O sol estava quente. Fazia muito calor, mas ninguém parecia se importar. Eles estavam vestidos de preto, com a camisa do time do coração de Diogo: o Botafogo.
Encontraram-se sem bola, sem brincadeiras, sem a alegria de todos os dias. Não havia pelada na rua, planos ou travessuras. A infância parecia ter perdido a cor.
Estavam desolados. Choravam.
Diogo era bonito, tinha olhos esverdeados, sorriso fácil e uma delicadeza que não passava despercebida. Educado, respeitoso, daqueles que tinham o costume de pedir a bênção aos mais velhos. Às vezes tímido, como tantos adolescentes, outras vezes brincalhão, de sorriso solto.
Um menino de alma leve e coração bom.
Era mais que amigo.
Era irmão!
“Nosso irmão!”, disseram.
E foi assim que, nesta sexta-feira, corintianos e vascaínos vestiram a camisa do Botafogo. O time de Diogo virou o time de todos.
Na quadra da Comunidade de Serra das Graças, em Anchieta, entre mangueiras, uma igreja e um lago, os amigos se reuniram para chorar a ausência de quem fazia tanta diferença. Tudo parecia ter perdido a graça.
Não me contaram se Diogo era bom de bola. E isso pouco importava. O que importava era o tanto que ele era querido. O que importava eram os meninos que, diante de uma ausência tão grande, decidiram vestir a camisa do amigo para dizer que ele continuaria fazendo parte do time.
Rafael Carvalho conheceu Diogo quando os dois tinham apenas quatro anos. Cresceram juntos, passaram por escolas diferentes, a amizade continuou quando Diogo foi morar em frente à sua casa, na Rua Jonas Ribeiro, no bairro Acaiaca.
“Sou amigo dele desde o pré I. Diogo era muito humilde, educado. Todo dia a gente chamava: ‘Diogo, vem jogar bola!’. Ontem era o dia da gente comemorar meu aniversário, mas ontem ele morreu. É muito triste. Todos choramos. Não temos disposição para nada”, contou Rafael.
Agora, ele promete: todos serão botafoguenses e assistirão aos jogos em homenagem ao amigo. Lucas comprou uma camisa 10.
“Vai ser muito triste daqui para frente. Olhar e não ver ele. Toda vez que chegar o jogo do Botafogo, não vou mais ver ele gritando”, lamentou.
Lucas Scherrer, de 12 anos, também era inseparável de Diogo. Há quatro anos construíram uma amizade que, segundo ele, era de irmãos.
“Até o pai dele chamava a gente de irmão. A gente era muito grudado, não se separava em nenhum momento. Eu sou vascaíno, mas agora sou vascaíno e botafoguense por causa dele. Está doendo. Não dá nem para acreditar”, disse.
Antony Fabiano Santos Moreira, de 13 anos, é corintiano. Hoje vestiu a camisa do Botafogo. Conheceu Diogo no Ginásio Euzinha Nery, nas Areias, durante os treinos. Depois, vieram as brincadeiras, os encontros e as partidas de futebol na rua.
Havia planos. Diogo o convidaria para seu aniversário, no dia 18 de dezembro. Mas a vida interrompeu a agenda das comemorações.
“Ele era muito tranquilo, da paz. Nunca fez mal para ninguém. Só tinha gente que gostava dele. Gostava de brincar e se preocupava em fazer a gente ficar feliz. É uma notícia muito triste. Ontem foi meu aniversário, ele ia lá em casa”, contou Antony.
Daniel Mulinari também era amigo de Diogo. Há quatro anos se conheceram e compartilharam tardes de futebol na rua, no campinho e na praça.
“É uma perda tão grande. Eu considerava ele como irmão”, disse.
A tarde foi ficando mais fresca debaixo das árvores, mas a tristeza continuava ali, sentada entre os meninos, misturada às lágrimas e às lembranças.
Fiquei olhando aqueles garotos. Tão jovens para conhecer uma dor tão grande. Vestidos de preto, com o escudo do Botafogo no peito, pareciam querer dizer que Diogo não estava sozinho. Que sua camisa continuaria vestida e que, nos próximos jogos, haveria sempre alguém gritando por ele.
Talvez nunca mais uma partida do Botafogo seja apenas uma partida para esses meninos. Talvez, a cada gol, alguém se lembre daquele amigo que deveria estar ali.
Diogo deixou os pais, a família, os amigos e uma comunidade inteira de coração apertado. Deixou também uma lição bonita: a amizade é capaz de transformar até a camisa do rival em uniforme de saudade.
Meninos, continuem jogando bola. Continuem se encontrando. E, quando o Botafogo entrar em campo, gritem por Diogo. Usem a camisa 10. Contem suas histórias.
A gente se vê um dia, Diogo.
Até lá, continue sua missão, brilhe onde estiver e, se for possível, mande um pouco dessa sua luz para cá. Ensine-nos a carregar um pouco da sua paz, da sua gentileza e dessa beleza de menino que seus amigos não conseguem esquecer.
Até, irmão botafoguense!
Luciana Maximo
Jornalista e cronista
Fonte do Conteudo: Redação – espiritosantonoticias.com.br