Dia do Orgasmo: quando o prazer se torna deus

O dia 31 de julho é popularmente lembrado como o Dia Mundial do Orgasmo. Em uma sociedade que transformou a intimidade em conteúdo, o corpo em mercadoria e o sexo em produto de consumo, a data funciona como um retrato do nosso tempo: nunca se falou tanto sobre prazer e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil experimentar intimidade verdadeira.

O problema não está no orgasmo em si. A Bíblia não apresenta o prazer sexual como algo sujo, vergonhoso ou incompatível com a santidade. A sexualidade humana foi criada por Deus e declarada boa antes da entrada do pecado no mundo (Gênesis 1:27-31). O homem e a mulher foram feitos para se unirem e se tornarem uma só carne, podendo estar nus sem sentirem vergonha (Gênesis 2:24-25).

O prazer, portanto, não nasceu no pecado. O pecado é que desordenou o prazer.

O prazer não é pecado

Há uma caricatura segundo a qual o cristianismo considera pecaminoso tudo aquilo que proporciona prazer. Essa ideia não corresponde às Escrituras. A Bíblia celebra a comida, o descanso, a amizade, o casamento, a beleza da criação e também a intimidade sexual vivida dentro da aliança conjugal.

Provérbios recomenda ao homem que se alegre com a esposa de sua juventude e encontre satisfação em seu amor (Provérbios 5:18-19). O livro de Cântico dos Cânticos descreve, com poesia e intensidade, a atração física, o desejo, os beijos, a admiração pelo corpo e a alegria experimentada entre o amado e a amada (Cântico dos Cânticos 1:2; 4:1-16; 7:6-13).

A Bíblia não precisa ser purificada do erotismo que o próprio Deus decidiu colocar nela.

Isso significa que o orgasmo, experimentado no contexto da fidelidade, do amor, da segurança e da entrega conjugal, pode ser recebido como uma das boas dádivas do Criador. O casamento deve ser honrado e o leito conjugal preservado em pureza (Hebreus 13:4).

A pergunta bíblica, portanto, não é somente: “Isso me proporciona prazer?”. A pergunta é: “Em que contexto, com qual significado e sob o governo de quem esse prazer está sendo experimentado?”.

Quando a dádiva vira deus

O pecado não consiste apenas em rejeitar as coisas criadas por Deus. Também pecamos quando transformamos essas coisas em deuses.

A humanidade caída troca a verdade de Deus pela mentira e passa a adorar e servir às coisas criadas em lugar do Criador (Romanos 1:25). Isso pode acontecer com o dinheiro, o trabalho, o poder, a comida, a política e também com o sexo.

O orgasmo é uma dádiva, mas é um péssimo senhor.

Na sociedade governada pelo prazer, o desejo passa a ser tratado como uma ordem: se sinto, preciso satisfazer; se gosto, tenho direito; se me proporciona prazer, ninguém pode estabelecer limites. A liberdade deixa de significar domínio próprio e passa a significar submissão aos próprios impulsos.

O apóstolo Paulo apresenta outro entendimento de liberdade: nem tudo o que podemos fazer nos convém, e não devemos permitir que coisa alguma nos domine (1 Coríntios 6:12). A pessoa que precisa satisfazer todos os seus desejos não é livre. É escrava deles.

O prazer sexual dura alguns segundos. Quando transformado em razão de viver, porém, exige estímulos cada vez mais intensos, novidades constantes e gratificação imediata. É nesse terreno que prosperam a pornografia, o adultério, a promiscuidade, a prostituição, a exploração sexual e as relações descartáveis.

A cultura chama isso de libertação. A Bíblia pergunta: quem está sendo dominado por quem?

Dia do Orgasmo: quando o prazer se torna deus

Pessoas não são objetos

A banalização do sexo modifica a forma como enxergamos o próximo. A outra pessoa deixa de ser alguém criado à imagem e semelhança de Deus e passa a ser avaliada conforme sua capacidade de despertar ou satisfazer desejos.

Na pornografia, o corpo humano é transformado em imagem de consumo. Na promiscuidade, pessoas podem ser reduzidas a experiências. No adultério, a satisfação momentânea é colocada acima da aliança, da família e da fidelidade. Na violência sexual, o desejo do agressor atropela completamente a dignidade e a vontade da vítima.

Essas práticas possuem gravidades e consequências diferentes, mas revelam uma mesma desordem: o prazer ocupa o centro e o próximo é transformado em instrumento.

