Era ainda madrugada quando saia do Edifício Flamboyant e começava os passos caminhando pela orla adormecida de Piúma. A brisa trazia um gosto de maresia e de lembranças, como se cada sopro fosse um chamado do passado. As catadoras de conchas ainda não estavam na areia… O sol nascia devagar, brotando do fundo do mar como um milagre antigo, pintando o horizonte em tons que jamais voltarão a ser os mesmos. Talvez um pescador e outro navegasse devagar pela Boca da Barra saindo da Praia Doce rumo ao imenso e desconhecido oceano.
As ondas, mansas e mornas, se desfaziam na areia como sussurros antigos, enquanto o vento acariciava o rosto com ternura. O som se dividia em dois: o cântico da maré e o sopro sereno do vento, um dueto que embalava a alma de quem caminhava em silêncio.
Entre o Quiosque Chá de Picão e o badalado Quiosque da Loira, era preciso desviar das crateras, como quem desvia dos próprios abismos da memória. Houve um tempo em que uma sereia guardava a entrada do velho quiosque, hoje, cedeu lugar a um novo calçadão com ciclovias e restingas que brotam devagar, carregando consigo a poesia de um lugar que não volta mais. Eu seguia com minha pequena máquina digital, frágil testemunha da grandiosidade do instante, capturando em pixels o nascimento de um novo dia. Tentava aprisionar em imagens o instante do nascer do sol, como se pudesse congelar o tempo em um clique.
Inebriava-me cada manhã, como tantas de quinze anos atrás, quando vinha da Capital Secreta do Mundo e encontrava, aqui, um pedaço de eternidade. Era o meu primeiro compromisso.
Agora, nestes tempos de mudanças e revitalizações, imagino o mar afastando-se devagar, deixando apenas um imenso lençol de areia suspensa no ar, tão fundo que talvez nem as pontas dos pés alcancem. As conchas — quem sabe — se perderão soterradas na vastidão que está por vir. E me pergunto: que memórias sobreviverão quando a própria paisagem se transformar?
Vejo, em minha imaginação, uma nova orla: não mais as castanheiras solitárias, mas fileiras de coqueiros erguendo-se altivos, guardando em seu ventre a água que saciará outra geração. Talvez não haja mais quiosques repletos de vozes, nem forró nem sanfona ecoando no entardecer. Os latões abarrotados de cocos serão apenas lembrança.
Restará, contudo, o essencial: a contemplação da imensidão azul, o sol em sua glória iluminando toda a superfície do mar, o sopro de eternidade que o horizonte sempre nos oferece. A nova geração viverá outro tempo, talvez sem o artesanato das conchas que batizou a cidade. Ainda assim, caberá a nós entregar esse futuro com dignidade, guardando na memória a beleza do que fomos.
O mar continuará infinito, sim. Mas dentro de nós, o que ecoará para sempre será a saudade.
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Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br