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A inacreditável história do magnata boêmio que transformou uma mansão do Alto da Boa Vista em centro do poder brasileiro

Drault Ernanny em fotografia da Agência O Globo – ele fundou a Refinaria de Manguinhos, hoje Refit / Foto: Reprodução da Internet – Agência O Globo

Houve um tempo em que o Rio de Janeiro era mais do que a capital do Brasil. Era o grande palco da vida nacional. Presidentes, empresários, artistas, diplomatas, militares, cientistas e aventureiros passavam pela cidade como quem atravessava o centro nervoso do país. E poucos homens encarnaram tanto esse Rio grandioso, cosmopolita, boêmio e ambicioso quanto Drault Ernanny de Mello e Silva. O prenome se pronuncia Drô.

Hoje, seu nome é quase desconhecido fora de círculos muito específicos da memória política e empresarial brasileira. Mas houve décadas em que Drault Ernanny parecia estar em toda parte: nos debates sobre petróleo e soberania nacional, nos salões da antiga capital federal, nas campanhas políticas, nos negócios bancários e, sobretudo, numa mansão lendária escondida entre a mata do Alto da Boa Vista, onde presidentes da República, magnatas internacionais e até o primeiro homem a viajar ao espaço se reuniam diante da Floresta da Tijuca. Sim, Iuri Gagarin esteve lá. E também Oppenheimer, Einstein, e muitos outros, segundo relatos da época.

E talvez seja exatamente por isso que a história de Drault Ernanny, morto em 2002, parece mais roteiro de cinema do que biografia.

Nascido na Paraíba em 1905, Drault chegou ao Rio ainda jovem e formou-se médico em 1929. O Brasil vivia outro tempo: o Rio era capital da República, o centro político e financeiro do país, e Copacabana começava sua transformação no bairro mais desejado do Brasil. Drault mergulhou naquele mundo com intensidade. Trabalhou nas campanhas contra a febre amarela ao lado de figuras como Miguel Couto e Clementino Fraga, abriu clínica em Copacabana e tornou-se conhecido por tratamentos voltados para emagrecimento e queda de cabelo — algo extremamente moderno para a época.  

Mas medicina jamais bastaria para um homem daquele tamanho. Drault possuía uma característica muito carioca daquele Rio antigo: a incapacidade de pensar pequeno.

Virou empresário. Banqueiro. Industrial. Entrou na política. Tornou-se senador e depois deputado federal pelo PSD da Paraíba.   Participava do núcleo das grandes discussões econômicas brasileiras num momento em que o país tentava decidir que nação queria ser. Muito próximo ao magnata das comunicações Assis Chateaubriand, chegou a escondê-lo da polícia política na ditadura Vargas. E foi justamente aí que seu nome começou a se ligar ao petróleo.

Num Brasil ainda dividido entre interesses estrangeiros e o nascente nacionalismo econômico, Drault tornou-se um defensor da exploração nacional do petróleo. Publicou em 1952 o livro “A Questão do Petróleo”, derivado de um discurso no Senado Federal.   Estudos históricos sobre o setor apontam que ele participou diretamente de articulações que culminariam na criação da Refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro, uma das grandes peças da industrialização petrolífera brasileira. Ele foi seu fundador. 

Mas, embora tudo isso já fosse suficiente para garantir lugar na história, Drault Ernanny acabou eternizado por algo ainda mais fascinante: sua casa. Ou melhor, sua lenda.

Escondida na vegetação exuberante do Alto da Boa Vista, a famosa Casa das Pedras parecia condensar o espírito do antigo Rio de Janeiro numa única construção. Segundo relatos da época, a mansão teria sido originalmente erguida por uma americana inspirada na residência de Scarlett O’Hara em E o Vento Levou.   O resultado era um palácio tropical improvável, uma espécie de mistura entre aristocracia sulista americana, luxo europeu e exuberância carioca.

Ali, no alto da cidade, Drault criou um dos mais extraordinários salões privados do Brasil do século XX. O estudo “Política Externa Independente”, publicado pela FUNAG, descreve a Casa das Pedras como local de reuniões políticas discretas e estratégicas, ambiente suficientemente reservado para encontros de altíssimo nível diplomático.   Não era apenas uma residência elegante: era um centro informal de poder.

Uma dissertação da FGV revela detalhes impressionantes do interior da mansão. O imóvel possuía três andares, decoração em “estilo virginiano”, tapetes persas, pratarias, móveis de jacarandá e uma coleção de arte que incluía obras atribuídas a Picasso, Miró, Toulouse-Lautrec, Matisse, Diego Rivera, Portinari, Debret, Di Cavalcanti e Pedro Américo.  

