O Palácio Monroe marcou a paisagem do centro do Rio de Janeiro durante grande parte do século XX. Lembrado pela imponência arquitetônica e pelo peso institucional, o edifício também reunia um entorno ajardinado que hoje costuma ficar em segundo plano, embora fizesse parte da experiência urbana do conjunto. Os cariocas mais velhos se lembram com saudosismo e os mais novos nem sequer ouviram falar. O que existe hoje no final da Avenida Rio Branco, entre a Cinelândia e a Baía de Guanabara, são apenas um estacionamento subterrâneo e uma praça pouco frequentada. Não se vê nenhum vestígio do imponente Monroe, o palácio que abrigou o Senado entre 1925 e 1960.
O palácio foi originalmente construído para ser o Pavilhão do Brasil na Exposição Universal de Saint Louis, em 1904. Por vencer o prêmio de melhor arquitetura da feira, foi desmontado, trazido de navio para o Brasil e remontado em 1906. A montagem em solo norte-americano expressava a ambição modernizante da jovem República brasileira. Depois, desmontado, o edifício foi reconstruído no Rio, em área estratégica da cidade, na então Avenida Central, mais tarde conectada à Avenida Beira-Mar e à Cinelândia.
É nesse contexto que se insere o “Projecto de jardim mixto na área onde está edificado o Palácio Monroe”, que ajuda a revisitar o entorno do prédio. Com traçado inspirado no paisagismo urbano do início do século XX, o jardim funcionava como transição entre a monumentalidade da arquitetura e o ritmo acelerado do centro.
Os caminhos sinuosos, os canteiros desenhados com cuidado, os gramados e a arborização ofereciam uma pausa na densidade da área central. O jardim suavizava a rigidez da pedra e da vida cotidiana, criando um espaço de respiro e convivência.

A decadência do Palácio
O Monroe, depois de deixado de lado devido à transferência da capital para Brasília, passou a funcionar como uma espécie de filial do Senado no Rio. Parte dos servidores públicos permaneceram no Palácio, sobretudo os que já estavam perto da aposentadoria, e os próprios senadores ainda realizavam reuniões no local. Mais tarde, três andares foram cedidos ao Estado-Maior das Forças Armadas.
Nos anos 70, com o esvaziamento e a degradação do prédio, ganhou força a tese de que o Monroe deveria ser demolido. Entre os argumentos estavam o alívio do trânsito no centro, a abertura de uma área verde em meio ao concreto e a necessidade de reduzir gastos públicos, já que Brasília estava consolidada e o Senado manter uma repartição cara no Rio já não faria sentido.
Outra justificativa foi a de que o prédio impediria a construção da linha do metrô entre o centro e a Zona Sul. Para evitar a demolição, o trajeto dos trilhos acabou sendo desviado, com uma curva antecipada que originalmente passaria pelos subterrâneos do Monroe.
A disputa também foi estética. O Iphan recebeu uma proposta de tombamento de todos os prédios públicos da Cinelândia, mas o arquiteto e urbanista Lúcio Costa se posicionou contra a proteção do Monroe. Para ele, tratava-se de um edifício sem valor arquitetônico, apenas uma “presença estorvante” na paisagem urbana.
Lúcio Costa defendia que a arquitetura brasileira se limitava ao período colonial, como o de Ouro Preto, e ao moderno, como Brasília. Tudo o que ficasse entre esses dois marcos, a exemplo do ecletismo, seria mera imitação de estilos estrangeiros.
O Rio se dividiu. Alguns se posicionaram contra, outros se posicionaram a favor. O regime militar e modernistas justificaram a destruição como “modernização”, enquanto historiadores e defensores do patrimônio a classificaram como um ato de violência simbólica. Os defensores da preservação argumentavam que, mesmo sem representar uma arquitetura genuinamente nacional, o palácio tinha valor histórico incontestável. Sob a ditadura militar, porém, não houve grandes manifestações públicas.
No fim, o Iphan rejeitou o tombamento e acolheu os argumentos de Lúcio Costa. Em 1975, o Senado devolveu o edifício ao governo federal. Tribunais, repartições públicas e entidades de engenheiros ainda se ofereceram para reformar e ocupar o palácio, mas nada adiantou. Por ordem do presidente Ernesto Geisel, o prédio premiado em Saint Louis, em 1904, foi ao chão. A demolição se arrastou por meses até que, em junho de 1976, um trator derrubou a última parede.
A notícia repercutiu em Brasília, especialmente entre os senadores da oposição. Itamar Franco (MDB-MG) disse ter assistido, na época, “com tristeza à destruição daquele prédio, em que várias figuras desta nação militaram”. Segundo Benjamin Farah (MDB-RJ), “infelizmente, no país, tudo o que é tradicional é destruído”.
Quando o Palácio Monroe foi demolido, em 1976, a cidade perdeu não apenas um edifício emblemático, mas também uma área que articulava urbanidade, paisagem e sociabilidade.
Fonte do Conteudo: Mateus Aguiar – diariodorio.com