Poucos cariocas sabem, mas durante cerca de duzentos anos o Centro do Rio de Janeiro sediou uma das mais grandiosas festas populares de sua história. Organizada pela Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores e seus benfeitores, a tradicional Festa de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores — também conhecida como Festa do Comércio — transformava anualmente a Rua do Ouvidor, o Arco do Teles e a Travessa do Comércio em um grande palco de fé, cultura e confraternização.
Segundo registros históricos preservados pela própria Irmandade, a celebração ocorreu de forma ininterrupta entre 1757 e 1957. Durante duzentos anos, comerciantes, famílias, autoridades e visitantes lotavam as ruas do antigo coração econômico da cidade para homenagear aquela que é considerada a padroeira dos comerciantes do Rio de Janeiro.
A devoção permanece viva até hoje. O dia 8 de setembro, data litúrgica de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, continua oficialmente reconhecido pela Câmara Municipal e pela Prefeitura do Rio como o Dia da Padroeira dos Comerciantes da Cidade do Rio de Janeiro.
As festividades tinham início justamente em 8 de setembro, com uma Missa Soleníssima celebrada na Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na Rua do Ouvidor, 35. O templo era tomado por flores, iluminações e ornamentações especiais. A celebração contava com coral e grande orquestra, refletindo a importância da Irmandade e da comunidade mercantil que a sustentava.
Ao final da Missa, era cantado um solene Te Deum de ação de graças. A partir daí, a festa tomava as ruas. A Missa Solene ainda ocorre e no ano passado foi presidida pelo Cardeal Arcebispo Dom Orani João Tempesta, marcada pela entrega à igreja de uma nova imagem da padroeira dos mercadores, réplica da que desapareceu nos anos 90, pela Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores.
Fotografias históricas recentemente restauradas mostram uma paisagem hoje quase inimaginável. A Rua do Ouvidor e o Arco do Teles eram completamente decorados com arcos festivos, bandeiras, flores, guirlandas e símbolos ligados ao comércio e à devoção mariana. O conjunto transformava a região numa espécie de cidade cenográfica dedicada à padroeira dos comerciantes.
Uma das estruturas mais curiosas era o famoso coreto suspenso da Travessa do Comércio. Como a via é estreita demais para receber um coreto convencional sem interromper a circulação, os organizadores criaram uma solução engenhosa: a estrutura provisôria era elevada sobre pilares, permitindo que o público passasse por baixo enquanto apresentações aconteciam acima.
As imagens mostram que o coreto ocupava exatamente o trecho onde hoje se encontram estabelecimentos comerciais do Arco do Teles, tornando-se o principal palco da programação festiva. Fica bem em frente a onde hoje funciona o Bar de Rock Hops e a agência de atendimento da concessionária Águas do Rio.
Durante cerca de uma semana, músicos, bandas, orquestras e artistas se apresentavam no local. Havia concertos, apresentações culturais, declamações, atividades recreativas e encontros sociais que atraíam visitantes de diversas partes da cidade.
Ao redor do coreto espalhavam-se barracas de comidas, bebidas e lembranças. Como nas tradicionais quermesses católicas, era possível encontrar guloseimas, pratos populares, artigos religiosos e souvenirs relacionados ao Rio de Janeiro. A diferença é que, naquele caso, a festa era organizada e financiada diretamente pela comunidade comercial do Centro.

A celebração refletia a estreita relação entre religião e comércio que marcou a formação da cidade. Afinal, a própria Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores nasceu da união de comerciantes portugueses estabelecidos no Rio de Janeiro colonial.
Por isso, a festa não era apenas um evento religioso. Era também uma demonstração de prestígio do comércio carioca, que fazia questão de ornamentar as ruas, financiar atrações e oferecer uma celebração à altura da importância econômica que a região possuía.
Os relatos históricos mencionam ainda grandes iluminações noturnas e concorridas queimas de fogos de artifício, que encerravam os festejos e atraíam multidões ao Centro da cidade.
O desaparecimento da Festa do Comércio, após sua última edição em 1957, acompanhou as profundas transformações urbanas e econômicas vividas pelo Centro do Rio ao longo da segunda metade do século XX. Com o passar das décadas, a memória da celebração acabou praticamente apagada.
As fotografias agora recuperadas ajudam a reconstruir um capítulo pouco conhecido da história carioca. Elas revelam um Centro vibrante, onde fé, cultura, lazer e atividade econômica conviviam de forma natural.
Mais do que uma curiosidade histórica, a antiga Festa de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores mostra que o Rio já teve uma tradição capaz de unir comerciantes, moradores e visitantes em torno de um patrimônio comum. Em tempos de redescoberta do Centro Histórico, sua lembrança levanta uma pergunta inevitável: haveria espaço para que essa tradição voltasse a fazer parte da vida da cidade?
Fonte do Conteudo: Bruna Castro – diariodorio.com
