato de que, há pouco mais de cem anos, uma joalheria fornecedora da Coroa britânica escolheu a Rua do Ouvidor como endereço diz muito sobre o potencial daquele pedaço do Centro Histórico.
Se os programas de revitalização vingarem, se os sobrados continuarem sendo restaurados e se a rua voltar a ser o passeio obrigatório de cariocas e visitantes, nada impede que, um dia, marcas internacionais de alto padrão voltem a enxergar ali um endereço natural.
Enquanto isso, lembrar que a Ouvidor já abrigou a Mappin & Webb é uma forma de afirmar, sem exagero:
“Se já fomos rua de rei, podemos muito bem voltar a ser rua de sonho”, diz Valdemar Barboza, gerente do Shopping Paço do Ouvidor, na esquina com a Uruguaiana, que acredita em dias melhores.
Fonte do Conteudo: Bruna Castro – diariodorio.com