Mensagens apreendidas pela PF mostram interlocução direta entre integrante do gabinete do senador e Robson Calixto, condenado pelo STF; recurso destinado a projeto esportivo é investigado por suspeita de desvio
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) destinou, em 2023, uma emenda parlamentar de quase R$ 200 mil para um projeto esportivo após uma negociação conduzida por uma assessora de seu gabinete com Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por integrar uma organização criminosa relacionada ao caso do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
As informações constam de uma investigação da Polícia Federal, que analisou mensagens encontradas no celular de Calixto. Os diálogos mostram que Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora parlamentar de Flávio Bolsonaro, mantinha contato direto com o condenado e tratava com ele sobre a solicitação de recursos públicos.
O caso ganhou relevância porque a própria investigação da PF apura possíveis desvios de emendas parlamentares destinadas a entidades relacionadas aos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, também condenados pelo STF no processo que apurou o assassinato de Marielle.
Mensagens mostram pedido de recurso ao gabinete
Em outubro de 2023, Robson Calixto procurou Maria de Fátima pelo WhatsApp para pedir que Flávio Bolsonaro destinasse recursos ao projeto.
Em uma das mensagens, o condenado escreveu:
“Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar.”
A assessora respondeu solicitando que ele encaminhasse formalmente o pedido.
Dias depois, Maria de Fátima voltou a tratar do assunto e sugeriu que Calixto reforçasse pessoalmente a solicitação durante um evento em Brasília.
“Temos um evento. Vc vai tbm e já reforça o pedido com o senador”, escreveu a assessora.
Segundo a PF, o encontro poderia servir justamente para que o pedido de recursos fosse apresentado diretamente ao senador.
A assessora também perguntou a Calixto se ele ainda mantinha contato com o então deputado Chiquinho Brazão e enviou um convite para uma cerimônia relacionada à entrega de coletes balísticos à Polícia Militar do Rio de Janeiro. A PF apontou que o evento seria uma oportunidade para reforçar a solicitação de recursos.
Em novembro de 2023, Calixto voltou a cobrar uma resposta sobre o projeto do Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP).
“Amiga não esquece do IFOP não, vê se o Senador consegue nos agraciar, para não terminar o nosso projeto”, escreveu.
A resposta foi curta:
“Pode deixar”, afirmou a assessora.
Na sequência, foi destinada uma emenda de R$ 199.999,79 ao Ministério do Esporte para execução do projeto “Jogadores do Futuro”, que previa atividades esportivas para crianças na região da Taquara, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
A investigação, porém, não se limita à forma como a emenda foi solicitada.
Um relatório técnico do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou indícios de irregularidades na aplicação dos recursos. Entre os problemas identificados estava a contratação de uma empresa de advocacia para executar serviços relacionados à coordenação do projeto esportivo.
O TCU registrou que os serviços contratados não apresentavam relação compatível com a execução das atividades esportivas previstas. O órgão também apontou que o responsável pela empresa contratada era o próprio presidente do IFOP.
Assessora pediu ingressos após negociação da emenda
As mensagens analisadas pela PF também registraram outro episódio envolvendo a assessora de Flávio Bolsonaro.
Em janeiro de 2024, meses depois da destinação da emenda, Maria de Fátima pediu a Calixto quatro ingressos para um camarote no desfile das campeãs do Carnaval do Rio.
“Já estou te perturbando rsrsrs será que consegue 4 ingressos pro desfile das campeãs no camarote Arpoador?”, escreveu.
De acordo com a investigação, Calixto procurou uma terceira pessoa para conseguir os ingressos solicitados pela assessora.
Não há, porém, registro nas mensagens analisadas pela PF sobre quem utilizou os ingressos.
PF investiga outras emendas
A apuração conduzida pela Polícia Federal também alcança outros recursos destinados por meio de emendas parlamentares a entidades investigadas por possíveis desvios.
No caso relacionado a Flávio Bolsonaro, além dos R$ 199,9 mil destinados ao IFOP, a investigação cita aproximadamente R$ 400 mil destinados ao município de Barra do Piraí, elevando o montante relacionado às entidades investigadas para cerca de R$ 599 mil.
A investigação tramita no Supremo Tribunal Federal e foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes.
O STF condenou Robson Calixto a nove anos de prisão por integrar organização criminosa. A decisão também determinou a perda de seu cargo público. Em junho de 2026, a Primeira Turma rejeitou recursos apresentados pelos condenados e manteve as condenações.
O que diz Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro afirma que a destinação da emenda ocorreu dentro da legislação e dos critérios técnicos estabelecidos pelo Ministério do Esporte.
Em nota, o senador declarou que a entidade responsável pela execução apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores que não foram utilizados.
A investigação da PF, entretanto, busca justamente esclarecer a destinação e a eventual utilização irregular dos recursos públicos, além de identificar possíveis conexões entre as emendas e entidades relacionadas ao grupo investigado no caso Marielle.
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Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br