Crônica- BEROLA, O LOBISOMEM DE PIÚMA | Jornal Espírito Santo Notícias

Uma viagem transcendental pela Cidade das Conchas

Piúma — Cidade das Conchas, onde até os causos mais absurdos têm endereço, testemunha e, se bobear, até parente pra confirmar!

Nardellio, dizem por aí que Tengo, também conhecido como Berola, irmão de Lair e pai de Orlandinho, foi, durante muito tempo, lobisomem.

A história começa na Praia Doce, no sentido do Monte H. Mas não pense que essa transformação aconteceu assim, de uma hora pra outra, numa noite de lua cheia, com uivos, pelos arrepiados e aquelas coisas que a gente vê nos filmes de terror.

Nada disso, cumpadi!

Essa história começou muito antes, ainda no Campo, numa caminhada que passaria para a história de Piúma como uma das mais longas, doces e transcendentais viagens já realizadas por um cidadão piumense.

O PICOLÉ QUE MUDOU TUDO

A caminhada já vinha de longe. Berola seguia seu rumo, passando pelo Campo e, mais precisamente, em frente à casa do Xerife Lobo, pai de Jonacy, Gaio, Tânia e outros.

Tudo aparentemente normal, até que nosso herói chegou à esquina oposta à Praia Doce.

Foi ali que a coisa começou a mudar de figura.

Tengo parou, comprou um picolé Lorinho e começou a chupar.

Sim, meu povo! Um simples picolé de amendoim!

Mas não era um picolé qualquer. Naquele momento, sem que ninguém pudesse imaginar a dimensão do acontecimento, começava o processo de transformação do nosso personagem.

A cada lambida, uma nova percepção da realidade. A cada chupada, um novo horizonte se abria. E, quando o último vestígio daquele picolé começou a desaparecer, Berola já se encontrava em pleno processo de metamorfose.

Não sabemos se foi o amendoim, o calor de Piúma ou alguma força misteriosa vinda do Monte H. O que sabemos é que, dali em diante, a caminhada deixaria de ser uma simples caminhada.

Tinha começado a viagem!

A LANCHINHA DO NOCO E AS ONDAS DA IMAGINAÇÃO

Retornando pela mesma rua, Berola passou pela casa do senhor Ivon e encontrou Noco, que andava pra cima e pra baixo, concentradíssimo na construção de uma de suas grandes invenções.

Noco estava às voltas com uma lanchinha de isopor, equipada com um motorzinho de brinquedo a pilha.

A embarcação ainda estava longe de alcançar a perfeição, mas já tinha personalidade própria. Navegava em círculos, com uma engenharia que misturava cotonetes, pilhas usadas e, certamente, uma boa dose de criatividade.

Enquanto o mundo dos engenheiros navais se preocupava com hélices, lemes e sistemas de propulsão, Noco já estava testando sua tecnologia revolucionária nas ondas imaginárias provocadas pelas embarcações que saíam barra afora.

Berola cumprimentou o inventor e seguiu viagem.

Afinal, cada um tinha sua missão naquele pedaço de chão piumense: Noco tentava colocar sua lanchinha no rumo certo; Tengo, por sua vez, já navegava em águas muito mais profundas.

DO CAMPING DO Sr. MAURÍCIO AO QUIOSQUE DO GEGÊ

A caminhada prosseguiu pela frente do camping do senhor Maurício, aquele que teve uma perna amputada.

Berola continuava firme, atravessando a paisagem que guardava as lembranças de uma Piúma que já não existe exatamente como antes, mas que continua viva na memória de quem teve a sorte de conhecê-la.

Passou pelo quiosque do Gegê e, logo depois, pelo quiosque daquele sujeito moreno que ficava em frente à barraca, também do Gegê.

E aqui cabe uma explicação para os mais novos, que talvez estejam pensando que Gegê era um empresário do ramo imobiliário com uma vocação exagerada para a praia.

Naquela época, houve um período em que Gegê mantinha um quiosque e uma barraca nas proximidades da antiga CalaMar, ali perto de onde funcionou a academia do Assis Debiazi.

