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O SAARA quase desapareceu: a história dos imigrantes que transformaram a Rua da Alfândega no grande bazar carioca

A região do Saara está lotada, no Centro do Rio, por conta das compras de Natal / Foto: Reprodução do Facebook

Há lugares no Rio de Janeiro que não são apenas endereços. São organismos vivos, feitos de vozes, cheiros, fachadas antigas, fregueses apressados, comerciantes atentos, vitrines coloridas, histórias de família e uma memória coletiva que parece resistir ao tempo com a teimosia própria das coisas profundamente cariocas. O SAARA, no coração do Centro do Rio, é um desses lugares. Quem atravessa suas ruas estreitas em dezembro, quando o Natal toma conta das lojas, ou nos dias que antecedem o Carnaval, quando fantasias, brilhos, plumas e adereços parecem escorrer das vitrines para a calçada, talvez não imagine que aquele grande mercado popular a céu aberto guarda uma das mais ricas histórias de imigração, resistência urbana e amor ao comércio tradicional que a cidade ainda conserva.

A pesquisadora Neiva Vieira da Cunha, da UERJ e do LeMetro/IFCS-UFRJ, estudou o SAARA como uma das mais tradicionais praças de mercado popular do Rio, marcada pela relação entre fluxos migratórios, atividades comerciais e identidades culturais. Segundo seu trabalho, a região foi originalmente ocupada por imigrantes na virada do século XIX para o século XX, reunindo diferentes grupos étnicos que deram ao lugar uma feição própria, construída em torno do comércio e das formas de sociabilidade da rua.  

A primeira beleza dessa história está justamente aí: o SAARA, um dos lugares mais cariocas do Rio, nasceu em grande parte pelas mãos de estrangeiros. Sírios, libaneses, judeus sefaraditas e ashquenazitas, portugueses, espanhóis, gregos, armênios e, mais tarde, comerciantes asiáticos deram ao lugar uma fisionomia singular. Cada grupo trouxe seus costumes, suas redes de parentesco, seus modos de vender, suas especialidades, suas formas de negociar e também suas esperanças. O resultado foi uma espécie de bazar mediterrâneo, oriental e carioca ao mesmo tempo, transplantado para o miolo histórico da cidade, entre a Avenida Presidente Vargas, a Rua Buenos Aires, a Rua dos Andradas e a Praça da República.

Muito antes de o nome SAARA se tornar conhecido por qualquer carioca, a Rua da Alfândega já era uma das vias fundamentais da vida econômica do Rio. Sua proximidade com o porto, especialmente com o antigo Cais Pharoux, na atual Praça XV, fazia da região um ponto estratégico para o desembarque, armazenamento e distribuição de mercadorias. Ali se concentravam firmas atacadistas, depósitos de bebidas, gêneros alimentícios, tecidos e produtos de armarinho. Dali partiam mercadorias que abasteciam não apenas a capital, mas também cidades do interior. O Centro do Rio, nesse tempo, era mais do que centro administrativo: era porto, mercado, vitrine, entreposto e ponto de encontro do Brasil com o mundo.

Foi nesse cenário que começaram a chegar, ainda no fim do século XIX e com força especial nas primeiras décadas do século XX, os imigrantes sírios e libaneses. Muitos vinham fugindo das dificuldades políticas e econômicas ligadas ao Império Otomano. Como desembarcavam com passaportes turcos, passaram a ser genericamente chamados de “turcos”, embora fossem, em grande parte, sírios e libaneses, muitos deles cristãos ortodoxos ou maronitas. Instalaram-se inicialmente na Rua da Alfândega e nas imediações da Praça da República, criando redes de comércio que logo se tornariam fundamentais para a economia popular da cidade.

Pouco depois, chegaram também os judeus de diferentes origens. Alguns vinham do Oriente Médio, os sefaraditas; outros, da Europa Central e Oriental, os ashquenazitas, especialmente da Polônia, da Rússia e da Romênia. Muitos tinham como referência inicial a Praça Onze, outro território essencial da memória judaica e popular do Rio, e depois se estabeleceram na Rua Senhor dos Passos e arredores. Embora unidos pela religião, esses grupos eram muito diferentes entre si. Falavam línguas diversas, traziam costumes distintos e vinham de contextos culturais próprios. No entanto, o Centro do Rio, com sua vocação histórica de acolher, misturar e transformar, deu a todos eles uma gramática comum: o comércio.

