
A prisão do vereador Salvino Oliveira (PSD), aliado do prefeito do Rio, Eduardo Paes, nesta quarta-feira (11), abriu um novo capítulo na escalada de tensão entre a Prefeitura do Rio e o governo estadual, comandado por Cláudio Castro (PL). O episódio ocorre justamente na mesma semana em que uma série de operações da Polícia Federal teve como alvo ex-secretários do governo estadual e policiais militares suspeitos de ligação com o Comando Vermelho.
A coincidência temporal das ações policiais, conduzidas por forças subordinadas a diferentes esferas de poder, expôs o pano de fundo político que já marca o início informal da disputa eleitoral pelo Palácio Guanabara. Enquanto Castro tem a segurança pública como principal bandeira de seu grupo político, aliados e integrantes de sua gestão vêm sendo investigados por supostos vínculos com o crime organizado.
Do outro lado, Paes se prepara para disputar o governo do estado alinhado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo governo comanda a Polícia Federal, força responsável pelas operações que atingiram figuras ligadas ao governo estadual.
Prisão de vereador e troca de acusações
Salvino Oliveira foi preso durante uma operação da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro que investiga lavagem de dinheiro e apoio logístico ao Comando Vermelho. Segundo as investigações, o vereador teria negociado com traficantes da comunidade da Gardênia Azul autorização para fazer campanha eleitoral na região em troca da instalação de quiosques na área dominada pela facção.
Salvino foi secretário da Juventude na gestão de Paes entre 2021 e 2024 e é considerado um aliado político do prefeito.
Logo após a operação, Castro utilizou as redes sociais para atacar o parlamentar e associar o caso à gestão municipal.
“Esse é o mesmo vereador que vivia atacando nosso governo e as polícias. Hoje todos estamos conhecendo o seu real lado: trabalhava para bandido e não para o povo, escreveu o governador, classificando Salvino como “o braço direito do Comando Vermelho dentro da Prefeitura do Rio”.
Castro também afirmou que organizações criminosas teriam se infiltrado na administração municipal ao longo dos anos.
Paes acusa uso político da polícia: “Castro é omisso e conivente com o crime”
Pré-candidato ao governo estadual, Paes reagiu duramente às declarações do governador e disse que não tolera qualquer tipo de irregularidade na administração municipal. Ao mesmo tempo, afirmou que a operação pode ter sido usada com objetivos políticos.
“Não sou conivente com nenhum tipo de crime e defendo a continuidade das investigações. Mas o que não dá para aceitar é o uso político das forças policiais comandadas pelo governador”, afirmou o prefeito.
Paes também acusou Castro de omissão diante das investigações que atingem aliados do governo estadual.
“Diante de tudo isso, alguém ouviu alguma palavra do governador Cláudio Castro? O governador é omisso e conivente com aliados que se envolvem com o crime”, declarou.
O prefeito disse ainda que a operação contra Salvino ganhou “caráter eleitoreiro”, sobretudo após publicações do próprio governador nas redes sociais.
Semana de operações contra aliados do governo estadual
A prisão do vereador ocorreu poucos dias depois de ações da Polícia Federal que atingiram integrantes da estrutura do governo estadual e agentes de segurança.
Nesta quarta-feira, sete policiais militares foram presos no terceiro dia consecutivo da Operação Anomalia, acusados de colaborar com o tráfico de drogas e com milícias. As prisões ocorreram em bairros da Zona Oeste do Rio e em cidades da Baixada Fluminense, como Nova Iguaçu e Nilópolis.
Segundo a investigação, os agentes utilizavam seus cargos para facilitar a logística do crime, proteger criminosos e ocultar recursos obtidos de forma ilícita.
A operação faz parte de uma força-tarefa da Polícia Federal para cumprir determinações do Supremo Tribunal Federal no âmbito da chamada ADPF das Favelas, que busca combater conexões entre agentes do Estado e organizações criminosas.
Nos dias anteriores, a PF também prendeu um delegado da própria corporação e investigou um delegado e dois agentes da Polícia Civil suspeitos de extorsão contra traficantes.
Segurança pública no centro da disputa eleitoral
A sequência de prisões envolvendo agentes públicos e suspeitas de ligação com facções expõe o tema que tende a dominar a disputa eleitoral no Rio em 2026.
Castro e seu grupo político têm a segurança pública como principal plataforma eleitoral. As recentes investigações, porém, atingem diretamente integrantes de sua base e colocam em xeque o discurso de combate ao crime.
Paes, por sua vez, tenta explorar politicamente os episódios para reforçar críticas à gestão estadual. Na segunda-feira, ao comentar outra operação da Polícia Federal contra um ex-subsecretário do governo estadual, o prefeito chamou integrantes da administração de Castro de “tchutchucas do Comando Vermelho”.
Vereador nega acusações
Por meio de sua assessoria, Salvino Oliveira negou as acusações e afirmou que o governador estaria usando o aparato policial para intimidar adversários políticos.
O vereador também contestou um vídeo publicado por Castro que mostraria dinheiro supostamente apreendido durante a operação.
“É lamentável que o governador use sua polícia para intimidar adversários em ano eleitoral e ainda publique vídeo falso com imagens de dinheiro que não foram apreendidas na minha casa”, afirmou em nota. Salvino disse ainda que sua defesa já está tomando providências judiciais contra o governador.
A troca de acusações reforça o clima de pré-campanha no estado, com o campo político dividido entre o grupo de Castro e da família Bolsonaro contra a candidatura de Paes ao governo estadual com o apoio do presidente Lula.
Fonte do Conteudo: Wilson França – diariodorio.com