Atualmente, são entre 80 e 120 máquinas de karaokê na Feira de São Cristóvão. Estima-se que 30% de todo o público que frequenta o local destinado às tradições nordestinas seja composto por cantoras e cantores amadores – que, às vezes, são profissionais. Entre pessoas de variados gostos, gêneros, idades, visões de mundo e outras tantas diferenças, músicas e uma ”magia” única equalizam tudo em harmonia, diversão e histórias cantadas e contadas.
Falando em tradições nordestinas, o primeiro karaokê da Feira de São Cristóvão foi aberto em 2005. Mas a história vem de mais longe: ”Antes do Bazar da Cantoria, já existia aqui a cultura dos cantadores, da seresta, do repente”, pontua Pedro Porto, gestor da Feira.
O Bazar da Cantoria, que atualmente se chama Canto do Morango, gravava CDs para quem cantava no karaokê da casa. A prática continua hoje em dia, mas um pouco diferente. ”Agora, a gente grava em MP3 e coloca para tocar no bar, fazendo uma surpresa pros clientes. Sempre que alguém canta bem ou tem alguma história legal na apresentação, eu coloco para gravar e solto depois”, explica Bruno Vasconcelos, DJ do estabelecimento desde o início das atividades.
Bruno, além de gravar e anunciar os clientes que cantam, também dá uma palinha no Canto do Morango
Márcio, o atual proprietário do Canto do Morango, reforça a relevância do local: ”Eu assumi o espaço tem um ano e pouco, mas sei que aqui tem uma história muito forte com a Feira”.
Tradição familiar
Maria Lúcia é filha da Baixinha, a dona do Coquetel das Meninas, o segundo karaokê mais antigo da Feira de São Cristóvão.

Maria Lúcia trabalhando no Coquetel das Meninas
”Minha mãe tem uma vida inteira de luta e trabalho aqui dentro. Por conta da idade dela, do cansaço, eu estou aqui tem um ano trabalhando seguindo o que ela construiu”, disse.
Baixinha, a mãe de Maria Lúcia, tem 25 anos de Feira de São Cristóvão. Ela começou vendendo drinks ainda do lado de fora, tradição que mantém em seu karaokê.
‘A Loba’ venceu ‘Evidências’ em frente à Mula
Pablo, qual é a música (mais cantada)? Segundo o pessoal do Mula Ruge, Alcione calou Chitãozinho e Xororó. ”Esse papo de que ‘Evidências’ é o segundo hino do Brasil não vale mais. Há uns dois anos que a mais cantada aqui é ‘A Loba”’, disse Maíra, professora de inglês e companheira de Jardel Agra, um dos donos do Mula. Inclusive, ela brinca que distribui cartões de teacher para os cantantes que ficam inseguros na hora de soltar a voz em outro idioma.
Antes de abrir o Mula Ruge, os irmãos Jardel e Gil Agra tinham o karaokê Nativos, que fechou durante a pandemia. Quando a Covid-19 passou, eles chegaram a reabrir o espaço, mas não deu muito certo. Então, partiram para um negócio que já existia antes mesmo de existir.
”Eu sempre quis ter um bar com essa ideia de cabaré francês e uma vez, tomando uma cerveja, eu falei pras pessoas que estavam comigo que eu já tinha um bar assim. Aí, depois de contar essa história, eu tive que abrir mesmo”, lembrou Jardel.
Os irmãos Jardel e Gil abriram, em 2022, o karaokê com a estética de cabaré francês, no entanto, com uma cara brasileira, nordestina. Inclusive, se posicionando politicamente. Durante as últimas eleições, eles mudaram o nome do local para Lula Ruge.
”É uma mistura da França com o Nordeste brasileiro. Começamos menores, mas com o tempo fomos crescendo, pegamos a loja da frente, junto com a ajuda da Maíra e da Michele nas redes sociais, decoração do bar, fomos fidelizando os clientes, temos quadros, brincadeiras que fazemos no nosso Instagram e que fazem muito sucesso”, frisou Gil.




No Mula, a diversão é garantida, inclusive, para quem trabalha. ”Tem hora que a gente fica cantando e até esquece que é trabalho”, brinca Michele Morandin, companheira de Gil.
‘Rata de karaokê’
Falando em se divertir no trabalho, é muito comum alguém apaixonado por cantar em karaokês abrir um. Luiza Santana, do Duettos Bar, é um caso desses. Depois de tirar notas altas em todos os estabelecimentos para cantores amadores da Ilha do Governador, ela decidiu ter um para chamar de seu.