Um dos personagens mais cinematográficos dessa história é o mascate. Antes de se tornarem lojistas estabelecidos, muitos desses imigrantes começaram vendendo mercadorias de porta em porta, carregando malas, caixotes e pequenos estoques de botões, fitas, gravatas, perfumes, tecidos, linhas e agulhas. Eram os “turcos da prestação” e os “judeus da prestação”, figuras que se tornaram familiares em muitas cidades brasileiras. Vendiam fiado, parcelavam, negociavam, adaptavam-se à renda do freguês e criavam laços pessoais com a clientela. Assim, ajudaram a popularizar o acesso a bens manufaturados e introduziram práticas comerciais que fariam parte da vida cotidiana do Brasil urbano.

Essa é uma das chaves para entender o espírito do SAARA. O comércio ali nunca foi apenas troca de dinheiro por mercadoria. Sempre foi conversa, confiança, barganha, freguesia, repetição, família, palavra dada. O preço, em muitos casos, não é apenas uma informação fixa, mas o início de uma interação. No SAARA, compra-se negociando, olhando, tocando, perguntando, comparando, ouvindo o vendedor chamar, entrando e saindo de lojas, voltando ao primeiro balcão depois de circular por três ruas. É uma forma de comércio profundamente diferente da experiência asséptica do shopping center. No SAARA, a rua participa da venda.

E a rua, no Centro do Rio, nunca é neutra. O casario eclético de dois e três pavimentos, as fachadas estreitas, os sobrados contíguos, as lojas abertas diretamente para o passeio e as ruas de pedestres criam uma intimidade rara entre o espaço público e o privado. A loja se derrama sobre a rua, e a rua entra dentro da loja. Mercadorias aparecem em balcões móveis, vitrines improvisadas, cestos, araras e mostruários. As vozes dos vendedores misturam-se ao som ambiente, aos anúncios, ao burburinho dos compradores, às conversas rápidas, aos chamados de quem procura um tecido, uma fantasia, uma bijuteria, uma panela, uma fita, uma especiaria, um brinquedo ou um enfeite natalino.

Poucos lugares do Rio têm uma paisagem tão mutável. No começo do ano, o SAARA se cobre de Carnaval. Logo depois, vêm os materiais escolares, mochilas, cadernos, lápis, estojos e uniformes. Em ano de Copa do Mundo, o verde e amarelo toma as ruas. Em dezembro, o lugar vira quase uma cidade natalina, com trenós, guirlandas, árvores, luzes, presépios, bolas coloridas e aquela sensação carioca de que o Natal começa quando o SAARA começa a brilhar. Essa mudança constante, mais do que simples estratégia comercial, é parte do calendário afetivo do Centro. O ano do Rio passa pelas vitrines do SAARA.

Eduardo Cavaliere no Saara – Foto: Marco Antonio Lima

Mas essa história de vida, mistura e comércio quase foi destruída. A construção da Avenida Presidente Vargas, nos anos 1940, foi uma das maiores intervenções urbanísticas da história do Rio e rasgou violentamente uma parte fundamental do tecido antigo da cidade. Segundo o estudo de Neiva Vieira da Cunha, a abertura da avenida apagou da região nada menos que 525 lojas e residências, além de quatro igrejas e parte significativa do Campo de Santana. Foi um golpe profundo numa área que já possuía uma vida social intensa, feita de relações econômicas, familiares e culturais entre comerciantes de várias origens.

O SAARA não é apenas um lugar que cresceu. É um lugar que sobreviveu. Sobreviveu à lógica monumental das grandes avenidas, à obsessão modernizante que tantas vezes tratou o passado carioca como obstáculo, à destruição de quarteirões inteiros, ao desaparecimento de igrejas, sobrados, moradias e pequenos comércios que davam sentido humano ao Centro. A Avenida Presidente Vargas, com toda a sua escala monumental, produziu também uma ferida urbana. O SAARA permaneceu como uma espécie de resto glorioso, uma porção resistente da cidade miúda, caminhável, misturada e profundamente humana que o urbanismo do século XX tantas vezes tentou eliminar.

A ameaça, porém, não terminou ali. No fim dos anos 1950, voltou a circular a ideia de abertura de uma nova via, a Avenida Diagonal, que poderia fazer desaparecer o grande mercado a céu aberto. Foi diante dessa possibilidade que os comerciantes decidiram se organizar. Em 1962, nasceu a Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega, cuja sigla formaria o nome SAARA. A associação surgiu como instrumento de defesa coletiva, administração local e afirmação política dos comerciantes diante das ameaças do urbanismo oficial.

É bonito perceber que o nome SAARA, hoje tão natural para qualquer carioca, nasceu de uma estratégia de sobrevivência. A sigla virou identidade. A entidade passou a cuidar de serviços como limpeza, coleta de lixo, transporte de mercadorias, propaganda e segurança. Ao fazer isso, os comerciantes demonstraram que aquele território não era um amontoado caótico de lojas, mas uma comunidade econômica organizada, capaz de gerir seu próprio cotidiano e defender sua permanência no Centro.

