Roberto Anderson: Búcios, Buziosaires

Neste verão de 2026, Búzios está excepcionalmente cheia de argentinos. É verdade que eles têm vindo com frequência à cidade, e já houve outros verões em que também o câmbio os favoreceu. Num desses, ficou célebre a expressão dáme dos, quando pediam os artigos em dobro, já que tudo era muito barato. Mas neste ano eles estão aí aos montes. Na praia é fácil reconhecê-los. Homens argentinos não usam sunga, só bermuda. As mulheres são bonitas e brancas. São as que têm plata para viajar. Sorriem felizes e usam cangas com a bandeira do Brasil.

Argentinos em Búzios são clientes e são vendedores, são hóspedes e são recepcionistas, são fregueses e são garçons. A pelada no campinho da praça é de argentinos. O treino de box na quadra da praça é de argentinos. Vendem empanadas, alugam barracas e cadeiras de praia e fazem entregas. Até já vendem amendoim na praia e fazem caipirinha! Os brasileiros que ainda vendem algo, o fazem em espanhol.

É uma multidão de jovens. Parecem ser os filhos, ou os netos, da última leva de argentinos que por aqui aportou em massa, quando o câmbio também lhes foi favorável. E não vai aí nenhuma reclamação contra a sua presença. Em geral são buena onda. Curtem o verão como se não houvesse amanhã e, às vezes, são barulhentos. Os rapazes estão sempre em grupo, sem camisa e, muitas vezes, descalços. E parecem mais numerosos que as chicas, que também andam juntas. Os dois grupos curtem o verão separados, encontrando-se nas baladas à noite.

O argentino médio vem buscar a Búzios de Brigitte Bardot, mas as hospedagens com preços atraentes estão na periferia. E a periferia de Geribá, ou de qualquer outro bairro conhecido, não é glamourosa. A cidade não suporta tantos visitantes. O trânsito para. O lixo se acumula nas caçambas e se espalha pelas calçadas. Estas, muito estreitas e nem sempre pavimentadas, sequer merecem esse nome. Aqui e ali o esgoto transborda, correndo pela sarjeta. E a clássica falta d’água é atestada pelos caminhões-pipa abastecendo estabelecimentos comerciais.

Mas os argentinos parecem não se importar com esses perrengues. Estão felizes e curtem o dia de hoje, que a crise econômica de amanhã é certa.

Fonte do Conteudo: Roberto Anderson – diariodorio.com

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