Cais do Valongo revela passado da escravidão no Rio e hoje atrai visitas guiadas

Imagem: Reprodução

A descoberta do Cais do Valongo, em 2011, durante as obras do Porto Maravilha, como ficou conhecida a remodelação da região para os Jogos Olímpicos, jogou holofotes na região portuária do Rio de Janeiro e no passado da escravidão no Brasil. Há estimativa de que 1 milhão de pessoas escravizadas tenham aportado no Valongo até sua desativação, em 1831.

O Rio foi a cidade que mais recebeu pessoas escravizadas no Brasil, e cerca de 300 mil morreram antes mesmo de chegar, de acordo com pesquisa recente da Emory University, nos Estados Unidos.

A Unesco, braço das Nações Unidas para educação, ciência e cultura, reconheceu, em 2017, o Cais do Valongo como Patrimônio Mundial, ajudando a criar um chamariz para visitas guiadas que hoje movimentam a região, ensinando sobre a história e promovendo a memória desse passado.

História do Cais e dos escravos

Até meados da década de 1770, os escravizados desembarcavam na Praia do Peixe, atual Praça XV, e eram negociados na Rua Direita (hoje Rua 1º de Março), no centro do Rio de Janeiro, à vista de todos. Em 1774, uma nova legislação estabeleceu a transferência desse mercado para a região do Valongo, por iniciativa do segundo Marquês de Lavradio, Dom Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d’Eça e Melo Silva Mascarenhas, vice-rei do Brasil, alarmado com “o terrível costume de tão logo os pretos desembarcarem no porto vindos da costa africana, entrarem na cidade através das principais vias públicas, não apenas carregados de inúmeras doenças, mas nus.”

O mercado foi transferido, mas ainda não havia o ancoradouro (local onde os barcos podiam ancorar), e a alternativa encontrada foi desembarcar os escravizados na alfândega e imediatamente enviá-los de bote ao Valongo, de onde saltariam diretamente na praia. O comércio de escravizados finalmente se estabeleceu na área em 1779, onde teve seu auge entre 1808, com a chegada da família real portuguesa, e 1831, quando o tráfico negreiro para o Brasil foi proibido, passando a ser feito clandestinamente.

De 1811 a 1831, entre 500 mil e um milhão de escravos ali desembarcaram. No fim dos anos 1820, o tráfico de escravizados para o Brasil vive o seu apogeu. O Rio de Janeiro era então um importante entreposto comercial de escravizados, e o Valongo era a principal porta de entrada dos negros vindos de Angola, da África Oriental e Centro-Ocidental, enquanto no Maranhão e na Bahia chegavam navios vindos da Guiné e da África Ocidental, respectivamente.

Em 1843, foi feito um aterro de 60 centímetros de espessura sobre o cais do Valongo para a construção de um novo ancoradouro, destinado a receber a princesa Teresa Cristina, futura esposa de D. Pedro II. O cais foi então rebatizado “Cais da Imperatriz”. Mas este também acabaria por ser enterrado em 1904, durante a reforma urbana empreendida pelo prefeito Pereira Passos.

Redescoberta e ossada encontrada

Um casal de moradores da região da Gamboa comprou uma casa e seis anos depois decidiram fazer uma reforma grande na casa, ou seja, foram necessárias algumas escavações para erguer colunas de sustentação para um segundo andar da casa. Só que o que era para ser apenas uma grande hora, foi uma (re)descoberta da história do Rio de Janeiro.

Durante a escavação, um dos pedreiros encontrou ossos por debaixo da casa e logo reportou à dona, Merced.

“Nas escavações dos buracos, encontramos muitos ossos de cachorro… Acho que os antigos proprietários enterravam ossos no quintal!”, ele contou a Merced, como ela relembra à BBC News Brasil.

Com a descoberta, Merced foi olhar o que tinha sido encontrado, e para a surpresa de todos, o que estava ali eram ossos humanos.

“Fui lá, mexi nos entulhos e encontrei uma arcada dentária de um adulto. Falei, ‘Seu José, isso não é de cachorro, é de gente! Olha só. É igualzinha à nossa.’ Ele fez o sinal da cruz”, lembra ela.