Era um Rio de Janeiro que acreditava profundamente em sofisticação, em representação, em grandeza. E os convidados reforçavam essa aura quase inacreditável.

Segundo registros e relatos históricos, passaram pelos muros da Casa das Pedras políticos, militares e empresários brasileiros e estrangeiros, além de cientistas, artistas e chefes de Estado.   O caso mais documentado é o do cosmonauta soviético Iuri Gagarin. Um estudo acadêmico sobre sua visita ao Brasil relata que, ao chegar ao Rio em 1961, o primeiro homem a ir ao espaço hospedou-se justamente na residência de Drault Ernanny.  

Imagine a cena. O homem que acabara de orbitar a Terra chegando ao Rio de Janeiro no auge da Guerra Fria e sendo levado para uma mansão cinematográfica no meio da floresta carioca. Poucas cidades do mundo seriam capazes de produzir um episódio assim.

Relatos posteriores também associariam à casa nomes como o marechal Arthur Harris, comandante da RAF durante a Segunda Guerra, e Madame Chiang Kai-shek, uma das mulheres mais poderosas da política chinesa do século XX.  

E havia ainda o componente profundamente carioca da boemia política. Juscelino Kubitschek teria definido Drault como “um gênio paraibano, um boêmio”, daqueles que precisavam apenas “de um drink e um charuto” para começar uma grande ideia.   A frase parece resumir perfeitamente aquele Rio desaparecido onde empresários discutiam geopolítica entre uísques, charutos e vistas para a Floresta da Tijuca.

A Seleção Brasileira também passou por suas propriedades. Antes da Copa de 1950, o técnico Flávio Costa aceitou uma oferta de Drault para concentrar os jogadores na Casa dos Arcos, no Joá.   O Rio de Drault Ernanny parecia conectado a tudo: política, futebol, petróleo, diplomacia, televisão, alta sociedade e urbanismo.

Talvez não exista detalhe mais simbólico do que o fato de a Casa das Pedras ter servido de locação para a novela O Astro, de Janete Clair.   Na ficção, a residência virou a casa de Salomão Hayalla, personagem cercado por riqueza, poder e mistério. Era quase inevitável. A própria vida real de Drault já parecia novelesca.E talvez seja exatamente isso que torne sua história tão fascinante hoje.

Drault Ernanny representa um tipo humano que praticamente desapareceu do Rio de Janeiro: o grande anfitrião carioca. O homem que misturava ambição empresarial, vida social, nacionalismo econômico, extravagância estética e paixão pela cidade. Seu Rio era uma cidade que ainda sonhava grande.

Uma cidade que aterrava praias, desmontava morros, construía avenidas monumentais, inventava bairros inteiros, erguia hotéis luxuosos diante do Atlântico e acreditava profundamente no futuro.

Talvez por isso a trajetória de Drault dialogue tão fortemente com debates atuais. Hoje, qualquer intervenção urbana no Rio costuma ser recebida imediatamente como ameaça à paisagem. Mas a própria paisagem carioca moderna nasceu da ousadia de homens que acreditavam que cidade e natureza podiam dialogar sem medo.

O Aterro do Flamengo, a Avenida Atlântica moderna, a Urca aterrada, o Jardim de Alah canalizado e tantas outras imagens celebradas do Rio nasceram justamente dessa coragem urbanística.

Drault Ernanny pertencia a esse mundo. Um Rio de Janeiro exuberante, teatral, ambicioso, sofisticado e profundamente consciente de sua própria beleza. Um Rio que talvez ainda sobreviva escondido em algum velho muro de pedra no Alto da Boa Vista, entre árvores tropicais e histórias quase inacreditáveis.

Nota: Para os leitores que desejarem mergulhar ainda mais na trajetória quase inacreditável de Drault Ernanny, existe uma obra escrita pelo próprio personagem: “Meninos, eu vi… agora posso contar”, livro memorialístico em que o empresário, médico, político e banqueiro relata episódios de sua vida entre presidentes, empresários, figuras internacionais e os bastidores do Brasil do século XX. Há também “A Questão do Petróleo”, publicado em 1952, reunindo seu célebre discurso no Senado sobre soberania energética e desenvolvimento nacional — leitura valiosa para compreender o ambiente político e econômico do Rio da antiga capital federal.

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Fonte do Conteudo: Bruna Castro – diariodorio.com

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