Era uma Piúma de outros tempos, quando os pontos de referência não precisavam de GPS. Bastava dizer o nome do sujeito, apontar a direção e pronto: qualquer piumense sabia onde ficava.

Berola passou pelo Castelo dos Frutas e seguiu adiante, já com aquela expressão de quem estava vendo o mundo por um ângulo que os demais mortais ainda não tinham descoberto.

ELVIS, O CIGARRO FEDORENTO E O ARQUITETO

Ao chegar nas imediações do Bar do Baiano, ao lado da discoteca do Zé Nade, nosso viajante avistou Elvis.

O homem estava sentado num toco, justamente onde hoje fica o posto do Valdir, na praia.

Elvis fumava um cigarro daqueles cuja fama dispensava qualquer propaganda. A fumaça, carregada pelo vento, seguia em direção ao próprio bar e à casa de Júlio, o arquiteto.

Júlio, diga-se de passagem, era conhecido por uma fama que não caberia muito bem num currículo profissional: gostava de se envolver com mulheres casadas.

Mas Piúma sempre foi assim. Uma cidade onde todo mundo conhece alguém que conhece alguém que sabe de alguma coisa que, oficialmente, ninguém viu.

E lá seguia Berola, absorvendo cada detalhe daquela paisagem humana, como se cada personagem fosse uma peça indispensável para completar o grande quebra-cabeça de sua jornada.

O cigarro de Elvis seguia seu curso com o vento. A caminhada de Berola seguia seu curso com o destino.

E o destino, naquele dia, parecia estar de brincadeira.

SUZY, ITAPUTANGA E A PIÚMA DOS GRANDES VERÕES

Mais adiante, Berola encontrou Suzy, mulher que, por escolha própria, tinha no bairro de Itaputanga seu território de pertencimento.

Itaputanga, aliás, era muito mais do que um bairro. Era um reduto eleitoral, uma comunidade com personalidade própria e um lugar cuja história também passava pela atuação de Hartur Rangel, um dos grandes impulsionadores do bairro.

Naquela Piúma, a política, a praia, as amizades e os romances se misturavam numa combinação que nenhum roteirista seria capaz de inventar sem ser acusado de exagero.

Mas a vida real de uma cidade pequena tem dessas coisas: os personagens são verdadeiros, os acontecimentos são lembrados de maneiras diferentes e as histórias crescem a cada vez que alguém resolve contá-las.

E Berola continuava sua peregrinação.

O CORUJÃO, O VÔLEI E A CAPITAL DO CARNAVAL

Foi então que nosso viajante chegou ao Corujão.

Ali, no verão, rolavam partidas de voleibol que reuniam rapazes e meninas que, além de jogar, pareciam ter saído de uma seleção dos mais bonitos frequentadores da praia.

Era esporte, paquera, diversão e confraternização, tudo misturado num só programa.

O Corujão tinha aquela energia que só os verões de antigamente conseguiam produzir: a praia cheia, a juventude espalhada, as conversas atravessando a noite e a sensação de que o mundo inteiro tinha escolhido Piúma para passar as férias.

Enquanto isso, o Hotel do prefeito Walter Potratz fervilhava de movimento.

Piúma vivia uma fase importante de transformação. A cidade crescia, o turismo ganhava força e a antiga vila praiana consolidava sua vocação para receber gente de todos os cantos.

Era a Piúma que começava a se afirmar cada vez mais como a nossa querida Cidade das Conchas.

E, por trás desse nome tão bonito, havia também o talento de dona Carmen, esposa do senhor Darci e mãe de Raelzinho, reconhecida como uma das maiores artesãs da cidade.

Conchas que, nas mãos de dona Carmen, deixavam de ser simples lembranças trazidas pela maré para se transformar em arte, identidade e memória.

Mas, naquele momento, Berola não parecia muito preocupado com o desenvolvimento urbano, com o turismo ou com a economia local.

Sua preocupação era outra.

O picolé tinha acabado fazia tempo, mas seus efeitos — fossem eles quais fossem — continuavam produzindo resultados extraordinários.

A PONTE, O HOTEL WILK-ARA E O DESTINO FINAL

Ao chegar à ponte, Berola deparou-se com um dilema existencial digno dos maiores filósofos da humanidade.

