
Quem caminha hoje pelas ruas do Centro do Rio — entre igrejas centenárias, becos que guardam procissões antigas e fachadas que testemunharam séculos de devoção — talvez não imagine que boa parte da vida carioca já foi organizada, sustentada e até governada por uma força silenciosa e profundamente enraizada: as irmandades católicas, associações públicas de fiéis leigos.
Muito antes de qualquer estrutura estatal moderna, foram elas que deram forma concreta ao cotidiano da cidade. As irmandades não eram apenas associações religiosas. Eram, ao mesmo tempo, redes de solidariedade, instituições de assistência social, promotoras de cultura e guardiãs da fé — tudo isso conduzido, em grande medida, por leigos, homens comuns que encontravam na Igreja não apenas um caminho espiritual, mas também um papel ativo na construção da sociedade.
Estudo desenvolvido pela pesquisadora Geysa Pereira de Magalhães, da PUC-Rio, ajuda a lançar luz sobre esse universo muitas vezes esquecido. Ao investigar a atuação pastoral das irmandades nos séculos XIX e XX, a autora mostra que essas organizações foram decisivas para a formação da identidade católica e urbana do Rio de Janeiro, especialmente no Centro da cidade. São instiuições multicentenárias como as Irmandades da Candelária, da Santa Casa da Misericórdia, da Lapa dos Mercadores ou Santa Cruz dos Militares, entre mais de 60 outras.
Na prática, as irmandades, com suas vestes coloridas conhecidas como opas, eram o coração pulsante da vida religiosa — e também social. Promoviam festas, organizavam procissões, garantiam enterros dignos, financiavam missas e obras pias, mantinham hospitais e escolas. Em um tempo em que o Estado era ausente em muitas frentes, eram elas que asseguravam o mínimo de amparo à população, especialmente aos mais pobres. Receberam imensas doações e legados de importantes comerciantes e industriais, fazendeiros e nobres, para cumprir suas obrigações e manter vivas as devoções em torno das quais foram reunidas.
E tudo isso se dava em uma cidade profundamente marcada pela fé. As festas religiosas, muitas delas organizadas por irmandades, eram eventos de grande destaque social, capazes de mobilizar bairros inteiros e transformar ruas em verdadeiros cenários de celebração — uma tradição que, em muitos aspectos, ainda resiste no calendário carioca. A História escreve sobre o constante murmúrio, por exemplo, ao se visitar a rua do Ouvidor junto à travessa do Arco do Teles: eram os comerciantes da região rezando o terço para Nossa Senhora da Lapa.
Mas talvez o aspecto mais fascinante dessas instituições seja a sua complexidade social. Ao mesmo tempo em que refletiam as hierarquias do seu tempo, as irmandades também funcionavam como espaços de encontro entre diferentes grupos — incluindo libertos, escravizados e trabalhadores de ofício, que encontravam ali não apenas devoção, mas pertencimento. Em certos casos, como aponta a pesquisa, há indícios até de menor rigidez racial em algumas confrarias, o que desafia leituras simplistas sobre a sociedade da época.
Com o avanço do século XIX, porém, esse modelo começaria a ser tensionado. A Igreja, influenciada por um movimento de maior centralização — a chamada romanização — passou a tentar reduzir a autonomia das irmandades, transferindo poder para o clero. Ficou célebre a Questão Religiosa, quando o bispo Dom Vital se insurgiu contra a presença de maçons nas irmandades, o que gerou sua prisão. Ao mesmo tempo, mudanças políticas profundas, como o fim do regime imperial e a separação entre Igreja e Estado, alteraram drasticamente o papel dessas instituições.
O resultado foi um progressivo esvaziamento, que veio junto também da mudança urbanística no entorno das principais irmandades, o Centro Histórico do Rio perdendo moradores, por exemplo . Muitas irmandades perderam funções, outras desapareceram, e aquelas que resistiram tiveram que se adaptar a uma nova realidade, já distante daquele protagonismo quase absoluto que exerceram em séculos anteriores. Mas ainda assim mantêm hospitais, cemitérios, educandários, asilos, orfanatos, obras sociais e o culto a seus oragos, até hoje.
Por tudo isso, é um erro imaginar que tenham desaparecido. Elas permanecem — mais discretas, muitas vezes silenciosas, mas vivas. Estão nas igrejas do Centro, nos altares laterais, nos livros de registro, nas procissões que ainda cruzam ruas históricas e, sobretudo, na memória profunda da cidade, inclusive sendo controladoras de relevantes portfólios imobiliários, como a Santa Casa, que, saindo agora de uma crise sem precedentes, ainda teria mais de mil imóveis.
Porque compreender o Centro do Rio sem as irmandades é perder a chave de leitura de sua própria formação. Foram elas que ajudaram a construir não apenas templos, mas laços sociais; não apenas festas, mas identidades; não apenas devoções, mas uma forma de viver a cidade.
Em tempos em que tanto se fala em revitalização do Centro, talvez valha a pena olhar para trás — não por nostalgia, mas por compreensão. Afinal, houve um tempo em que o coração do Rio batia no ritmo das irmandades. E, de certa forma, ele ainda bate.
Fonte do Conteudo: Bruna Castro – diariodorio.com