Há nisso uma lição poderosa para o Rio de hoje. O Centro não se revitaliza apenas com grandes projetos, incentivos fiscais ou reformas vistosas. Ele se revitaliza — e sobretudo permanece vivo — quando seus usos tradicionais são reconhecidos, quando sua população cotidiana é respeitada, quando o comércio de rua é entendido como patrimônio cultural e quando se percebe que a vitalidade urbana nasce da mistura. O SAARA é uma aula prática de cidade. Ele reúne comércio, circulação de transporte, memória imigrante, arquitetura, uso intenso da rua e uma impressionante capacidade de atrair gente de todos os cantos. É justamente o contrário da cidade vazia, cenográfica, feita apenas para passagem ou contemplação.

A dimensão familiar do SAARA também é um de seus elementos mais comoventes. Muitas lojas foram passadas de pai para filho, de avô para neto. A segunda e a terceira geração dos descendentes dos primeiros imigrantes ainda marcou fortemente a região. Em vários casos, a loja foi mais do que um negócio: foi o centro da vida familiar, o ponto de encontro, a herança concreta deixada por quem chegou ao Brasil com pouco dinheiro, muita disposição e uma rede de parentes ou conterrâneos dispostos a ajudar. Durante décadas, era comum que as famílias morassem sobre as lojas ou nos fundos dos estabelecimentos. O sobrado do Centro era casa e trabalho, intimidade e balcão, cozinha e estoque, vida doméstica e vida pública.

Essa conjugação entre morar e trabalhar é uma das características mais antigas e mais urbanas do Rio. O Centro antigo era feito disso. Pessoas viviam sobre lojas, ao lado de oficinas, perto das igrejas, das repartições, dos portos, das praças e dos mercados. A separação radical entre zona de trabalho e zona de moradia, tão típica da cidade moderna, empobreceu muito a vida urbana. O SAARA preservou, ainda que parcialmente, a lembrança de um Rio em que o cotidiano era mais integrado, mais pedestre, mais próximo e mais intenso.

Também por isso, o SAARA não pode ser visto apenas como “comércio popular”. Ele é uma experiência completa de cidade. O conjunto formado pelo casario, pelas ruas estreitas, pelas vozes, pelas mercadorias, pelos cheiros de especiarias, pelo som dos passos, pelo calor humano, pela pressa e pela pausa, pela pechincha e pela vitrine, pela proximidade do metrô, do trem, dos ônibus e do velho coração comercial da cidade cria uma atmosfera que nenhum shopping consegue reproduzir. É o Centro em estado bruto, vivo, popular e autêntico.

Foto: Tomaz Silva/Agência Bras

O SAARA envolve o visitante porque não se revela apenas aos olhos. É preciso atravessar, procurar, perguntar, negociar, entrar, sair, voltar, esbarrar, ouvir. O SAARA é uma experiência corporal do Centro do Rio. Talvez por isso seja tão amado: porque ele não é uma abstração urbana. É concreto, barulhento, colorido, útil, barato, cheio, imperfeito e vivo.

A localização ajuda a explicar essa força. O SAARA está encravado numa área servida por múltiplos meios de transporte. Suas ruas funcionam como passagem para trabalhadores, consumidores, moradores de vários bairros, suburbanos, gente da Zona Sul, carnavalescos, costureiras, decoradores, donas de casa, lojistas de outras regiões, turistas curiosos e personagens anônimos da vida carioca. O estudo menciona uma circulação diária de cerca de 60 mil consumidores, atraídos pela variedade dos produtos e pelos preços baixos. É uma multidão que mantém aceso o velho papel do Centro como ponto de encontro da cidade inteira.

E há algo profundamente carioca nessa mistura social. O SAARA é democrático sem precisar anunciar isso. Ali o morador do subúrbio e o decorador sofisticado podem procurar a mesma fita. A senhora que prepara uma festa de família cruza com o carnavalesco que busca material para uma fantasia. O lojista conversa com o cliente antigo pelo nome. A pechincha convive com o atacado. O popular e o especializado se encontram na mesma calçada. Poucos lugares expressam tão bem a velha capacidade do Centro de juntar mundos diferentes.

