Convido você, meu querido leitor, minha querida leitora, a fazer uma viagem no tempo e revisitar o Barroco de Gregório de Matos.
“Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
de vossa alta clemência me despido;
porque quanto mais tenho delinquido,
vos tenho a perdoar mais empenhado.”
Nesse trecho, Gregório de Matos propõe uma reflexão sobre a condição humana. O homem é pecador. O erro faz parte da nossa natureza, assim como a fragilidade e a imperfeição. Deus, por sua vez, é o único ser perfeito, aquele que perdoa. Mas o perdão pressupõe arrependimento, reconhecimento da culpa e desejo de redenção.
Como muitos de vocês sabem, esta que vos escreve nasceu bem perto do território sagrado de uma das invocações da Virgem Maria: Nossa Senhora das Neves. Foi ali, na antiga Fazenda Muribeca, berço do surgimento de Presidente Kennedy, que aprendi que a fé também constrói territórios.
Todos os anos, a cidade convida devotos e não devotos para celebrar essa grande festa, que já atravessa mais de dois séculos de história. O motivo maior é a Padroeira. O encontro é sagrado. Chegam romeiros de todos os cantos, muitos deles para agradecer uma graça alcançada. Vêm a pé, em caravanas, de ônibus, a cavalo ou de joelhos. O primeiro motivo é sempre o mesmo: a fé. A devoção. O milagre. A gratidão.
No mesmo chão coberto de poeira, margeado por aroeiras e pela areia branca que lembra a neve, centenas de barracas comercializam de tudo para fiéis e também para aqueles que apenas acompanham a festa. As estruturas são montadas em área pertencente à Igreja, proprietária daquele território há mais de três séculos. A construção do santuário é atribuída, conforme registros históricos, à reconstrução realizada em 1694, após um incêndio destruir o templo primitivo, ou ao período compreendido entre 1707 e 1759, quando os jesuítas consolidaram a Fazenda Muribeca como importante centro missionário.
Caminhando por aquelas ruas empoeiradas, entre o vento constante e a multidão, vê-se uma verdadeira força-tarefa: voluntários, padres, seminaristas, devotos, comerciantes, artistas, servidores públicos, policiais, guardas municipais, bombeiros civis, médicos, enfermeiros, técnicos, motoristas, eletricistas e caminhões-pipa molhando o pátio da igreja para amenizar a poeira. Todos trabalham para que a festa aconteça.
E, junto com os romeiros, chegam também os comerciantes. Alguns movidos pela fé, outros pela oportunidade de garantir o sustento da família. Afinal, milhares de visitantes significam também movimento econômico. Cada barraca representa trabalho, investimento e expectativa. O destino de cada centavo arrecadado pela Igreja ou pelos comerciantes pertence à prestação de contas de cada um. Não cabe a nós especular.
Mas volto ao poema de Gregório.
Entre os devotos também estão aqueles que desejam dançar, beber, comer, reencontrar amigos, ouvir música, paquerar, viver a festa para além da liturgia. Se há pecado nos excessos ou no desvio da conduta de cada um, isso pertence à consciência de quem os pratica. O arrependimento, se vier, será igualmente individual.
O pecado sempre caminhou ao lado da fé. Caminhou nos desejos reprimidos, nas contradições humanas e também nos grandes centros de peregrinação ao longo da história. O comércio sempre esteve ao redor dos templos. Assim era em Jerusalém. Assim foi na Idade Média. Assim continua sendo nas grandes romarias brasileiras.
Do lado de dentro do portal está o sagrado da celebração: a missa, a sala das promessas, a sacristia, a oração. Do lado de fora, a vida segue seu curso, com suas escolhas, seus excessos e suas responsabilidades.
A Polícia Militar permanece de prontidão para garantir a segurança. A Prefeitura estende as mãos como quem acolhe milhares de visitantes, oferecendo estrutura e serviços públicos. A Justiça, simbolizada por uma balança, precisa agir com equilíbrio. Se existem regras, elas devem alcançar todos igualmente. Não podem existir dois pesos e duas medidas.
Afinal, se determinada conduta não pode ser permitida para uns, também não deveria ser para outros. Se há fiscalização, que ela seja isonômica. Se há limites, que sejam claros. Se há proibição de venda ou consumo de bebidas alcoólicas em determinado espaço, que essa regra alcance todos, sem distinção. É justamente na igualdade de tratamento que reside a legitimidade das decisões.
Enquanto isso, a padroeira continua ali, silenciosa, recebendo milhares de pessoas que chegam carregando suas dores, seus pecados, suas promessas e suas esperanças.
Que Nossa Senhora das Neves continue abençoando a todos nós.
“Se basta a vos irar tanto um pecado,
a abrandar-vos sobeja um só gemido;
que a mesma culpa, que vos há ofendido,
vos tem para o perdão lisonjeado.”
— Gregório de Matos
Foto: ilustração
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Fonte do Conteudo: Luciana Máximo – www.espiritosantonoticias.com.br