Arco do Teles: O que falta para salvar de vez este cartão postal carioca?

Prefeitura do Rio atuando na restauração de casarões desabados no Arco do Teles – Foto: Diário do Rio

O Arco do Teles, um dos cenários históricos mais fotografados do Rio de Janeiro e ícone do Centro Imperial da Cidade, vive um paradoxo: enquanto quase todos os prédios da pequena travessinha que atravessa o vão de pedra, renasceram com grande força após o período mais duro da pandemia, um pequeno trecho segue marcado pela ruína, descaso e negligência de proprietários que ignoram seu papel na preservação do patrimônio nacional e negam os encargos que são obrigados a ter, por serem guardiães deste pilar da nossa cultura. Os absurdos desabamentos dos imóveis 13 e 19 da Travessa do Comércio — nome da ruazinha que atravessa o Arco — continuam causando graves transtornos à região. Além de grandes tapumes que enfeiam e ocupam grande parte da rua – uma das áreas mais turísticas da cidade – os escombros se tornaram imãs de entulho, ratos, baratas e se tornaram mictório e privada de moradores de rua. Nada disso teria acontecido se os donos destes imóveis tivessem tomado qualquer atitude concreta ao longo dos anos. No número 13, viveu Carmen Miranda; e há quem defenda que ali seria o local ideal para um museu em homenagem à artista — certamente mais visitado do que uma instalação isolada no Aterro, longe de qualquer acesso.

A lista de problemas não para nos 2 imóveis arruinados pela absurda negligência de seus donos. Os espigões comerciais da Rua do Mercado 7 e 11, cujos fundos para a rua do arco correspondem ao que restou das antigas fachadas dos sobrados 8, 10 e 12 da Travessa do Comércio, seguem em estado deplorável. São fachadas quase que cenográficas, sem telhado, de fácil manutenção — ou deveriam ser. Mas a omissão permanente dos condomínios Engenheiro David Sessim (conhecido como Mercado 11) e do Edifício Rua do Mercado 7 resultou em paredes emporcalhadas, canos de PVC instalados sem critério em plena fachada tombada pelo Iphan, fios jogados nas fachadas e uma aparência geral de abandono que contradiz totalmente os esforços de revitalização do entorno. Os três prédios, que poderiam ser lindos, viraram ímã de tudo que não presta: como todos vêem que são mantidos porcamente, vivem sendo pichados, têm cartazes e adesivos colados e só servem para receber carga e descarga. A prova de que poderia ser diferente é que os números 16 e 16A pertencem a outro condomínio, o Rua do Mercado 17, e estão muito bem mantidas suas fachadas. Para quem atravessa o bucólico Arco do Teles, parte integrante do Conjunto Tombado Nacional da Praça XV, o choque é inevitável: de um lado, a rua que renasce; de outro, a negligência que insiste em resistir, pelas mãos de imensos condomínios de luxo, que não querem dedicar um tostão à sua fachada histórica.

E justamente porque uma parte significativa do Arco do Teles renasceu, é impossível aceitar que alguns pontos críticos sigam emperrando o pleno florescimento daquela que já foi — e pode voltar a ser — uma das ruas mais vibrantes do Rio. Depois do abandono total ao fim da pandemia, a Travessa do Comércio testemunhou um processo de reocupação exemplar. A Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, no número 23, foi a primeira a reabrir as portas. Em seguida, o número 17 voltou à vida com a produtora cultural Lado B; o número 11 ganhou o Centro Carioca de Fotografia; o Bar da Dora expandiu-se para o número 24, e uma Galeria de Arte de Rua abriu no 22; e o Diário do Rio inaugurou o Espaço Cultural e sua Redação nos números 2, 4 e 6. A partir daí, o movimento ganhou corpo: a Choperia Hops ocupou os números 20 e 15; o Queerioca – Centro de Cultura LGBT instalou-se no 16; e a concessionária Águas do Rio abriu uma loja temática no 16-A.

Com isso, restam vazios apenas quatro imóveis: os arruinados 13 e 19; o 9, ex-agência do BANERJ, que já foi vendido em operação conduzida pela Sergio Castro Imóveis e aguardando trâmites documentais, tendo sido adquirido por um investidor que planeja restaurá-lo; e o 18, recém-arrendado por um grande investidor que realizará obras em acordo com o Iphan. Para completar a recuperação definitiva do Arco do Teles, é indispensável que a Prefeitura finalmente cumpra o prometido: promover a arrecadação dos 2 imóveis que desabaram por culpa exclusiva de seus donos ou obrigar os proprietários a restaurá-los — e exigir dos condomínios da Rua do Mercado a manutenção mínima de suas fachadas tombadas, coisa que também pode caber ao Iphan. Até porque foi este órgão que, nos anos 70, em algum tipo de transe ou momento infeliz, autorizou que fossem os três demolidos para se tornarem uma espécie de mini-cidade cenográfica mal feita e mal concebida, além de mal-executada. O órgão responsável pelo Patrimônio Nacional tem uma dívida com o Arco do Teles, e está na hora de cumpri-la, obrigando estes Condomínios multimilionários a investirem uma fração de seus recursos na obrigação por eles assumida quando adquiriram uma propriedade tombada.

O Arco do Teles, erguido no século XVIII, é um dos poucos remanescentes arquitetônicos do antigo casario colonial da Praça XV e testemunha direta da formação urbana do Rio de Janeiro. Construído como passagem que conectava a Rua do Ouvidor ao Largo do Paço, seu nome vem da família Teles de Menezes, proprietária dos imóveis originais que ladeavam a travessa. Durante o período imperial, o arco foi ponto de circulação intensa entre o porto, o comércio e a administração pública, consolidando-se como uma das paisagens mais características do Centro histórico. Sobrevivente ao incêndio de 1790 e às inúmeras reformas urbanas dos séculos seguintes, o Arco se manteve como símbolo da cidade antiga e, hoje, integra o Conjunto Tombado Nacional da Praça XV, preservando não apenas sua arquitetura, mas a memória afetiva e cultural do Rio. O velho arco de pedra já provou que pode voltar a ser um cartão-postal vibrante, vivo, seguro e atraente: no premiado show do Cinema Roxy, promovido por Alexandre Accioly, ele é um dos principais cartões postais do Rio. O que falta agora é completar o trabalho: recuperar os últimos imóveis, enquadrar os donos negligentes e garantir que todo o conjunto tombado receba o cuidado que merece. O Rio, os cariocas e os milhões de turistas que passam por ali todos os anos agradecem.

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Fonte do Conteudo: Bruna Castro – diariodorio.com

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