Morte de Diogo: técnica de enfermagem contesta versão da Gol e relata dificuldades durante atendimento

São muitas as interrogações em torno da morte precoce do adolescente Diogo Pompermayer Marchiori, de 13 anos, morador de Piúma, que passou mal durante um voo que partiu do Aeroporto de Vitória com destino a Guarulhos, em São Paulo, na manhã de quinta-feira (5).

A reportagem do Espírito Santo Notícias conversou com o padrinho de Diogo, o empresário Leandro Mezadre, de 38 anos. Ele contou que o estudante do 8º ano fazia tratamento para um problema cardíaco desde a infância e viajava com os pais, Luana Pompermayer e Ramon Marchiori, para uma consulta no Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista, onde realizava acompanhamento médico.

Segundo Leandro, a consulta prevista para aquela quinta-feira seria importante para avaliar os próximos passos do tratamento, incluindo a possibilidade de um procedimento e, caso necessário, de um implante.

Diogo embarcou no voo G3 1389, da Gol, acompanhado dos pais. A família, residente no bairro Acaiaca, em Piúma, seguia para São Paulo para dar continuidade ao tratamento do adolescente.

De acordo com o relato do padrinho, cerca de 30 minutos antes do pouso, Diogo acordou e reclamou de uma forte dor no peito. Em seguida, revirou os olhos e desmaiou. A mãe pediu ajuda à tripulação, e duas técnicas de enfermagem que estavam entre os passageiros passaram a prestar os primeiros socorros.

O que deveria ser um atendimento de emergência com recursos adequados teria se transformado em uma sucessão de dificuldades. Segundo os relatos recebidos pela reportagem, as máscaras de oxigênio disponibilizadas na aeronave não funcionaram, o cilindro de oxigênio apresentava problemas no fluxômetro e, após o pouso, ainda houve demora para a disponibilização da escada e para a chegada da ambulância.

Conforme as informações relatadas à reportagem, a família teria aguardado aproximadamente 20 minutos para conseguir desembarcar. Já a ambulância teria levado cerca de 30 minutos para chegar à aeronave e seria de suporte básico, sem os recursos considerados necessários para a gravidade da emergência.

Diogo não resistiu.

Técnica de enfermagem relata dificuldades no atendimento

Em entrevista exclusiva ao Espírito Santo Notícias, a técnica de enfermagem Thakyla Hendyl, uma das profissionais que prestaram socorro ao adolescente, relatou dificuldades para utilizar os equipamentos de oxigênio disponíveis na aeronave e afirmou que a tripulação não sabia como proceder diante da emergência.

Segundo ela, as máscaras foram retiradas e abertas, mas não funcionaram. O cilindro de oxigênio também apresentava problemas.

“ Tinha um cilindro de O2, porém ele não tinha fluxômetro (regulador para a saída desse oxigênio). Ele estava liberando um fluxo extremamente baixo. O que não funcionou foram as máscaras de alto fluxo (elas têm uma bolsa pendurada que precisa inflar de ar para o paciente respirar). Eles abriram máscaras novas, mas elas não funcionaram, ou porque a pressão do oxigênio era muito fraca, ou porque foram compradas e colocadas lá sem teste. Não sei”, relatou.

A técnica também apontou a ausência de uma conexão adequada para utilizar o cilindro de oxigênio junto ao dispositivo de ventilação manual, conhecido como Ambu.

“Também não tinha um látex, uma borracha que a gente usa para conectar o Ambu diretamente no cilindro de oxigênio. A gente precisa mandar oxigênio para o paciente porque ele não consegue respirar sozinho. Nós fizemos a primeira tentativa com a máscara. Como o coração dele parou, a gente teve que usar o Ambu, e não tinha essa conexão do Ambu com o oxigênio. Então, ele ficou sem oxigênio nesse momento. A gente fez a RCP, ventilamos com o ar do ambiente mesmo. A companhia não conseguiu ofertar o oxigênio. Foi impossível usar o Ambu com o oxigênio como deveria ser”, afirmou.

“Não sabiam o que fazer”, relata socorrista

Thakyla também contestou informações divulgadas pela companhia aérea a outros veículos de imprensa, segundo as quais a tripulação teria prestado assistência e seguido os protocolos de atendimento.

A técnica reconheceu que os comissários foram solícitos, mas afirmou que, durante o atendimento, não teriam participado diretamente das manobras de primeiros socorros.

“Eles foram extremamente solícitos, mas não sabiam o que fazer com relação aos primeiros socorros. Não tocaram no paciente, não fizeram massagem. Só teve um comissário que ficou sustentando a cabeça, porque a gente pediu, na posição de liberação das vias aéreas. Só isso”, declarou.

O relato levanta questionamentos sobre o preparo da tripulação para situações de emergência médica, a disponibilidade e o funcionamento dos equipamentos de oxigênio a bordo e os procedimentos adotados durante o atendimento.

Despedida

O corpo de Diogo chegou ao Espírito Santo na manhã desta sexta-feira (6). O adolescente está sendo velado na quadra da Comunidade de Serra das Graças, no interior de Anchieta.

As exéquias serão realizadas na manhã de sábado (7), seguidas do sepultamento, previsto para as 10h, no cemitério da própria comunidade.

Versão da Gol

A reportagem do Espírito Santo Notícias encaminhou questionamentos à Gol Linhas Aéreas sobre as condições dos equipamentos de oxigênio, a atuação da tripulação e os procedimentos adotados durante a emergência. Até o fechamento desta matéria, a companhia não havia respondido ao e-mail enviado pelo jornal.

Em informações divulgadas ao G1, a Gol afirmou que a tripulação solicitou prioridade para o pouso e que a aeronave aterrissou no Aeroporto Internacional de Guarulhos às 7h16, 19 minutos antes do horário inicialmente previsto.

Segundo a companhia, o adolescente foi encaminhado de ambulância a um hospital da região, acompanhado pelos pais, mas morreu ao chegar à unidade de saúde.

Em nota, a empresa informou que os tripulantes realizaram os primeiros socorros com o apoio de uma profissional de saúde que estava entre os passageiros. Afirmou ainda que os protocolos previstos para esse tipo de situação foram seguidos e que ofereceu suporte e assistência à família.

A Gol lamentou a morte do adolescente.

Posicionamento do Aeroporto de Guarulhos

O Aeroporto Internacional de Guarulhos também foi procurado pelo Espírito Santo Notícias para esclarecer a demora na disponibilização da escada para o desembarque, o tempo de resposta da equipe de emergência e as condições da ambulância encaminhada à aeronave.

Segundo informações divulgadas pelo G1, a administração do terminal afirmou que atendeu à solicitação de prioridade de pouso feita pela companhia aérea e mobilizou uma equipe de emergência na pista.

O aeroporto informou ainda que os primeiros socorros foram prestados e que o adolescente foi encaminhado ao hospital mais próximo.

Os questionamentos sobre o tempo de chegada da ambulância, a classificação do veículo utilizado e os recursos disponíveis para o atendimento permanecem no centro da apuração.

A morte de Diogo deixa uma família enlutada e uma série de perguntas que precisam ser respondidas. O funcionamento dos equipamentos de emergência, o preparo da tripulação e o tempo de resposta do atendimento aeroportuário são pontos que exigem esclarecimentos.

Afinal, em uma situação em que cada minuto pode fazer diferença, é fundamental saber se todos os recursos disponíveis funcionaram como deveriam.

Texto: Luciana Maximo

Fonte do Conteudo: Redação – espiritosantonoticias.com.br

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