Nicolau Maquiavel nasceu em 1469, em Florença, na Itália, e morreu em 1527. Escreveu O Príncipe em 1513, embora a obra somente tenha sido publicada, após sua morte, em 1532. Mais de 500 anos depois, continua sendo um dos textos políticos mais conhecidos e estudados no mundo.
Por quê? Talvez porque Maquiavel tenha procurado enxergar o poder não como gostaríamos que fosse, mas como ele realmente funciona.
Uma de suas reflexões é que todos veem aquilo que o governante aparenta ser, mas poucos conhecem aquilo que ele realmente é. E afirma que uma das melhores maneiras de avaliar a capacidade de um governante é observar as pessoas que ele escolhe para assessorá-lo.
Trazendo essa reflexão para o Brasil, ministros, secretários e dirigentes dizem muito sobre quem os nomeou. Quando cargos são distribuídos principalmente para acomodar partidos, grupos e interesses políticos, em detrimento da competência, a qualidade e os resultados da administração tendem a sofrer.
Maquiavel também faz um alerta sobre os bajuladores. Um governante cercado apenas por pessoas que concordam com ele corre o risco de perder contato com a realidade. Deve permitir que pessoas qualificadas lhe digam a verdade, inclusive quando ela é desagradável — embora a decisão final continue sendo sua. Manter uma “bolha ideológica” não gera boas ideias e decisões.
Outro ponto extremamente atual é a generosidade com recursos públicos. Benefícios podem conquistar apoio popular, especialmente entre parcelas mais necessitadas da população. Entretanto, Maquiavel alerta que a generosidade excessiva acaba consumindo os recursos disponíveis e, posteriormente, exigindo mais impostos. Ou seja: alguém sempre paga a conta. É o famoso ditado: “Não existe almoço grátis”.
Isso não significa condenar políticas sociais, fundamentais em um país desigual. A questão é outra: benefícios precisam ser sustentáveis, gerar autonomia e possuir fonte de financiamento, para que não se transformem apenas em instrumentos permanentes de dependência política.
Também se atribui a Maquiavel a famosa expressão “os fins justificam os meios”. Ele não escreveu literalmente essa frase. Entretanto, sua obra sustenta uma ideia próxima: o governante deve procurar agir corretamente, mas precisa estar preparado para abandonar determinados princípios quando, diante das circunstâncias, julgar isso indispensável para preservar o Estado ou atingir determinados objetivos, mesmo que sejam pessoais.
É justamente aí que surge uma das questões mais difíceis da política: até onde a busca por um bom resultado pode justificar um meio moralmente questionável?
Maquiavel também defendia prudência com o patrimônio dos cidadãos, pois dizia que, muitas vezes, uma pessoa sofre mais com a perda do seu patrimônio do que com a morte de alguém próximo. Logo, é importante proteger os bens das pessoas físicas e jurídicas.
Ele cita como essenciais a preocupação com gastos excessivos, a capacidade de antecipar problemas e a coragem para tomar decisões, mesmo que, a princípio, sejam consideradas impopulares. E entendia que um líder precisa dar exemplos, e não apenas fazer discursos.
Se conhecesse a matriz SWOT, provavelmente gostaria dela. Governar exige conhecer forças, fraquezas, oportunidades e ameaças antes de tomar decisões.
O Príncipe atravessou cinco séculos porque governos mudaram, tecnologias mudaram e sociedades evoluíram, mas muitas características do comportamento humano e da disputa pelo poder permaneceram surpreendentemente semelhantes.
Talvez Maquiavel nos deixasse hoje uma pergunta incômoda:
“Nossos governantes administram pensando no futuro do país ou na preservação do próprio poder?”
Fonte do Conteudo: Lucas Izoton – eshoje.com.br