”Minha área de trabalho é produção de eventos. Na pandemia, eu fiquei pensando em o que eu faria da minha vida. Quando a pandemia começou a diminuir, eu vim aqui na Feira visitar uma amiga que trabalhava aqui e ela me falou dos karaokês. Eu não conhecia. Só conhecia a Feira porque vinha almoçar. Quando fui nos karaokês, eu que sempre fui rata da karaokê, não quis mais sair, me apaixonei”, recorda Luiza.
O trabalho como produtora de eventos e os conhecimentos de luz e áudio ajudaram Luiza na montagem do espaço. Outro ponto que ela teve atenção foi na renovação do público, juntando os mais antigos que já frequentavam os karaokês da Feira aos jovens que passaram a vir em peso nos últimos anos.
Luiza realça a importância que um karaokê pode ter na vida de uma pessoa: ”Eu tenho clientes que eram tímidos, tinham dificuldade de falar em público, e hoje têm confiança para dar palestras porque começaram a cantar em público se divertindo”.
Histórias nota 100
São muitas as histórias contadas e cantadas em um karaokê. Entre os proprietários da Feira de São Cristóvão não poderia ser diferente. Contudo, uma delas passa por todos os microfones.
Um senhor, conhecido como Antônio, passa de bar em bar, de mesa em mesa, cantando uma ou duas músicas por vez em vários karaokês da Feira. O detalhe é que ele está sempre levando seu livro com os números das músicas embaixo do braço.
”Esse semhor tira nota 100 direto. Muita gente que aparece aqui canta bem. Tem um que parece o Tim Maia. Galera se amarra nele”, realça Maurício, outro dos veteranos do ramo dos karaokês na Feira de São Cristóvão.
Certa vez, no Mula Ruge, uma mulher levou um totem de papelão do noivo para a despedida de solteira dela. No mesmo local, quando alguém colocou ”Careless Whisper”, de George Michael, para cantar, surgiu uma pessoa aleatoriamente tocando saxofone exatamente na clássica introdução da música, que é tocada no sax. ”É a magia do karaokê”, garante Maíra.
Ambiente de paz
Os donos karaokês da Feira de São Cristóvão garantem que as únicas discussões que acontecem por lá são para saber quem escolheu a música. E, mesmo assim, se entendem rapidamente, às vezes até cantando juntos. ”Não tem confusão, todo mundo se respeita”, reforça Rose, do karaokê Bora Lá, aberto há 13 anos.
Cantora e compositora, Claudete Alves, conhecida como ”Diva da Feira”, do karaokê Cabaré Brega da Diva, observa que, ”não fossem os karaokês e os músicos, a Feira de São Cristóvão estaria na UTI”. ”A gente ajuda muito a trazer esse público que vem para curtir, que se diverte e não causa problema”, completa ela.
Até mesmo quando a nota não é das melhores, o público fica tranquilo. Aliás, ninguém sabe como funciona ao certo o critério das avaliações dos karaokês. Há quem diga que é mesmo pela qualidade musical do cantor ou da cantora, pela altura da voz, por sorteio ou vontade da máquina.
”Os sistemas, as placas, mais antigas iam pelo talento. Tinha que cantar bem para tirar 100. Agora, não sei explicar bem como funciona”, revela Maurício.
Maurício elucida, também, que, quando os clientes pedem música nova, os proprietários conseguem baixá-las e atualizar o sistema da máquina de karaokê.
Problemas do passado e olhar para o futuro
Além da pandemia do Coronavírus, os proprietários de karaokês apontam outras dificuldades para seus negócios. Entre elas estão os chamadores – trabalhadores que ficam na entrada da Feira de São Cristóvão convidando clientes para outros estabelecimentos – e locais que não respeitam as regras de altura de som e ocupação de espaços, como aconteceu recentemente em um bar que tocava funk sem seguir os critérios determinados pelas diretrizes da Feira.
”Nada conta a cultura do funk. É só que todos temos que respeitar esses limites para todo mundo trabalhar numa boa”, afirmou Michele Morandin, do Mula Ruge.
Entretanto, essas situações estão sendo contornadas e os planos para o futuro dos karaokês da Feira de São Cristóvão envolvem o desejo de mais profissionalismo e respeito.
”Eu gostaria que os karaokês da Feira fossem vistos como atividade cultural. Se isso acontecer, a gente vai ser mais valorizado e com isso vai vir incentivo, respeito, muitas outras coisas”, finalizou Michele.
Fonte do Conteudo: Felipe Lucena – diariodorio.com
