Crônica — O pão do sonho de Dona Neuza | Jornal Espírito Santo Notícias

Há pessoas que fazem do cotidiano um ofício de fé e há outras, como Dona Neuza, que transformam o sonho em pão quente e cheiro de vida logo ao amanhecer. Sempre com gratidão e serenidade.

No coração de Presidente Kennedy, bem ali em frente à rodoviária, existe uma padaria que não é só comércio. É ponto de encontro, é aconchego, é o retrato de uma mulher que ousou sonhar quando o destino lhe dizia “não”.

Filha de agricultores, o pai de Sergipe e mãe de Monte Belo, interior de Presidente Kennedy, criada entre o cheiro da terra molhada e o canto dos galos madrugueiros, Neuza aprendeu cedo o valor do trabalho. Mas, ao contrário dos irmãos que se encantavam com a lida da roça, ela sonhava com balcões, fregueses, vitrines e pão dourando no forno. Um sonho simples, mas proibido para as moças de seu tempo.

O pai, seu Manoel Vieira de Lima, achava que comércio era “coisa de homem”. E assim, Neuza foi guardando o sonho em silêncio, um sonho que fermentava no peito, como massa boa que cresce mesmo quando o fogo ainda não chegou.

Casou-se com Adalto Fricks Jordão, um pecuarista trabalhador, homem da terra, que também não acreditava na vocação da esposa para o comércio. Durante vinte anos, ela o acompanhou, ajudou, sustentou os dias difíceis, fazia roça, no plantio da mandioca, ajudava limpar pasto. Até que a vida, em sua pressa misteriosa, levou Adalto cedo demais — aos 44 anos.

Três anos depois da partida dele, Neuza decidiu que era hora de deixar o medo e o luto de lado. Comprou a padaria de Edinho, no centro da cidade. E ali começou uma nova história — a de uma mulher que se reinventou com fé, coragem e café quente.

Hoje, 31 anos se passaram, e Dona Neuza segue firme: todos os dias chega cedo, toma seu café, cumprimenta os fregueses e observa cada detalhe do negócio. São 12 empregos diretos gerados por suas mãos, e uma clientela fiel que a admira não apenas pelo pão que serve, pela doçura com que conduz a vida.

Ao seu lado, uma filha médica ajuda na administração. Os outros filhos preferem a roça, talvez herança do pai.  Dra Zuqleica quando está fora dos consultórios é o braço direito, aquela que entende que o segredo da mãe está mesmo em estar presente.

“Eu só estou aqui pelas mãos de Deus”, diz ela com a serenidade de quem aprendeu que o sucesso não é pressa, é persistência.

Na padaria, o tempo parece desacelerar. O cheiro do pão recém-saído do forno mistura-se às risadas dos fregueses, ao barulho do café sendo coado e às histórias que Erli, funcionária há 21 anos, adora contar. “Dona Neuza é uma mãe pra mim”, diz, com brilho nos olhos.

E talvez seja isso: o segredo de Dona Neuza é o amor. O amor que fermenta sonhos, que aquece corações e que faz da padaria muito mais do que um negócio, faz dela um lar aberto, onde cada cliente leva consigo um pedaço da coragem de uma mulher que um dia acreditou que podia.

Porque, no fundo, empreender é também um ato de fé e Dona Neuza, com seu avental e seu sorriso manso, é a própria tradução desse milagre cotidiano. ☕🥖💛

 

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Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br

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