“Aí tinha uma arcada dentária pequenininha. Eu falei: ‘Seu José, isso aqui é de uma criança’. Aí, ele começou a chorar. Todo mundo ficou ali parado, olhando. Fui botando os ossos em um cantinho, depois separando em caixas. Tinha muito osso quebrado.”

Uma sessão de especulação começou a acontecer entre os donos da casa e os pedreiros. “Pensamos mil coisas. ‘Os antigos donos da casa mataram pessoas e enterraram aqui!’ Ou então, ‘Não, é um serial killer [assassino em série]!’”

Merced, curiosa (não por menos), chamou um vizinho entendido na história da região portuária. Ele chegou à sua casa com um livro antigo. Um mapa indicava o caminho para um cemitério próximo aos mercados onde se vendiam pessoas escravizadas.

“Ele falou: ‘Você mora em cima de um cemitério. Você acaba de descobrir o cemitério dos escravizados’”, lembra Merced. “Eu falei, ‘Caraca. O que eu faço com isso?’.”

Em 1996, ao fazer uma reforma em casa, Merced Guimarães dos Anjos descobriu ossadas no chão — Foto: Júlia Dias Carneiro

A história soterrada pelo passar dos anos

Foi essa obra de ampliação, neste dia, que marcou a redescoberta do Cemitério dos Pretos Novos, que funcionou entre aproximadamente 1770 e 1830, e onde Merced estima que 40 mil pessoas tenham sido enterradas.

A existência do cemitério por registros históricos era sabida. Mas o local exato havia se perdido, apagado sob a cidade em expansão.

A expressão “pretos novos” era usada para designar os cativos recém-desembarcados no Brasil, que ainda não falavam português.

“Hoje, digo que encontrei aqui um holocausto. O holocausto negro”, diz Merced, com os olhos marejando ao lembrar do impacto de ver as ossadas sob a própria casa, inclusive arcadas dentárias miúdas com botõezinhos de dentes permanentes ainda nascendo.

“A gente não tinha ideia dessa história”, lembra Merced, que mora na região portuária desde menina.

“Ninguém comentava que aqui havia sido um entreposto de venda de pessoas para a escravidão. Essa história era escondida.”

Foto: Divulgação

A preservação da história que não pode ser esquecida

As visitas começaram a crescer e, com o incentivo de amigos do movimento negro, a família decidiu criar uma instituição para lutar pela preservação do local. Assim nasceu, há 21 anos, o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), fundado em 13 de maio de 2005, no dia da Abolição.

No que antes seria a garagem da casa, foi instalado um memorial com exposição permanente. Já no quintal, onde a família imaginava ter árvores e uma piscina, hoje funcionam um café, uma loja e uma biblioteca dedicada à história do tráfico atlântico, da escravização e da diáspora negra.

A missão do IPN é pesquisar, estudar, investigar e preservar o patrimônio material e imaterial africano e afro-brasileiro, além de promover atividades educativas que estimulem a reflexão sobre a escravidão e suas consequências para a igualdade racial no Brasil.

Merced, que hoje tem 69 anos, diz estar ali “todos os dias, todas as horas”. Segundo ela, a dedicação integral ao instituto começou a partir do primeiro encontro com “as pessoas que vieram de África”. “De alguma forma, elas me pediram para que não deixasse que fossem esquecidas”, afirma.

O Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão e também o maior destino de pessoas escravizadas nas Américas. Ao longo de mais de três séculos, cerca de 4,8 milhões de africanos foram trazidos para o país.

A casa onde o instituto funciona, construída em 1866, ainda é moradia da família e fica parede com parede com o espaço aberto ao público. “Quando você quebra o chão da minha casa, debaixo do contrapiso você já acha osso, à flor da terra”, conta Merced.

Até o ano passado, o IPN havia recebido cerca de 300 mil visitantes, sem contar as pessoas que participam das caminhadas educativas promovidas na região, dentro do Circuito de Herança Africana.

No espaço expositivo principal, painéis, dados e imagens apresentam informações sobre o tráfico atlântico e sobre o Cemitério dos Pretos Novos. Uma janela de vidro no chão permite ver o sítio arqueológico, com terra vermelha e fragmentos de ossos espalhados pelo subsolo.

