Moço, agrediu a pessoa errada pensando que era a jornalista | Jornal Espírito Santo Notícias

Na ânsia de querer ter razão o tempo todo, no afã de estar certo mesmo quando errado, na pressa da correria insana do dia a dia, quantos de nós não atiramos pedras ao relento tentando acertar quem não merece aquela pedrada?

Acaso, moço, conhece os direitos de uma pessoa com deficiência? Tem ideia, cidadão, dos direitos de um motorista monocular? Sabe, pelo menos, o que significa aquele adesivo no vidro dianteiro de um carro informando que o condutor enxerga apenas com um dos olhos?

Esse simples aviso, que deveria chamar à atenção para o respeito, passou despercebido. O que atraiu mesmo os olhos curiosos foi o “REPORTAGEM” no vidro da frente e o “IMPRENSA” colados na traseira do HB20.

Mas afinal, de quem é o carro estacionado ali na Avenida Maria Gonçalves Marvila, bem no coração de Piúma, quase em frente à Clínica Espraiar? O documento não deixa dúvidas: é de Ana Cláudia Siqueira da Silva, professora, mulher de coragem, que luta diariamente contra as marcas deixadas por uma paralisia facial parcial e faz tratamento de fisioterapia na clínica.

Naquela segunda-feira, 29, Ana viveu uma cena de injustiça. Ao entrar no carro e sinalizar para sair da vaga, não percebeu a motocicleta parada ao lado. Bastou a distração, e por muito pouco não ocorreu um acidente. Foi o suficiente para que um homem, tomado pela fúria e pela ignorância, a agredisse com palavras. Talvez tivesse confundido Ana com a jornalista Luciana, companheira dela, que naquele mesmo dia estava em Brasília, na 5ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres – Mais Democracia, Igualdade, Conquistas para Todas.

Luciana Maximo e Catarina dos Santos em Brasília

Acontece que Ana não é jornalista. É professora. É mulher. É monocular. E estava em pleno direito de dirigir seu veículo.

Pouco sabe o tal cidadão que a Lei 14.126/2021 reconhece a visão monocular como deficiência sensorial, do tipo visual, garantindo à pessoa monocular todos os direitos assegurados às pessoas com deficiência (PCD). Isso inclui o direito a concorrer em vagas reservadas em concursos públicos, a ter isenção de impostos na compra de veículos (IPI, ICMS e IPVA, conforme cada estado), a prioridade em determinados atendimentos, além do direito de portar o adesivo informativo em seu automóvel.

Além disso, o Código de Trânsito Brasileiro e o Contran regulamentam que pessoas com visão monocular, desde que avaliadas e habilitadas pelos exames médicos obrigatórios, têm plena condição legal de dirigir. Ou seja: dirigir é um direito garantido, protegido por lei, e deve ser respeitado.

Mas o moço não quis ver o adesivo. Não quis enxergar a diferença. Não quis respeitar. Preferiu atirar pedras verbais, ferir com palavras, acreditar que o carro estava sendo guiado pela jornalista que tantas vezes questiona e cobra poderosos.

Pobre homem, estúpido. Mal sabe ele o peso das palavras, o dever da imprensa e, sobretudo, o valor de respeitar a dignidade humana.

Fica aqui o registro: antes de agredir alguém, observe a cena inteira. Leia o que está escrito no vidro, perceba quem está ao volante. Pode não ser a pessoa que você pensa. E mesmo que fosse, xingar, hostilizar, atacar é sempre a atitude covarde de quem desconhece não apenas os direitos, mas também a humanidade do outro.

 

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Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br

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