
O Centro do Rio perderá, em poucos meses, uma de suas poucas áreas verdes em pleno coração financeiro do Rio. A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento autorizou finalmente a construção do polêmico condomínio residencial no Buraco do Lume, espaço arborizado que fica entre as ruas São José, Nilo Peçanha e Graça Aranha, em frente ao antigo prédio do Banerj, hoje sede da Assembleia Legislativa. O projeto, descoberto em primeira mão pelo DIÁRIO DO RIO, mobilizou urbanistas, arquitetos e empresários do bairro, que viram no edifício de apartamentos compactos uma ameaça ao patrimônio ambiental e cultural da região, mesmo levando em conta a necessidade de novas construções que tragam moradores para reavivar o entorno. Apesar de toda a grita, o terreno é mesmo privado e consta da matrícula 46729 do 7o. Ofício do Registro de Imóveis (RGI).
O empreendimento é encabeçado pela construtora mineira Patrimar e chegou a ganhar o apelido de “novo Balança mas não cai”, em alusão ao histórico edifício da Presidente Vargas. A autorização para erguer o prédio foi concedida no fim do mês passado, com base na legislação do programa Reviver Centro, criado para atrair moradores ao bairro. Com 720 unidades, o projeto é o maior até agora licenciado dentro do programa — sozinho, responde por 13,75% dos 5.236 apartamentos já aprovados. Todos os imóveis serão estúdios compactos, entre 25 e 35 metros quadrados, sem garagem. O conceito aposta em áreas de uso coletivo: no terraço, haverá piscina, churrasqueira e espaço gourmet com vista para a Baía de Guanabara e para o Morro de Santo Antônio. No térreo, estão previstos bicicletário e academia; a região é das mais seguras do bairro.
Nas imediações, mais dois terrenos devem receber construções. Onde funcionou a antiga C&A, na Rua da Quitanda 25, a construtora Canopus está para licenciar um grande edifício, segundo informações obtidas de fontes da Prefeitura. E na própria rua da Quitanda, 53, será leiloado o – imenso – terreno pertencente à desaparecida Construtora Veplan, onde se espera que haja grande disputa de construtoras. O espaço liga a Quitanda à simpática Travessa do Ouvidor, tendo duas frentes de rua. Com estes três empreendimentos saindo, a região do entorno da Rua da Assembléia se firma como grande receptora de lançamentos residenciais no futuro próximo. Estima-se que, juntos, os três empreendimentos possam gerar mais de 2000 unidades.

A grande obra do ex-buraco – com projeto dos arquitetos da Cité Arquitetura, no entanto, vai ocupar mais de 2.500 m² de uma área de cerca de 6.000 m², correspondente à parte arborizada da Praça Mário Lago, consagrada como espaço público desde que foi aterrada com recursos municipais pelo prefeito Israel Klabin, em 1979. Aproximadamente 40 árvores deverão ser removidas, incluindo algumas espécies raras e ameaçadas de extinção, como o Pau-Brasil, que foram plantadas pela própria Prefeitura na época e provavelmente serão transplantadas para um local mais seguro. O imóvel, que era público – parte do extinto Morro do Castelo – foi negociado na época pelo Governo da Guanabara com o finado Grupo Lume, que acabou falindo sem pagar o preço combinado. Mas o imóvel, em vez de voltar pro estado, acabou parando nas mãos do Bradesco, que o leiloou a preço baixo, porque era tombado. Logo depois da aquisição, o deputado Rodrigo Amorim tratou de seu destombamento, e, como imóvel privado que de fato formalmente é, agora vale milhões e dará lugar a um enorme edifício.


A polêmica, inclusive, na época chegou ao gabinete do prefeito Eduardo Paes. Em carta enviada ao chefe do Executivo, o Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio (SindilojasRio) e o Clube de Diretores Lojistas do Rio (CDLRio) se posicionaram contra qualquer intervenção no Buraco do Lume. No documento, as entidades alertaram para os impactos negativos que a obra pode gerar, de ordem histórica, cultural, ambiental, urbana e até econômica, e pediram que qualquer proposta seja amplamente debatida com a sociedade. O prefeito era contrário ao projeto, mas disse ao jornal O Globo que tinha se posicionado contrariamente pois não sabia que não fazia formalmente parte da Praça e desconhecia que era privado.
Agora é esperar que o projeto não agrida a paisagem e traga mesmo muitos moradores para uma região que já tem mais de 13 mil apartamentos lançados, mas ainda pouquíssimos retrofits.
Fonte do Conteudo: Victor Serra – diariodorio.com