Durante boa parte da primeira metade do século XX, passar pelo Largo de São Francisco de Paula sem olhar para as vitrines do Parc Royal era quase desperdiçar uma das grandes experiências comerciais do Rio de Janeiro. A loja havia deixado de ser apenas um estabelecimento onde se compravam roupas, tecidos ou objetos domésticos para se transformar num verdadeiro palco da vida urbana, no qual as novidades que chegavam da Europa eram expostas diante de uma cidade que começava a aprender a consumir com os olhos antes mesmo de consumir com a carteira.
O Parc Royal existia desde 1873, mas foi sob a administração de José Vasco Ramalho Ortigão, filho do escritor português Ramalho Ortigão, que alcançou sua fase mais exuberante. Em 1911, instalou-se numa monumental sede ao lado da Igreja de São Francisco de Paula, ocupando praticamente o quarteirão da antiga Travessa de São Francisco, depois chamada Rua Ramalho Ortigão, enquanto uma filial aberta anteriormente na Avenida Central ajudava a consolidar o nome da casa entre os grandes magazines do Rio. O negócio chegou a manter escritório próprio em Paris, de onde compradores selecionavam mercadorias para serem remetidas ao Brasil.
A loja reunia dezenas de seções e oferecia praticamente tudo o que um carioca elegante poderia desejar. Senhoras encontravam vestidos de baile, roupas de banho, bolsas, luvas, sombrinhas, leques e artigos importados; homens procuravam ternos claros, gravatas de seda, roupas brancas, ceroulas francesas e até casacos próprios para automóvel; crianças tinham cada vez mais espaço num universo comercial que começava a tratá-las como público consumidor. Havia ainda tecidos, calçados, peças para casa, alfaiataria e artigos sazonais que transformavam cada festa do calendário numa nova oportunidade de espetáculo comercial.
No Carnaval, por exemplo, o Parc Royal anunciava pierrôs em cetim de seda pura, modelos franceses para homens e mulheres, fantasias infantis, quimonos japoneses de crepom, lança-perfumes e novidades recém-chegadas da Europa. Era o tipo de loja onde o carioca podia entrar sem precisar comprar imediatamente, simplesmente para ver aquilo que havia desembarcado no último navio, o célebre “dernier bateau”, expressão que se incorporou ao vocabulário de uma cidade fascinada pela moda e pela novidade.

As vitrines ajudavam a construir esse desejo. Elaboradas com mármore, vidro, estuque e manequins cuidadosamente montados, transformavam o passeio pelo Largo de São Francisco numa espécie de desfile imóvel. Uma senhora poderia reduzir o passo diante de um vestido e imaginar aquele modelo num baile do Teatro Municipal; uma mãe podia olhar roupas infantis enquanto o filho se distraía com algum artigo exposto; um rapaz podia comparar ternos e gravatas antes de decidir se entraria. Não se trata de imaginar personagens específicos, mas de reconstruir uma experiência de consumo amplamente documentada pelas fotografias e anúncios da época.
O Parc Royal também ajudou a popularizar uma inovação comercial que hoje parece banal: o preço fixo. Numa cidade em que muitos negócios ainda conviviam com barganha e preços variáveis conforme circunstâncias e fregueses, o magazine anunciava que a mercadoria custava aquilo que estava marcado. A casa explorava essa característica na publicidade e chegou a usar a fórmula “preços fixos sem competência”, transformando previsibilidade e confiança em argumento de venda.
A publicidade era parte essencial dessa estratégia. O magazine acompanhava o calendário da cidade, aproveitava acontecimentos públicos, visitas ilustres e comemorações nacionais para lançar campanhas e mantinha uma presença intensa nos jornais. A visita do rei Alberto da Bélgica, em 1920, e as celebrações do Centenário da Independência, em 1922, foram incorporadas a esse universo comercial. O Parc Royal vendia mercadorias, mas também vendia a sensação de que o Rio fazia parte de um mundo moderno, elegante e cosmopolita.
A importância da loja ultrapassou o comércio. Seu nome entrou em crônicas, romances e memórias, aparecendo em autores como Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade e Rubem Fonseca, sinal de que o magazine já fazia parte do imaginário da cidade. Augusto Malta fotografou vitrines, interiores e clientes, deixando registros de uma época em que fazer compras no Centro era também participar da vida pública carioca.
Foi por isso que a noite de 9 de julho de 1943 teve um impacto muito maior do que o desaparecimento de um simples estabelecimento comercial.
O incêndio começou por volta das 20h, segundo documentos policiais posteriores, embora algumas reportagens contemporâneas situem o início entre 20h30 e 21h. O Parc Royal ocupava uma construção repleta de tecidos, madeira, papéis, móveis e mercadorias, combinação que permitiu que o fogo ganhasse rapidamente uma intensidade extraordinária. Em pouco tempo, as chamas já tomavam o edifício e iluminavam o Largo de São Francisco de Paula.
