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Cury ganha apoio evangélico e incomoda bolsonaristas

A candidatura de Augusto Cury começou a produzir um efeito que vai além das pesquisas eleitorais: entrou na disputa pelo significado do voto evangélico em 2026. Nas redes sociais, influenciadores, pastores e lideranças políticas passaram a defender o escritor como uma alternativa à polarização, associando seu nome a conceitos como propósito, serviço, virtude e ausência de interesse pessoal pelo poder. O movimento ganhou força justamente em um ambiente no qual setores do bolsonarismo tentam consolidar Flávio Bolsonaro como principal opção da direita para enfrentar Lula.

A movimentação foi identificada pela sétima edição do relatório “Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral”, produzido pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. O estudo analisou publicações realizadas entre 17 e 30 de agosto e monitorou 573 perfis no Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook. Foram identificados 19.429 resultados, que concentraram cerca de 135,4 milhões de interações no ecossistema evangélico durante o período.

Cury aparece como um dos principais fenômenos dessa movimentação. Uma das publicações de maior repercussão foi feita pelo influenciador Raphael Soares, em defesa do voto no escritor. O conteúdo alcançou 1.448.094 interações, colocando-o entre as publicações de maior engajamento do período. A narrativa utilizada pelos apoiadores se repetiu em outros perfis: Cury seria um homem bem-sucedido, que não dependeria da política para ganhar dinheiro ou alcançar prestígio e, por isso, poderia chegar ao poder movido por propósito e desejo de servir.

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A pastora Fabíola Melo também entrou nessa mobilização. Com mais de 3 milhões de seguidores, ela defendeu o voto em Cury ao responder a uma seguidora preocupada com a possibilidade de uma candidatura alternativa favorecer Lula. A religiosa afirmou que “muitos não sabem, mas ele é crente” e sustentou a ideia de que o eleitor deveria votar por convicção, e não por medo, especialmente no primeiro turno. O argumento ajuda a explicar uma das principais características do movimento: Cury é apresentado menos como uma ruptura ideológica e mais como uma alternativa cristã à polarização.

O apoio também encontrou espaço entre nomes da política e das redes sociais. Pablo Marçal passou a defender publicamente Cury e explorou a associação entre o sobrenome do escritor e a ideia de uma “cura do Brasil”. Segundo o relatório, Marçal destacou semelhanças entre os dois e argumentou que ambos seriam pessoas bem-sucedidas que não precisariam da máquina pública para obter ganhos financeiros. Também defendeu que o primeiro turno deveria ser o momento de votar em quem o eleitor realmente acredita, e não necessariamente concentrar o voto em um único candidato.

É justamente essa tese que começa a incomodar setores bolsonaristas. A reação apareceu nas redes com a tentativa de apresentar Cury como um candidato de esquerda ou até como um possível “cavalo de Troia” dentro do campo conservador. Entre os argumentos utilizados estão referências ao histórico partidário do Avante e declarações ou trechos de livros de Cury interpretados por seus críticos como demonstrações de simpatia por Lula. O pastor Wesley Ros, por exemplo, publicou uma crítica na condição de “ex-admirador e ex-leitor” do escritor e recuperou um trecho de “Dez Leis para Ser Feliz” em que Cury elogia o choro de Lula durante um discurso de 2013.

A afirmação, porém, precisa ser tratada com cautela. O monitoramento identifica a narrativa de que Cury seria ligado à esquerda ou poderia favorecer Lula, mas não apresenta evidência de que sua candidatura seja uma operação do PT ou do atual governo. A associação é parte da disputa política que se estabeleceu nas redes. Da mesma forma, a defesa de Cury por influenciadores cristãos não significa que exista uma adesão majoritária do eleitorado evangélico à sua candidatura.

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Os números disponíveis mostram, na verdade, um cenário mais complexo. Na pesquisa BTG/Nexus divulgada em 8 de setembro, Cury aparecia com 10% entre os eleitores evangélicos, enquanto Flávio Bolsonaro tinha 45% e Lula, 27%. O escritor ainda está, portanto, muito distante do candidato bolsonarista entre os cristãos. Seu crescimento, entretanto, ganha relevância porque acontece em um segmento eleitoral considerado estratégico e pode retirar votos de candidatos que dependem da concentração do eleitorado de direita.

Essa possibilidade ajuda a explicar a reação. Cury não precisa liderar entre evangélicos para interferir na eleição. Se conseguir consolidar uma parcela do eleitorado cristão que rejeita tanto Lula quanto a lógica de escolher necessariamente o candidato mais competitivo da direita, poderá contribuir para fragmentar um voto que o bolsonarismo tenta manter concentrado em Flávio Bolsonaro. É uma disputa não apenas por preferência eleitoral, mas pelo próprio conceito de “voto cristão”.

O relatório da Casa Galileia identifica justamente essa batalha mais ampla. Segundo os pesquisadores, a eleição de 2026 está se transformando em uma disputa sobre quem pode falar em nome do cristianismo e quais valores devem orientar a escolha do eleitor. No campo da direita, Cury aparece associado a propósito, virtude e serviço; no campo bolsonarista, seus críticos questionam sua posição política e sua estratégia de pacificação. Paralelamente, a esquerda evangélica também tenta ocupar esse espaço, apresentando democracia, justiça social, liberdade religiosa e proteção dos vulneráveis como valores cristãos.

O fenômeno revela, portanto, uma mudança importante na disputa pelo eleitor evangélico. Durante anos, a principal batalha política nesse segmento foi travada entre esquerda e direita. Agora surge uma terceira dimensão: a disputa entre voto útil e voto por convicção. Cury cresce justamente explorando esse espaço. E, ao fazer isso, acaba provocando um problema para o bolsonarismo: quanto mais o escritor conseguir transformar seu discurso religioso e antipolarização em votos efetivos, maior será a dificuldade de manter o eleitorado cristão unido em torno de uma única candidatura.

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Por enquanto, porém, é cedo para falar em migração do voto evangélico. O próprio relatório ressalta que ainda não é possível saber como a movimentação observada nas redes se transformará em comportamento eleitoral. O que já pode ser constatado é que Augusto Cury deixou de ser apenas um candidato que cresce nas pesquisas e passou a ser um personagem da disputa interna pelo eleitorado cristão. E é justamente essa capacidade de dividir um território que o bolsonarismo considera estratégico que colocou seu nome no radar da direita.

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Fonte do Conteudo: Cristiano Stefenoni – esbrasil.com.br

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