O pecado sexual começa quando o prazer importa mais do que a pessoa.

Na visão bíblica, a união sexual não é consumo, mas comunhão. Não representa somente o encontro de dois corpos, mas expressa a realidade da “uma só carne” estabelecida por Deus no casamento (Gênesis 2:24; Mateus 19:4-6). O corpo do cônjuge não é mercadoria, brinquedo ou objeto. É o corpo de alguém que deve ser amado, respeitado e honrado.

Entrega nunca é coerção

Ao orientar os casais, Paulo ensina que marido e mulher devem cuidar mutuamente das necessidades conjugais um do outro (1 Coríntios 7:3-5). A reciprocidade desse texto é extraordinária: o marido não aparece como consumidor privilegiado, nem a esposa como alguém que existe para satisfazê-lo. Ambos são chamados à entrega.

Essa passagem jamais pode ser utilizada para justificar coerção, chantagem, violência ou qualquer forma de abuso dentro do casamento. O sexo bíblico é marcado por mutualidade, consideração e amor sacrificial, não por imposição. O marido é chamado a amar a esposa como Cristo amou a Igreja e entregou-se por ela (Efésios 5:25-29).

O prazer do outro importa. Mas nem mesmo o orgasmo deve ser transformado em obrigação ou instrumento de cobrança. Dificuldades emocionais, traumas, limitações físicas, enfermidades e efeitos de medicamentos podem afetar a vida sexual. O casamento não pode se transformar em uma competição por desempenho.

A intimidade cristã não pergunta apenas: “O que posso receber?”. Ela também pergunta: “Como posso amar, cuidar e servir?”.

Dia do Orgasmo: quando o prazer se torna deus

Sexo não completa ninguém

A idolatria sexual também aparece na ideia de que ninguém pode ser plenamente feliz sem uma vida sexual ativa. Filmes, propagandas, músicas e redes sociais repetem que o sexo é indispensável para a realização humana. Quem não o pratica seria reprimido, frustrado ou incompleto.

O Evangelho desmente essa afirmação.

Jesus Cristo viveu a humanidade perfeita sem manter relações sexuais. Nele vemos que sexo não é requisito para dignidade, maturidade ou plenitude. Pessoas solteiras, viúvas, divorciadas ou que, por diferentes razões, vivem em abstinência não são seres humanos pela metade.

O casamento é uma dádiva, mas não é o destino final da humanidade. Na ressurreição, não haverá casamento como o conhecemos agora (Mateus 22:30). Nossa esperança definitiva não está na satisfação sexual, mas na comunhão eterna com Deus.

O orgasmo pode proporcionar satisfação ao corpo. Somente Cristo, porém, pode reconciliar o pecador com Deus e oferecer descanso à alma (Romanos 5:1; Mateus 11:28-29).

O corpo também pertence a Cristo

O Evangelho não oferece apenas uma lista de proibições sexuais. Ele anuncia redenção para pessoas inteiras — incluindo seus corpos, desejos, memórias, culpas e feridas.

Paulo lembra aos cristãos que o corpo é santuário do Espírito Santo, que já não pertencemos a nós mesmos e que fomos comprados por alto preço. Por isso, somos chamados a glorificar a Deus também com o nosso corpo (1 Coríntios 6:19-20).

Essa mensagem alcança quem se tornou escravo da pornografia, quem traiu, quem transformou pessoas em objetos, quem carrega vergonha por seu passado e também quem teve o corpo violado por outra pessoa. Em Cristo há perdão para o pecador, libertação para o cativo, acolhimento para o ferido e possibilidade de uma vida nova (1 Coríntios 6:9-11; 2 Coríntios 5:17).

No Dia do Orgasmo, nossa sociedade celebra alguns segundos de prazer como símbolo máximo de liberdade. A Bíblia apresenta uma visão mais bela: o prazer não precisa ser demonizado, mas deve ser colocado em seu devido lugar.

Recebido com gratidão, amor, fidelidade, mutualidade e santidade, o prazer sexual é dádiva. Transformado em identidade, direito absoluto ou razão de viver, torna-se ídolo.

O prazer não é Deus. E somente quando Deus ocupa novamente o centro de nossa vida podemos desfrutar de suas dádivas sem sermos escravizados por elas.

Fonte do Conteudo: Gustavo Gouvêa – eshoje.com.br

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