A fumaça ocupou o espaço entre o magazine e a Igreja de São Francisco de Paula, enquanto o calor aumentava de tal forma que vitrais oitocentistas do templo vizinho chegaram a se partir. A proximidade entre igreja e loja, tão característica da paisagem do Largo, transformou-se naquela noite num problema dramático, com os bombeiros tentando impedir que o incêndio avançasse para outros edifícios do conjunto urbano.
Também foram atingidas a Casa Cruz, a Casa Mattos e a Padaria e Confeitaria do Anjo, esta última tragicamente incorporada à história do incêndio. A destruição deixou de estar confinada ao grande magazine e ameaçou, por algumas horas, um trecho inteiro do comércio tradicional do Centro.
Uma grande multidão tomou as imediações. Policiais tentavam conter os curiosos, enquanto bombeiros entravam no prédio ou trabalhavam do lado de fora, sob calor intenso, fumaça e risco permanente de desabamento. A importância do Parc Royal fez com que o incêndio deixasse rapidamente de ser um fato local e passasse a ser acompanhado por toda a cidade.
O rádio colocou ainda mais cariocas dentro daquela noite. Ari Barroso, já consagrado como compositor de Aquarela do Brasil, participou com Raul Brunini de uma transmissão direta dos acontecimentos pela Rádio Tupi. Enquanto milhares de pessoas se apertavam no Largo para ver as chamas, outras tantas acompanhavam de casa, ouvindo pelo rádio a descrição da destruição de um dos endereços comerciais mais conhecidos do Rio.
Entre os homens que enfrentavam o fogo estava o comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Aristarcho Pessoa. Anos depois, uma publicação da própria corporação recordaria que ele acompanhou a tragédia profundamente comovido e chegou a chorar diante da extensão da destruição. A emoção não vinha apenas da perda do edifício, mas também do risco a que seus homens estavam submetidos.
O soldado nº 414, Celestino Zacarias da Silva, morreu combatendo o incêndio. Quando seu corpo foi retirado, um soldado da Polícia Militar aproximou-se transtornado e revelou que o bombeiro morto era seu irmão. Celestino foi posteriormente levado para a capela do Quartel Central do Corpo de Bombeiros, onde ficou em câmara ardente e recebeu a visita de grande número de populares antes do sepultamento no Cemitério de São Francisco Xavier.
Outros bombeiros ficaram feridos, entre eles o cabo Antônio Ferreira da Silva, os soldados Nilo Tambaiole e Felisberto Barcelos, além de outro cabo cujo nome não foi identificado pelos jornais no primeiro momento. O incêndio do Parc Royal, portanto, não entrou para a memória carioca apenas pela destruição material, mas também pelo custo humano imposto aos homens que tentaram salvar o edifício e impedir que o fogo se espalhasse pelo Largo.
Na vizinha Confeitaria do Anjo, a tragédia atingiu outra vida profundamente ligada àquele pedaço da cidade. Joaquim de Frias, mestre-padeiro português de 65 anos, desapareceu sob os escombros depois que parte das estruturas atingidas desabou sobre o estabelecimento. Durante dias, sua família aguardou informações enquanto os jornais o listavam entre os desaparecidos e um rabecão da Assistência Policial permanecia de prontidão nas imediações à espera da retirada de corpos.
Quando Joaquim foi encontrado, o Diário de Notícias revelou que trabalhava havia 35 anos na Confeitaria do Anjo. Sua viúva, Adelina Pulquéria de Frias, contou ao jornal que havia sido justamente naquele estabelecimento que conhecera o marido. Joaquim morreu soterrado no lugar onde passara mais de três décadas trabalhando e onde começara sua própria história familiar, deixando a mulher e duas filhas, Amélia e Aurora. Seu enterro, no Cemitério do Caju, foi pago pelo proprietário da confeitaria.
O combate ao incêndio prosseguiu por horas, mas a destruição continuou nos dias seguintes. Focos de fumaça ainda saíam do amontoado de madeira carbonizada, obrigando os bombeiros a manter trabalho de rescaldo. Na segunda-feira seguinte, operários já demoliam as duas únicas alas que haviam permanecido de pé, enquanto grande parte do Largo de São Francisco, da Rua Ramalho Ortigão e de trecho da Rua Sete de Setembro continuava interditada.
Mesmo depois do fogo, a multidão não desapareceu. Os jornais registraram uma grande massa popular tentando aproximar-se do cordão de isolamento para observar os escombros. O local que durante décadas atraíra cariocas pela elegância das vitrines passou a atraí-los pela dimensão da destruição, agora marcado por paredes queimadas, vigas partidas, bombeiros, policiais, trabalhadores encarregados da demolição e veículos da assistência esperando por novas descobertas entre as ruínas.
