
Acervo Particular
O Rio de Janeiro nasceu íntimo da morte. Não de forma trágica ou distante, mas como parte natural da vida urbana. Durante os séculos XVII, XVIII e o início do XIX, morrer e ser enterrado dentro de igrejas ou em seus arredores era prática corrente, aceita e desejada. Era assim no Rio, em Lisboa, em Salvador, em praticamente todas as cidades do mundo católico. A ideia de afastar os mortos do convívio cotidiano simplesmente não existia.
Sob o piso das igrejas coloniais, acumulavam-se gerações inteiras. As sepulturas eram abertas, fechadas e reutilizadas; tábuas eram recolocadas; lápides discretas marcavam nomes, cargos ou devoções. Durante as missas, fiéis caminhavam, sentavam-se e ajoelhavam-se literalmente sobre seus mortos, numa convivência que hoje parece a alguns impensável, mas que faz todo sentido dentro da cosmologia cristã do período. Não vamos esquecer que cada altar católico recebia sua “pedra dara”, uma espécie de receptáculo para as relíquias dos homens e mulheres Santos assim declarados pelo Papa. A igreja é a Casa de Deus — e, portanto, o lugar mais seguro para esperar a ressurreição prometida.
A hierarquia social também se expressava na morte. Quanto mais próximo do altar, maior o prestígio do morto. Os mais pobres ficavam nos adros; os escravos, quando batizados, por vezes tinham sepulturas mais simples; os indigentes, muitas vezes, eram enterrados em espaços mantidos por instituições de caridade ou irmandades – vale a pena ler um dia sobre a Procissão dos Ossos, da Irmandade da Misericórdia (assunto pra outro dia). Mas mesmo essa hierarquia funcionava dentro de um sistema de pertencimento: estar enterrado junto à igreja significava continuar fazendo parte da comunidade.
Nesse universo, as irmandades leigas tinham papel fundamental. Eram elas que organizavam funerais, acompanhavam o corpo, custeavam missas, garantiam sufrágios pelas almas. Não eram apenas associações religiosas: funcionavam como redes de sociabilidade, proteção e identidade. Para muitos homens livres pobres, libertos e artesãos, a irmandade era a garantia de uma morte digna, e, mais ainda, de eterna lembrança daquela alma. Missas seriam rezadas por cada uma daquelas pessoas, para ajudá-las a passar pelo purgatório.
Entre os muitos exemplos dessa convivência íntima entre fé, cidade e morte, destaca-se a necrópole da Ordem Terceira da Penitência, instalada discretamente atrás da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no antigo Morro de Santo Antônio. Ali, longe de qualquer improviso, a Ordem manteve um espaço funerário próprio para seus irmãos e benfeitores, organizado segundo a tradição católica e integrado ao complexo religioso. No centro da construção, uma belíssima capela mortuária estrutura o conjunto, reafirmando a ideia de que o sepultamento não era um ato marginal, mas parte essencial da vida espiritual e comunitária. A necrópole da Penitência não funcionava apenas como lugar de repouso dos mortos, mas como extensão natural da igreja: um espaço de memória, oração e pertencimento, onde a morte permanecia sob o mesmo horizonte simbólico da fé. Os irmãos membros da Penitência teriam especial orgulho por ter ali sua morada eterna.
A Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro – ou Irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia e Santa Isabel, fundada no século XVI por ninguém menos que São José de Anchieta, ocupava posição central nesse sistema. Desde sua origem, sepultar os mortos fazia parte importante de sua missão, entendida como uma das obras corporais de misericórdia – assim como manter hospitais, orfanatos, asilos, educandários e tudo o mais que faz até os nossos dias. A instituição não apenas cuidava dos doentes e pobres em vida, mas também assegurava que, na morte, ninguém fosse abandonado. Seu papel era silencioso, constante e profundamente urbano.
O Rio colonial, portanto, não escondia seus mortos. Eles estavam ali, sob os pés, nos sinos que dobravam, nas procissões fúnebres que cruzavam ruas estreitas, nas igrejas cheias. A cidade ainda não separava a vida da morte — e talvez por isso fosse tão consciente da própria finitude.
Fonte do Conteudo: Bruna Castro – diariodorio.com
