Poucas cidades do mundo possuem uma relação tão íntima entre paisagem e mercado imobiliário quanto o Rio de Janeiro. Em uma cidade onde montanhas, mar, florestas, monumentos históricos e cartões-postais convivem em um mesmo horizonte, a vista sempre foi um diferencial. Agora, porém, ela se tornou algo mais: um ativo econômico capaz de influenciar diretamente o valor de um imóvel.
Estudos internacionais citados pelo setor imobiliário apontam que imóveis com vistas privilegiadas podem alcançar valorizações entre 20% e 25% em relação a unidades semelhantes sem os mesmos atributos visuais. Em outras palavras, uma boa janela pode valer quase tanto quanto alguns metros quadrados adicionais.
A lógica é facilmente compreendida pelos cariocas. Há décadas, apartamentos voltados para o mar de Copacabana, Ipanema e Leblon, para a Lagoa Rodrigo de Freitas, para o Cristo Redentor ou para o Pão de Açúcar figuram entre os mais desejados da cidade. Em muitos edifícios da Zona Sul, unidades com a mesma metragem chegam a apresentar diferenças milionárias de preço simplesmente pela posição da varanda ou pela amplitude da paisagem.
Mais recentemente, esse conceito passou a ser incorporado de forma explícita pelos novos empreendimentos de alto padrão. Incorporadoras têm apostado cada vez mais em projetos que valorizam a conexão visual com a natureza, a iluminação natural, a sensação de amplitude e o contato permanente com a paisagem. É uma tendência alinhada ao chamado “wellness real estate”, conceito internacional que associa qualidade de vida ao ambiente construído.
No Rio, entretanto, essa valorização não está mais restrita apenas à natureza.
Uma transformação silenciosa começa a ocorrer no Centro da cidade.
O Centro descobre o valor de suas janelas
Durante décadas, os andares mais altos dos edifícios do Centro foram ocupados quase exclusivamente por escritórios. Com a redução da demanda corporativa e o avanço dos programas de retrofit, esses espaços passaram a ser convertidos em residências, revelando algo que ficou escondido por gerações: algumas das vistas mais impressionantes do Rio de Janeiro.
Se a Zona Sul sempre vendeu mar, montanhas e lagoa, o Centro passou a oferecer uma combinação rara de paisagem natural, patrimônio histórico e monumentos urbanos.
O fenômeno pode ser observado em diversos empreendimentos lançados recentemente.
O Connect, da Patrimar, próximo à Praça Mário Lago, aposta na vista aberta para o tradicional Buraco do Lume, uma das áreas mais conhecidas do Centro e que passa por intensa transformação residencial. De longe, se vê até a belíssima Igreja da Venerável Ordem de São Francisco da Penitência, no Morro de Santo Antônio.
Já o Sete Full Week Studios, da Calçada, empreendimento que está sendo desenvolvido no antigo Shopping Vertical, na esquina da Rua Sete de Setembro com a Rua da Quitanda, oferece aos futuros moradores uma perspectiva privilegiada sobre a Praça XV, a Baía de Guanabara e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, antiga catedral da cidade e palco de episódios fundamentais da história brasileira. O sucesso do projeto chamou atenção do mercado: todas as unidades foram comercializadas no lançamento, coroando o sucesso de vendas.
Outro exemplo é o histórico Edifício A Noite, na Praça Mauá, da Azo Inc. O primeiro arranha-céu da América Latina, agora em processo de conversão residencial, oferece uma das mais impressionantes vistas da região portuária, da Baía de Guanabara e do Porto Maravilha. Foi vendido em horas, para uma grande investidora em residenciais short stay.
Na Rua do Passeio, o antigo prédio da Mesbla foi rebatizado como Edifício Ora, da Inti. Além da localização estratégica, um dos destaques do projeto é justamente o panorama oferecido por seus andares superiores e rooftop, voltados para o Passeio Público, o Aterro do Flamengo, a Marina da Glória e a Baía de Guanabara. Vendido em minutos, por valores surpreendentes, ainda ganhou a cena com seu nome inspirado, arquitetura Art Déco Premiada e sem anglicismos macarrônicos à moda da Barra da Tijuca.
A valorização da paisagem também apareceu no Gate by Yoo, da RJZ Cyrela, na Avenida Beira-Mar. O empreendimento tem como um de seus principais atrativos a vista para o Aterro do Flamengo, o Aeroporto Santos Dumont, a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar. Não por acaso, as unidades foram vendidas em ritmo acelerado logo após o lançamento.
Patrimônio histórico também passou a valer
O que diferencia o novo momento do Centro é que a paisagem valorizada não é composta apenas por elementos naturais.
Pela primeira vez em décadas, igrejas, praças, palácios, jardins históricos e edifícios monumentais passaram a ser percebidos como ativos imobiliários.
Um apartamento pode não ter vista para o mar, mas pode abrir suas janelas para o Theatro Municipal, para a Biblioteca Nacional, para o Mosteiro de São Bento, para o Paço Imperial, Arco do Teles, Praça Mauá ou para a Praça XV.
Em muitas cidades do mundo, vistas para monumentos históricos são consideradas atributos de luxo há décadas. Paris, Londres, Roma e Viena construíram parte de sua valorização imobiliária em torno dessa lógica. O Rio de Janeiro começa agora a explorar de forma mais intensa esse potencial.
A valorização da paisagem já influencia até terrenos que ainda aguardam novos projetos. Um exemplo é a área da Rua Treze de Maio onde existia o edifício que desabou em 2012, na Cinelândia. O terreno, cuja comercialização está a cargo da Sérgio Castro Imóveis, vem despertando interesse de incorporadoras por reunir uma característica cada vez mais rara no mercado carioca: a possibilidade de construir um empreendimento com vista privilegiada para o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional e a Praça Floriano, um dos conjuntos urbanos mais emblemáticos do país. Outro terreno – e este é enorme – ainda sem destino confirmado é o da Santa Casa da Misericórdia, na Presidente Antõnio Carlos, na esquina da rua Santa Luzia, com vista belíssima para o Hospital Geral e para o antigo Ministério da Fazenda e a Esplanada do Castelo.
Uma vantagem que poucas cidades possuem
O Rio sempre foi uma cidade onde localização vale dinheiro. Agora, a paisagem passou a integrar essa equação de forma ainda mais evidente.
A diferença é que o conceito de vista premium está se ampliando.
Se antes ele estava quase exclusivamente associado ao mar, à praia e às montanhas da Zona Sul, hoje também inclui praças históricas, jardins centenários, igrejas coloniais, edifícios icônicos e a própria paisagem da Baía de Guanabara.
Poucas cidades conseguem oferecer em um mesmo horizonte o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, o mar, montanhas, jardins históricos, igrejas do período colonial e monumentos ligados à história de uma nação.
Para o mercado imobiliário, isso deixou de ser apenas uma característica da cidade. Tornou-se um ativo econômico.
E, cada vez mais, um dos mais valiosos.
Fonte do Conteudo: Bruna Castro – diariodorio.com