Deveria aproveitar o palito do picolé Lorinho para improvisar um leme para a lanchinha de Noco?

Ou seria melhor deixar a embarcação navegar livremente pelo canal da Ponte de Itaputanga, entregue às forças da natureza e à engenhosidade de seu criador?

Eis uma questão que ainda hoje merece ser debatida numa mesa de bar.

Foi nesse cenário que avistou o Hotel Wilk-Ara.

Atrás de si ficava aquela Piúma movimentada, festeira, conhecida pela alegria dos seus carnavais e pela capacidade de transformar qualquer verão numa história para contar.

Mas Berola já não parecia pertencer inteiramente àquele mundo.

Alguma coisa o chamava.

Talvez fosse o Monte H. Talvez fosse o destino. Talvez fosse o último estágio daquela transformação iniciada na esquina da Praia Saliva, com um picolé de amendoim e uma caminhada que já tinha ultrapassado todos os limites conhecidos da normalidade.

O certo é que nosso herói resolveu abandonar o rumo convencional e entrar pela fenda do Monte H.

E foi aí que desapareceu.

Sem despedida. Sem explicação. Sem deixar endereço ou telefone para contato.

Berola sumiu por semanas!

O DESAPARECIMENTO DO LOBISOMEM

Durante semanas, ninguém soube ao certo o que tinha acontecido com Tengo.

Teria sido engolido pelo Monte H?

Teria encontrado uma passagem secreta para outra dimensão?

Estaria ainda sob os efeitos transcendentais daquele lendário picolé Lorinho?

Ou teria finalmente completado sua transformação em lobisomem, passando a viver entre o mundo dos homens e o universo misterioso das criaturas que habitam as noites de Piúma?

As hipóteses eram muitas. As certezas, nenhuma.

Até que, três semanas depois, aconteceu o inesperado.

Berola reapareceu!

E não voltou de qualquer jeito.

Foi resgatado por Alfredo, que se encontrava navegando com turistas em direção à Ilha dos Franceses.

Imaginem a cena: Alfredo, tranquilamente conduzindo sua embarcação, levando turistas para conhecer as belezas naturais da região, quando, de repente, se depara com um piumense desaparecido havia semanas, regressando de uma viagem cuja natureza nenhum relatório científico conseguiria explicar.

E assim, entre o espanto dos presentes, as dúvidas dos curiosos e a absoluta falta de provas que pudessem esclarecer o ocorrido, Tengo, o nosso Berola, retornou à civilização.

Estava de volta à Piúma.

À sua gente.

Às suas ruas.

À sua praia.

E, quem sabe, à procura de outro picolé Lorinho.

CONTOS VERÍDICOS QUE NINGUÉM ACREDITA

Hoje, quando alguém pergunta se Berola realmente foi lobisomem, a resposta depende de quem está contando a história.

Uns juram que sim.

Outros dizem que é conversa fiada.

Há quem atribua tudo ao lendário picolé de amendoim. Há quem prefira culpar o Monte H. E sempre aparece alguém disposto a acrescentar um detalhe novo, porque, em Piúma, um bom causo nunca termina quando o contador chega ao fim.

Afinal, quem viveu aqueles verões sabe que a nossa cidade sempre teve seus mistérios, suas figuras inesquecíveis, seus inventores de lanchinhas, seus personagens de reputação duvidosa e seus viajantes capazes de desaparecer sem deixar vestígios.

E é justamente isso que faz de Piúma um lugar tão especial.

Aqui, as histórias não morrem. Elas mudam de esquina, atravessam gerações, ganham novos personagens e acabam virando patrimônio da memória popular.

Porque Piúma não é apenas a cidade onde a gente viveu.

É a cidade onde a gente viveu coisas que, se contar para quem não é daqui, ninguém acredita.

Piúma — Cidade das Conchas.

Berola, o lobisomem.

Contos verídicos que ninguém acredita!

Santamarinha, Tadeu. Portugal.

 

Autor: Tadeu Santamarinha

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Fonte do Conteudo: Editor Matérias (site Luciana) – www.espiritosantonoticias.com.br

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