O comércio de especiarias e produtos orientais é outro ponto precioso. Entre lojas de tecidos, armarinhos, brinquedos, bijuterias, artigos para festas e papelarias, aparecem restaurantes, armazéns e casas onde se compram grãos, temperos, condimentos, nozes, amêndoas, frutas secas e especialidades do Oriente. É uma sobrevivência sensorial da imigração. O cheiro das especiarias, os doces árabes, os grãos a granel e os produtos típicos funcionam como pequenas cápsulas de memória. O SAARA guarda, em plena cidade portuguesa, imperial, republicana e carioca, ecos de Beirute, Damasco, Alepo, Istambul, Varsóvia, Lisboa, Madri, Atenas e tantos outros pontos de partida.

A história do SAARA é muito mais do que a trajetória de uma área comercial. Ela revela como o Centro do Rio foi construído por sucessivas camadas humanas, econômicas e culturais. A Rua da Alfândega, cujo próprio nome remete ao comércio, à aduana, ao porto e às mercadorias que entravam na cidade, tornou-se palco de uma experiência urbana raríssima. O antigo eixo comercial do Rio Imperial foi sendo ocupado por imigrantes que trouxeram práticas de bazar, redes familiares, venda a crédito, espírito de trabalho e uma impressionante capacidade de adaptação. Depois, quando as grandes reformas ameaçaram varrer tudo do mapa, esses comerciantes criaram uma associação e salvaram seu território.

No fundo, a história do SAARA é a história de uma vitória do pequeno comércio sobre a cidade abstrata dos gabinetes. É a vitória da rua sobre a avenida monumental. Da loja estreita sobre o traçado impessoal. Da conversa sobre o silêncio dos grandes centros comerciais fechados. Da memória familiar sobre a demolição. Do Centro vivo sobre o Centro tratado apenas como passagem.

Num momento em que o Centro do Rio vive um novo ciclo vigoroso de revitalização, com mais moradores, novos negócios, bares, restaurantes, projetos culturais, retrofits e reocupação urbana, revisitar a história do SAARA é também lembrar que a vitalidade da região nunca deixou de existir. Ela estava ali, pulsando nas ruas estreitas, nos comerciantes, nas lojas de família, nos fregueses, nos cheiros e nas mercadorias. O SAARA nunca precisou fingir ser autêntico. Ele simplesmente é.

Por isso, qualquer projeto sério de valorização do Centro precisa olhar para o SAARA não como uma área meramente comercial, mas como patrimônio vivo da cidade. Seu valor não está apenas nos prédios, embora o casario eclético seja parte essencial da paisagem. Não está apenas nas lojas, embora elas sustentem milhares de relações econômicas. Não está apenas na memória dos imigrantes, embora ela seja fundamental. Está na soma de tudo isso: arquitetura, comércio, circulação, oralidade, trabalho, família, festa, pechincha e permanência.

O Rio antigo não sobrevive apenas nas igrejas barrocas das irmandades católicas tricentenárias, nos sobrados restaurados, nas fachadas tombadas ou nas fotografias em sépia. Ele sobrevive também quando uma rua continua sendo rua. Quando o vendedor chama o freguês. Quando o comércio ocupa o térreo e a vida passa a pé. Quando um lugar conserva a escala humana. Quando a cidade ainda permite encontro, surpresa e negociação. O SAARA é uma dessas raras permanências.

Talvez seja por isso que o carioca, mesmo sem saber a história completa, reconheça ali alguma coisa familiar. O SAARA parece antigo mesmo quando vende mercadoria nova. Parece estrangeiro mesmo sendo absolutamente carioca. Parece caótico, mas obedece a uma ordem própria. Parece popular, mas carrega uma sofisticação urbana que muitos bairros planejados jamais alcançaram. Ele é, ao mesmo tempo, mercado, memória e teatro.

Poucos cariocas imaginam que o lugar onde hoje compram fantasias, tecidos, enfeites de Natal, brinquedos ou artigos para festas guarda uma das histórias mais importantes da formação social do Centro do Rio. É um capítulo escrito por imigrantes que desembarcaram na Praça XV, caminharam para a Rua da Alfândega, venderam de porta em porta, abriram lojas, formaram famílias, enfrentaram demolições e deixaram para a cidade uma herança que continua viva.

O SAARA, afinal, é uma pequena epopeia carioca. Uma epopeia sem estátuas, sem generais e sem solenidade oficial. Seus heróis foram mascates, lojistas, costureiros, caixeiros, comerciantes, fregueses, famílias inteiras que transformaram necessidade em trabalho e trabalho em cidade. No meio do Centro, entre a memória do porto, a sombra da Presidente Vargas, a proximidade da Praça XV, o casario resistente e o burburinho diário de milhares de pessoas, o SAARA continua contando a história de um Rio que se recusa a desaparecer.

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Fonte do Conteudo: Bruna Castro – diariodorio.com

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