Psiquiatra explica como a agonorexia pode afetar a saúde mental

O uso de canetas emagrecedoras à base de GLP-1 tem se tornado cada vez mais comum no tratamento da obesidade. Um dos efeitos esperados dessas medicações é a redução do apetite.

Em alguns casos, porém, a fome diminui de forma tão intensa que a pessoa passa a comer muito pouco, perde peso rapidamente e começa a apresentar sinais físicos e emocionais.

É nesse contexto que surge o termo informal “agonorexia”, usado para descrever a supressão exagerada da fome associada ao uso desses medicamentos.

Diferentemente da anorexia — transtorno psiquiátrico marcado por medo intenso de engordar e distorção da imagem corporal — a agonorexia não é um diagnóstico oficial e, em geral, começa como efeito farmacológico.

Ainda assim, quando a ingestão alimentar se torna muito baixa e o emagrecimento passa a ocupar papel central na vida da pessoa, o impacto pode ultrapassar o metabolismo e alcançar a saúde mental.

Quando o emagrecimento altera identidade e comportamento

O psiquiatra Lenon Mazetto explica que, embora a agonorexia não seja um transtorno psiquiátrico formal, o problema surge quando o emagrecimento deixa de ser apenas consequência metabólica e passa a organizar a identidade do paciente.

Mudanças corporais rápidas alteram percepção de identidade e podem provocar ansiedade, insegurança ou medo de perder o ‘novo corpo’. Paradoxalmente, alguns pacientes passam a temer a normalização do apetite”, afirma.

Segundo o médico, a sensação de controle sobre a fome pode funcionar como reforço psicológico poderoso, especialmente em pessoas com vulnerabilidade prévia.

Em alguns casos, isso pode facilitar a transição para anorexia nervosa ou bulimia, se houver estrutura psíquica predisponente”, explica o psiquiatra. Entre os fatores de risco estão:

  • Histórico pessoal de transtornos alimentares;
  • Personalidade rígida e perfeccionista;
  • Pensamentos do tipo “tudo ou nada”;
  • Dificuldade de regulação emocional.

Mazetto destaca que o sinal central de alerta aparece quando o emagrecimento passa a organizar a autoestima e o senso de valor pessoal. Comparação corporal constante, medo desproporcional de recuperar peso mínimo, sofrimento ao comer e uso da medicação como estratégia de controle emocional indicam necessidade de reavaliação.

“A medicação deve ser reavaliada quando o emagrecimento se torna prioridade absoluta, há sofrimento psíquico associado ao ato de comer ou surgem sintomas compatíveis com transtorno alimentar”, orienta.

Restrição alimentar X humor e comportamento

Do ponto de vista metabólico, a nutricionista Tatiane Matos Lourenço explica que a ingestão muito abaixo das necessidades fisiológicas pode comprometer diretamente o funcionamento do cérebro.

“Quando há restrição calórica severa, o corpo entra em estado de alerta metabólico. Isso pode aumentar o cortisol e favorecer ansiedade, piora do sono e maior reatividade emocional”, afirma.

Ela ressalta que a produção de substâncias responsáveis pelo equilíbrio do humor depende da alimentação adequada. “Quando há baixo consumo proteico, restrição excessiva de carboidratos ou ingestão calórica muito reduzida, pode haver menor disponibilidade de substrato para a síntese”.

Na prática, isso pode se manifestar como:

  • Irritabilidade e dificuldade de concentração, associadas a episódios de hipoglicemia relativa;
  • Fadiga mental pela menor disponibilidade de glicose para o cérebro;
  • Queda na síntese de neurotransmissores, quando há consumo insuficiente de proteínas;
  • Déficits de micronutrientes como B6, B12, ferro e magnésio, ligados à piora da energia e da cognição.

Para a especialista, o acompanhamento nutricional é fundamental para evitar que o tratamento para perda de peso comprometa a vitalidade. Garantir ingestão proteica adequada, preservar massa magra, manter micronutrientes essenciais e estruturar minimamente as refeições são medidas que ajudam a proteger também o equilíbrio emocional.

Os especialistas são unânimes em um ponto: as canetas emagrecedoras podem ser ferramentas importantes no tratamento da obesidade. Mas, quando a redução da fome começa a afetar emoções, identidade e qualidade de vida, é sinal de que a saúde mental também precisa ser acompanhada de perto.

Fonte do Conteudo: Metrópoles – www.metropoles.com

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