Para Merced, falar em “cemitério” ou “enterro” já é uma forma de reconhecer um respeito que não existiu ali. “Eram valas onde os corpos eram jogados de qualquer jeito. Por causa do mau cheiro, fazia-se uma queima desses corpos. As valas eram tão cheias que os corpos embaixo eram quebrados, cobertos por outros restos mortais”, descreve.

O cemitério recebia os mortos que não resistiam à travessia atlântica, vítimas de doenças como varíola e disenteria, ou aqueles que sucumbiam nos armazéns no entorno do Valongo, onde os cativos recém-chegados eram colocados à venda.

Merced lembra ainda que o espaço não era clandestino. Os óbitos eram registrados pela Igreja Católica, e o IPN conseguiu resgatar 12 anos de registros preservados. “O cemitério fica debaixo de quatro casas. Um lugar que tem mais ou menos 40 mil pessoas. Um lugar onde estão bebês, crianças, jovens, mulheres, inclusive mulheres grávidas. Pessoas que eram de Moçambique, do Congo, de Angola e algumas da Costa do Marfim”, relata.

O cuidado e a apresentação da história

A maior parte dos mortos aparece de forma anônima nos registros, com anotação apenas da data da morte, dos navios em que chegaram e de onde vinham. Quando algum nome era identificado, muitas vezes era o do “senhor” a quem a pessoa escravizada havia sido destinada.

Os 21 anos do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN) foram marcados pela abertura de uma extensão da instituição. O Centro Cultural Pretos Novos, na vizinha rua do Livramento, vai receber saraus, rodas de samba, exposições de arte, oficinas, lançamentos de livros e clube de leitura para crianças em visitas escolares, atividades que o instituto já promovia, mas para as quais dispunha de pouco espaço.

Merced diz que a inauguração foi feita “no amor” e com muito suor, como aconteceu desde o começo da história do IPN. “O imóvel estava muito ruinzinho, mas conseguimos reformar com ajuda de amigos. Cada um dava uma coisa, a tinta, a mão de obra, a parte elétrica… Fizemos uma maquiagem, mas ficou bonita!”, contou.

Agora, ela tenta levantar recursos para reformar o segundo andar do imóvel, que tem uma área ainda maior. “Estamos ‘na pista’ pedindo a ajuda de todos”, disse. Merced ficou esperançosa após conversas recentes com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que demonstrou interesse em investir no novo centro cultural.

Desde 2023, quando lançou a chamada Iniciativa Valongo, o banco vem aplicando recursos na Pequena África e no entorno do Cais do Valongo. O BNDES afirma estar em tratativas com o IPN para formalizar uma parceria voltada ao novo centro cultural, com projeto conceitual em elaboração.

As conversas acontecem no âmbito da criação do Distrito Cultural Pequena África, plano estratégico de requalificação urbana que busca valorizar a memória e a cultura afro-brasileiras, ao mesmo tempo em que impulsiona turismo, economia criativa e melhorias de infraestrutura.

Apesar da expansão, Merced diz que ainda sonha com apoios permanentes para o instituto, que reduzam a preocupação com contas básicas como a de luz. Segundo ela, manter o espaço é uma luta contínua, marcada pela busca por fomento público em editais e emendas parlamentares. “Mas são recursos que vão e vêm”, afirmou.

“Aqui não é qualquer lugar. É um lugar singular. Mas a gente fica catando recursos, pedindo esmola, fazendo economias, lutando por editais com o coração na boca. É difícil isso. A gente só quer segurança de que vai conseguir abrir e fechar todo dia”, disse.

A visibilidade trazida pela descoberta do vizinho Cais do Valongo ampliou o interesse pela história da escravidão na região portuária, mas Merced questiona por que o cais recebe tanta atenção em comparação ao cemitério, já que ambos guardam marcas do mesmo passado. “O cais era onde chegavam; e o cemitério, onde ficavam. O cais é pedra, aqui são corpos”, resume.

Depois de 21 anos à frente do IPN, Merced rejeita a ideia de missão cumprida. “Ainda tem muito o que fazer. Isso é muito frágil. Se eu dormir um pouquinho, isso acaba. Toda memória, se você deixar um dia sem falar, apaga.”

Informações do G1 e BBC News

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Fonte do Conteudo: Mateus Aguiar – diariodorio.com

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