Crônica: Muitas casas guardam um grito | Jornal Espírito Santo Notícias

Que inferno. Não há um só dia de paz neste Espírito Santo. E a palavra “paz” parece cada vez mais um favor negado às mulheres. A cada 24 horas, mais de 50 delas são agredidas por quem, um dia, jurou amor — maridos, ex-companheiros, namorados. Os mesmos que prometeram proteção, respeito, cuidado. Os mesmos que se transformam em algozes.

As estatísticas são apenas a ponta gelada do iceberg. O resto está submerso em silêncio, medo e sangue.

Os dados da Secretaria de Segurança Pública só confirmam o que toda mulher já sabe: o perigo está dentro de casa. Tem nome, sobrenome, CPF. E carrega aquela velha frase podre: “se não for minha, não será de mais ninguém”. Juramento de posse travestido de romantismo. Uma sentença de morte disfarçada de amor doentio.

Os agressores são quase sempre os mesmos: fracos disfarçados de machos. Quando o álcool ou a droga arrancam a máscara, o que se revela é brutal — um homem pequeno, violento, covarde. Vêem traições onde há silêncio. Manipulam olhares. Distorcem palavras. Controlam a roupa, o passo, o fôlego. E batem. Batem muito.

Ontem foi Cristina, taxista em Piúma. O ex, viciado em crack, pulou o muro como uma fera descontrolada. Arremessou nela uma gaveta da geladeira. Ela caiu. A cabeça bateu na botija de gás. E ele chutou. Como quem chuta um saco de lixo. Há 33 anos convivendo com esse monstro, que até os filhos amedronta. Hoje, Cristina mal consegue andar. É o corpo pedindo socorro onde a alma já cansou de gritar.

Também ontem, no cais, encontrei outra mulher. Nas mãos, uma medida protetiva dobrada. Nos olhos, o medo de ser vista pela câmera que filmava a festa. Trazia nos ombros o peso de duas filhas estupradas pelo próprio marido, que ainda a persegue, ameaça, vigia. E eu pergunto: há mandado de prisão? Há justiça? Como é possível entregar um pedaço de papel e achar que isso basta para deter um monstro?

Enquanto isso, em Vila Velha, uma mulher de 55 anos foi feita refém pelo companheiro. Esfaqueada — mesmo diante da polícia. Libertada após longa negociação.

Há gritos abafados entre as paredes. Panelas no fogo e hematomas nos braços. Travesseiros molhados de medo. Medidas protetivas dentro de bolsas rasgadas. Em cada casa, uma mulher tentando sobreviver com dignidade enquanto um homem cava, dia após dia, sua cova emocional. Um cativeiro disfarçado de lar.

Ah, Cristinas, Marias, Izas, Íris… como dói não poder arrancar vocês das garras desses monstros.

Que inferno é esse onde o amor virou sentença? Onde o Estado não consegue, apesar das leis e das medidas mudar esta trágica realidade?

Sim, há números. Mas há, sobretudo, nomes, rostos, histórias.

E uma pergunta que não se cala:

Quando é que isso vai parar? Porque tudo isso acontece sob o disfarce da rotina.

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Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br

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