A tragédia consumiu ainda um patrimônio pouco conhecido de quem frequentava o magazine. No segundo andar funcionavam a Sociedade Nacional de Agricultura e a Sociedade Brasileira de Química, que perderam arquivos e bibliotecas. Entre os livros destruídos estava um exemplar de Elementos de Química, de José Coelho Seabra da Silva Telles, publicado em 1788. O incêndio, portanto, queimou não apenas roupas, tecidos e artigos comerciais, mas também documentação científica e bibliográfica que nunca seria recuperada.
Enquanto o rescaldo prosseguia, outra história começava a surgir entre os escombros. Desde a própria noite do incêndio, circulavam rumores de que o fogo poderia não ter sido acidental. A suspeita aparecia entre populares, policiais e até bombeiros, e a investigação logo alcançou os então proprietários da casa, José Leite Cerqueira e José Ferreira Barcelos.
Barcelos chegou a ser autuado em flagrante sob suspeita de participação na origem criminosa do incêndio. A discussão prolongou-se por anos e acabou produzindo depoimentos e laudos que mantiveram a hipótese de incêndio proposital no centro do processo.
Um depoimento transcrito posteriormente nos autos tornou-se particularmente grave. A testemunha Frederico Mendes afirmou ter entrado no Parc Royal durante o incêndio e encontrado José Ferreira Barcelos Filho agachado diante de papéis, aos quais estaria ateando fogo. Questionado, segundo a versão apresentada pela testemunha, teria explicado que queimava correspondência particular. A acusação integrou a investigação e deve ser entendida como depoimento constante do processo, e não como prova definitiva de autoria.
A controvérsia também envolveu o valor dos seguros. O Parc Royal possuía grande quantidade de mercadorias, mas os jornais registraram cobertura de aproximadamente 2,5 milhões de cruzeiros, distribuída entre diferentes seguradoras, levantando questionamentos sobre a relação entre estoque e valores segurados. Cofres retirados do edifício seriam encaminhados para abertura sob acompanhamento policial, à medida que o incêndio deixava de ser apenas uma tragédia urbana e passava também a ser tratado como caso criminal.
As investigações continuaram produzindo repercussões em 1948 e 1949, com novas discussões sobre depoimentos, laudos e responsabilidades, mostrando que o desaparecimento do Parc Royal não terminou no momento em que o fogo foi apagado. O edifício se fora em poucas horas, mas a tentativa de determinar quem ou o que havia iniciado as chamas atravessou anos.
Para quem conhecera o magazine em seus tempos de maior esplendor, porém, a dimensão mais visível da perda era muito mais simples. O Parc Royal não reabriu.
As fotografias feitas poucos dias depois mostram a demolição das partes sobreviventes do edifício. A comparação com os registros de Augusto Malta dos tempos de vitrines cheias e fachadas elegantes é brutal. Onde antes havia manequins, vestidos, ternos, brinquedos, fantasias e artigos recém-chegados de Paris, apareciam paredes abertas, madeira queimada e operários removendo aquilo que restara.
O terreno pertencia à Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula e, depois da catástrofe, acabou sendo adquirido pela Prefeitura durante a administração de Henrique Dodsworth, tornando-se parte do espaço público reorganizado naquela região. O lugar onde durante décadas funcionara um dos principais magazines do país passou a integrar a própria circulação do Largo.
É essa transformação que permite compreender a perda sem precisar atribuir sentimentos específicos a pessoas que os jornais não identificaram. Durante anos, uma senhora podia atravessar o Largo de São Francisco, encontrar na vitrine um vestido de baile que desejava, seguir adiante e saber que, mesmo que aquele modelo desaparecesse, outra novidade ocuparia seu lugar alguns dias depois. Uma criança podia esperar pelo brinquedo seguinte, um homem pelo novo terno, uma família pelo catálogo que anunciaria outra coleção e a cidade pelo próximo dernier bateau.
Depois do incêndio, o carioca que voltou ao Largo encontrou primeiro fumaça, depois ruínas e, finalmente, a ausência física do estabelecimento. Não havia tapumes anunciando reformas nem promessa de reinauguração que restituísse ao lugar a função que desempenhara por décadas. A mesma Igreja de São Francisco de Paula continuava ali, testemunhando o espaço onde o magazine estivera, enquanto o Parc Royal passava do cotidiano comercial para a memória da cidade.
Ao desaparecer, a loja levou consigo mais do que um endereço de compras. Sumiu uma parte da maneira como o Rio aprendera a olhar vitrines, acompanhar a moda, desejar mercadorias recém-chegadas da Europa e transformar o comércio em passeio. O incêndio de julho de 1943 destruiu o edifício em poucas horas, mas a lembrança do Parc Royal permaneceu precisamente porque, para gerações de cariocas, entrar naquela casa ou simplesmente diminuir o passo diante de suas vitrines havia sido uma forma de participar da própria vida da cidade.
Fonte do Conteudo: Bruna Castro – diariodorio.com
