“Faça inglês.”
“Faça esporte.”
“Faça reforço.”
“Estude mais.”
“Tire boas notas.”
“Você já está grande para isso.”
“Pare de chorar.”
Talvez, isoladamente, nenhuma dessas frases pareça um problema. Afinal, queremos preparar nossos filhos para a vida, oferecer oportunidades e ajudá-los a crescer.
Mas será que, na tentativa de prepará-los para o futuro, não estamos apressando demais a infância?
Vivemos uma vida cada vez mais acelerada. Temos horários para tudo, compromissos, metas, cobranças, mensagens para responder, trabalho para entregar e a sensação constante de que estamos atrasados para alguma coisa. E, sem perceber, levamos essa mesma velocidade para a vida das nossas crianças.
Recentemente, tive contato com o artigo científico Hurried Child Syndrome: A Narrative Review, publicado no Indian Journal of Child Health. Os autores discutem justamente o que chamam de “Síndrome da Criança Apressada”, expressão utilizada para descrever situações em que os adultos esperam da criança um desempenho ou comportamento acima de sua capacidade mental, social ou emocional para aquela fase do desenvolvimento.
É importante deixar claro que não estamos falando de um diagnóstico clínico formal. O artigo é uma revisão narrativa e utiliza esse conceito para chamar atenção para um fenômeno que merece nossa reflexão: crianças sendo pressionadas a crescer, produzir e amadurecer rápido demais.
E talvez seja justamente aí que nós, pais, educadores e sociedade, precisemos olhar para a nossa própria pressa.
Atividade física é importante? Claro que é.
Aprender outro idioma pode ser maravilhoso.
Ter responsabilidades também é fundamental.
Estimular uma criança faz parte do seu desenvolvimento.
Mas até aquilo que é bom precisa de equilíbrio.
Uma criança não precisa ter todos os horários do dia preenchidos para estar se desenvolvendo.
Ela também precisa de tempo para não fazer nada.
Precisa brincar sem alguém dizendo como.
Precisa inventar.
Precisa correr.
Precisa conversar.
Precisa ficar entediada.
Precisa descobrir o que fazer quando não existe uma tela, uma aula ou um adulto conduzindo aquele momento.
Precisamos lembrar que, quando uma criança diz que está brincando, ela não está “fazendo nada”.
Brincar é coisa séria.
É durante a brincadeira que muitas habilidades importantes são exercitadas: interação, criatividade, negociação, resolução de problemas, comunicação e manejo das próprias emoções. A brincadeira também oferece experiências importantes para o desenvolvimento socioemocional.
Por isso, infância precisa ser vivida.
Tenho a impressão de que estamos vendo crianças amadurecerem cada vez mais cedo e, ao mesmo tempo, apresentarem dificuldades para lidar com frustrações, emoções e pressões que talvez nem devessem fazer parte de suas vidas com tanta intensidade.
O próprio artigo chama atenção para as consequências do estresse quando as exigências ultrapassam aquilo que a criança consegue suportar. Entre as manifestações discutidas pelos autores estão preocupação, dificuldades relacionadas ao sono, irritabilidade, dores de cabeça e de estômago, dificuldades de atenção e esgotamento escolar.
Por isso, diante de uma criança constantemente cansada, irritada, ansiosa ou dizendo que não quer mais fazer determinada atividade, talvez a primeira resposta não precise ser:
“Você tem que ir.”
Talvez possamos perguntar:
“O que está acontecendo com você?”
“Como você está se sentindo?”
“Será que está pesado demais?”
Conversar também é cuidar.
E talvez seja necessário olhar para a agenda dos nossos filhos com a mesma atenção com que olhamos para a nossa.
Existe espaço para brincar?
Existe tempo livre?
Existe convivência em família?
Existe espaço para simplesmente ficar em casa?
Existe tédio?
Ou cada minuto precisa ser preenchido por alguma coisa “produtiva”?
E existe ainda uma reflexão que considero mais difícil: qual exemplo estamos oferecendo?
Não podemos criar uma casa acelerada, viver correndo, estar sempre no celular, trabalhar o tempo inteiro, transformar todos os momentos em produtividade e esperar que nossos filhos aprendam sozinhos a desacelerar.
Eles também aprendem observando.
Se queremos ensinar presença, precisamos exercitar presença.
Se queremos que aprendam a descansar, precisam nos ver respeitando o descanso.
Se queremos que entendam que a vida não é apenas produzir, precisamos mostrar isso na prática.
Talvez possamos começar com coisas muito simples: uma tarde sem programação, brinquedos disponíveis, jogos de tabuleiro, materiais para criar, um passeio ao ar livre, uma refeição sem celular, uma conversa sem pressa ou simplesmente um tempo em família em que ninguém precise chegar a lugar algum.
Não precisamos deixar de preparar nossos filhos para o futuro.
Precisamos apenas tomar cuidado para que, enquanto os preparamos para aquilo que ainda virá, eles não percam aquilo que só podem viver agora.
Porque existe tempo para aprender.
Tempo para assumir responsabilidades.
Tempo para amadurecer.
E existe um tempo que não volta: o tempo de ser criança.
Talvez nossos filhos não precisem de mais uma atividade na agenda.
Talvez precisem um pouco mais de nós, um pouco menos de pressa e da liberdade de viver a própria infância.
E talvez essa reflexão também sirva para nós, adultos.
Antes de pedirmos que nossos filhos desacelerem, precisamos olhar para a velocidade em que estamos vivendo.
Como eu sempre digo: mentes saudáveis criam um mundo melhor.
Referência científica: Agrawal, A., Sharma, S. & Shrivastava, J. (2022). Hurried child syndrome: A narrative review. Indian Journal of Child Health, 9(7)
Fonte do Conteudo: Maria Tereza Samora – eshoje.com.br