Nem sempre foi fácil acompanhar a vida pública brasileira. Durante muito tempo, informações relevantes permaneceram distantes do olhar da sociedade. Hoje, problemas que antes passariam despercebidos são rapidamente identificados e debatidos. O Brasil tornou-se mais consciente de suas fragilidades — e talvez seja justamente aí que comece o paradoxo. Ainda assim, permanece uma pergunta desconfortável: por que mais transparência não foi acompanhada por mais confiança institucional?
A questão parece contraditória apenas à primeira vista. Durante muito tempo, consolidou-se a expectativa de que mais transparência produziria automaticamente mais confiança. A lógica era intuitiva. Se os problemas fossem expostos, poderiam ser enfrentados. Se as informações fossem acessíveis, as instituições se tornariam mais responsáveis. Se as irregularidades fossem identificadas, a integridade acabaria fortalecida.
A transparência revelou-se eficaz para iluminar falhas, reduzir zonas de opacidade e ampliar a fiscalização social. Mas sua principal função nunca foi produzir confiança. Seu papel é tornar visível o que antes permanecia oculto. E o que ela revela inclui, inevitavelmente, virtudes e fragilidades.
Essa distinção ajuda a compreender um dos paradoxos mais relevantes do debate contemporâneo sobre corrupção. Quanto mais uma sociedade aperfeiçoa sua capacidade de identificar problemas, maior tende a ser sua exposição a eles. O sucesso dos mecanismos de controle não elimina automaticamente as falhas que revelam. Em muitos casos, apenas as torna impossíveis de ignorar.
O resultado é um cenário peculiar. O país conhece melhor suas vulnerabilidades sem que isso produza, necessariamente, uma percepção equivalente de melhoria institucional. A visibilidade dos problemas cresce mais rapidamente do que a percepção das soluções. E, quando isso acontece, instala-se uma sensação persistente de que as falhas são permanentes, mesmo quando a capacidade de identificá-las e enfrentá-las jamais foi tão elevada. É nesse ponto que a corrupção revela um de seus efeitos mais profundos.
Habitualmente, a corrupção é analisada pelos danos imediatos que provoca. Calculam-se perdas financeiras, estimam-se desperdícios e avaliam-se impactos administrativos. Esses custos são reais. Mas existe uma consequência menos evidente e potencialmente mais duradoura: a corrosão gradual da confiança que sustenta a vida pública.
Poucos ativos são tão valiosos para uma sociedade. Ela reduz custos, facilita a cooperação e permite que instituições funcionem de forma eficiente. Quando está presente, pessoas e organizações concentram energia na produção de resultados. Quando se deteriora, uma parcela crescente dos esforços passa a ser direcionada para a prevenção de riscos.
A consequência aparece de forma silenciosa. Tempo e recursos que poderiam ser direcionados à inovação ou à execução de políticas acabam consumidos pela preocupação constante em evitar erros, riscos e desvios.
É justamente por isso que reduzir o combate à corrupção aos mecanismos de controle seria insuficiente. Eles são indispensáveis para identificar desvios, impor consequências e proteger o interesse público. Mas há um limite para aquilo que conseguem entregar. Sua função é revelar problemas, não necessariamente reconstruir a confiança perdida.
Transparência produz visibilidade. Controle produz supervisão. Responsabilização produz consequências. Mas confiança exige algo diferente. Ela é construída quando as instituições demonstram consistência ao longo do tempo. Surge quando as regras são previsíveis, quando as decisões produzem resultados concretos e quando a sociedade percebe que as falhas identificadas não permanecem sem resposta. Mais do que expor problemas, importa demonstrar capacidade de enfrentá-los.
Talvez seja precisamente essa a grande questão brasileira. O país avançou de forma significativa na construção de mecanismos destinados a revelar problemas. Essa conquista democrática merece ser preservada. Mas o desafio que surge adiante é mais complexo. O objetivo já não é apenas ampliar a capacidade de identificar falhas, e sim fortalecer instituições capazes de gerar confiança.
Essa mudança de perspectiva é fundamental. Sociedades não prosperam apenas porque conseguem identificar seus erros. Tornam-se mais fortes quando são capazes de aprender com eles. A transparência é indispensável porque permite conhecer a realidade. Mas a confiança nasce quando a sociedade percebe que esse conhecimento é capaz de gerar transformação.
O verdadeiro paradoxo brasileiro da corrupção talvez resida exatamente aí. Nunca tivemos tantos instrumentos para compreender nossos problemas nem tanta informação sobre as fragilidades institucionais. E, no entanto, continuamos a enfrentar dificuldades para converter esse conhecimento em confiança.
Superar esse desafio exige reconhecer que transparência, integridade e governança não representam etapas concorrentes de um mesmo processo. São funções complementares. A transparência revela. A integridade orienta. A governança organiza. A confiança emerge quando as três conseguem atuar em conjunto.
Afinal, o objetivo de uma sociedade não pode ser apenas descobrir o que está errado. O verdadeiro teste da maturidade institucional está na capacidade de transformar esse conhecimento em melhoria concreta. Porque o desenvolvimento não depende apenas daquilo que um país é capaz de enxergar. Depende, sobretudo, daquilo que consegue fazer com o que vê.
Marcelo Copelli é jornalista correspondente na Europa, editor de Política, analista e pesquisador na área de Comunicação. Especializado em política nacional e internacional, geopolítica, democracia e comunicação pública, atuando na análise de cenários políticos, disputas de poder, movimentos institucionais e tendências globais ligadas à informação, influência e opinião pública, com foco nos impactos das transformações sociais e tecnológicas sobre as democracias contemporâneas.
Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA
Fonte do Conteudo: Laura Kaiser – veja.abril.com.br